Mais
de
350
músicos
,
incluindo
Roberto
Carlos
,
Erasmo
Carlos
,
Milton
Nascimento
,
Gilberto
Gil
,
Zeca
Pagodinho
,
Marisa
Monte
e
Samuel
Rosa
,
assinaram
um
manifesto
contra
a
versão
de
músicas
em
campanhas
eleitorais
.
O
tema
tem
previsão
de
ser
julgado
em
o
STJ
(
Superior
Tribunal
de
Justiça
)
em
esta
quarta-feira
(
9
)
.
O
plenário
vai
decidir
se
as
versões
de
canções
para
campanhas
políticas
devem
ser
consideradas
paródias
e
,
por
isso
,
e
isentas
de
autorização
e
pagamento
de
direitos
autorais
.
O
g1
já
explicou
a
briga
:
as
eleições
de
2020
em
o
Brasil
foram
cheias
de
melodias
conhecidas
e
autores
contrariados
.
De
sucessos
sertanejos
a
hits
gringos
,
com
destaque
para
o
forró
de
pisadinha
,
ritmo
de
o
momento
por
o
interior
de
o
país
,
tudo
virou
jingle
.
‘
Portão
’
aberto
por
Tiririca
A
prática
é
antiga
,
mas
aumentou
com
um
precedente
:
uma
disputa
entre
Tiririca
e
Roberto
Carlos
.
Ela
começou
em
2014
,
quando
o
clássico
refrão
"
Eu
voltei
,
agora
pra
ficar
,
porque
aqui
,
aqui
é
o
meu
lugar
"
virou
"
Eu
votei
,
de
novo
vou
votar
,
Tiririca
,
Brasília
é
seu
lugar
"
.
Tiririca
chegou
a
ser
condenado
em
1ª
instância
por
o
uso
de
a
música
“
O
portão
”
em
propaganda
eleitoral
sem
autorização
de
os
autores
,
Roberto
e
Erasmo
Carlos
.
Mas
o
deputado
federal
por
o
PL
recorreu
e
,
em
o
fim
de
2019
,
a
3ª
Turma
de
o
Superior
Tribunal
de
Justiça
(
STJ
)
reverteu
o
resultado
.
A
defesa
de
Roberto
Carlos
recorreu
,
e
finalmente
haverá
em
2022
o
julgamento
de
o
embargo
de
divergência
,
que
questiona
o
conceito
de
paródia
em
o
caso
.
Agora
,
o
plenário
vai
avaliar
a
decisão
.
A
decisão
de
o
STJ
até
agora
favorável
a
Tiririca
diz
que
o
uso
alterado
de
canção
em
programa
político
deve
ser
considerado
“
paródia
”
,
e
por
isso
ser
isento
de
autorização
e
de
pagamento
de
direitos
autorais
.
Mercado
aquecido
em
2020
“
Quando
algum
cliente
fica
em
a
dúvida
,
eu
pego
e
mando
o
link
de
notícia
sobre
o
caso
de
o
Tiririca
para
tranquilizar
”
,
disse
Geycilene
Martins
,
39
anos
,
dona
de
uma
produtora
de
jingles
em
Teixeira
de
Freitas
(
BA
)
.
Ela
calculava
em
2020
que
90
%
de
sua
produção
atual
era
de
versões
.
O
YouTube
ficou
lotado
de
vídeos
de
demonstração
de
estas
produtoras
,
que
oferecem
para
candidatos
a
prefeito
e
vereador
a
finalização
de
"
paródias
"
de
diversos
sucessos
.
O
G1
conversou
com
seis
produtores
de
jingles
que
trabalham
para
candidatos
de
todas
as
regiões
de
o
Brasil
,
e
eles
disseram
que
:
A
demanda
por
versões
em
jingles
,
que
eles
chamam
de
paródia
,
aumentou
em
2020
.
Todos
comentam
a
brecha
de
o
caso
Tiririca
como
incentivo
para
o
aumento
.
Elas
foram
mais
pedidas
para
campanhas
de
vereadores
de
o
que
de
prefeito
,
e
mais
para
cidades
menores
que
capitais
.
Mas
,
em
2020
,
até
grandes
campanhas
de
prefeito
encomendaram
jingles
de
versões
.
O
preço
de
um
jingle
varia
bastante
.
Mas
,
em
média
,
uma
faixa
“
reciclada
”
custa
menos
de
a
metade
de
uma
música
original
.
'Promoção
’
Além
de
a
brecha
de
“
O
portão
”
,
há
outra
vantagem
de
a
versão
:
com
a
música
semipronta
,
fica
mais
fácil
trabalhar
sozinho
ou
em
equipes
menores
em
tempos
de
pandemia
.
“
O
inédito
toma
muito
tempo
e
fica
mais
difícil
em
esse
distanciamento
social
.
Tem
que
juntar
a
galera
.
A
gente
está
prezando
por
os
que
já
temos
produzido
”
,
explica
Waldir
Lima
Gonçalves
,
49
anos
,
que
produz
jingles
em
Três
Corações
(
MG
)
.
“
Um
‘
original
de
o
zero
’
a
gente
entrega
por
R$
1
mil
.
Para
reproduzir
uma
música
nossa
que
já
tenha
modelo
,
a
gente
cobra
R$
500
.
E
‘
paródia
’
agora
está
por
R$
149
.
Lembrando
que
é
uma
promoção
”
,
anuncia
Yago
Silva
,
26
anos
,
produtor
de
Monteiro
(
PB
)
.
Pisadinha
com
força
Um
nome
que
apareceu
em
todas
as
conversas
com
produtores
é
o
de
os
Barões
de
a
Pisadinha
.
O
duo
baiano
de
pisadinha
,
um
forró
tocado
só
em
o
teclado
,
tem
o
repertório
mais
pedido
para
versões
em
2020
.
“
Barões
é
uma
febre
.
Já
fiz
por
o
menos
umas
cinco
ou
seis
músicas
diferentes
de
eles
”
,
diz
Renilson
Barros
,
36
anos
,
produtor
de
jingles
de
São
Paulo
.
“
O
que
o
povo
tem
pedido
muito
é
a
tal
de
a
pisadinha
.
Aqui
em
a
Bahia
tem
também
nosso
pagode
:
Léo
Santana
,
Igor
Kannário
.
E
em
os
outros
lugares
têm
os
funks
,
o
brega-funk
”
,
acrescenta
Gecylene
Martins
.
Os
Barões
chegam
longe
.
“
Embora
a
gente
esteja
em
o
Sul
,
o
pessoal
tem
pedido
bastante
o
piseiro
”
,
diz
Giovani
Del
Mas
,
36
anos
,
de
Guaporé
(
RS
)
.
“
Mas
acabam
pedindo
mais
ritmos
de
o
Sul
.
Normalmente
o
chamamé
[
ritmo
argentino
de
origem
indígena
]
e
o
vanerão
”
,
diz
.
‘
Baitaca
fogo
’
em
a
campanha
Foi
um
ídolo
de
o
vanerão
gaúcho
que
teve
a
reação
mais
irada
contra
as
paródias
em
202o
.
“
De
o
fundo
de
a
grota
”
,
de
Baitaca
,
é
um
sucesso
que
passou
batido
em
o
eixo
Rio-SP
,
mas
virou
fenômeno
por
o
interior
de
o
país
.
A
faixa
foi
campeã
de
pedidos
de
jingles
em
a
região
,
contou
Claudir
Koren
,
que
trabalha
há
20
anos
em
campanhas
em
Santa
Rosa
(
RS
)
.
“
Não
só
aqui
como
em
o
Mato
Grosso
,
Mato
Grosso
de
o
Sul
,
até
Rondônia
.
Tem
muita
gente
que
leva
o
vanerão
para
cima
.
”
Claudir
foi
um
de
os
que
desistiram
de
usar
“
De
o
fundo
de
a
grota
”
.
Mas
ele
discorda
de
a
atitude
de
Baitaca
.
“
Foi
um
tiro
em
o
pé
.
O
pessoal
só
faz
jingle
se
a
música
é
boa
.
Agora
todo
mundo
teve
que
tirar
e
ficou
contra
ele
,
‘
garrou
um
ódio
’
de
ele
”
,
critica
o
produtor
.
O
g1
procurou
Baitaca
,
que
encaminhou
mensagens
com
a
mesma
opinião
de
o
vídeo
:
para
ele
,
a
decisão
de
o
STJ
sobre
Tiririca
e
Roberto
Carlos
foi
específica
,
equivocada
em
a
sua
visão
,
e
não
anula
seu
direito
de
autorizar
ou
não
o
uso
de
sua
própria
obra
.
“
O
uso
de
a
obra
em
propaganda
política
visa
‘
vender
’
um
projeto
,
uma
ideia
.
Em
este
momento
,
não
temos
a
homenagem
ou
sátira
,
e
sim
a
apropriação
de
obra
de
terceiro
,
para
proveito
,
projeção
”
,
opina
o
cantor
gaúcho
.
Barões
vermelhos
de
raiva
O
G1
procurou
os
Barões
de
a
Pisadinha
para
saber
o
que
acham
de
o
uso
de
suas
músicas
em
jingles
.
O
empresário
de
a
dupla
,
Ordiley
Katter
Valcari
,
diz
que
já
havia
notado
a
presença
em
inúmeros
jingles
não
autorizados
e
que
iria
tomar
"
providências
jurídicas
cabíveis
"
.
"
Infelizmente
pouquíssimos
candidatos
em
os
procuraram
para
regularizar
a
situação
.
Acho
que
o
Tribunal
Regional
Eleitoral
de
cada
região
deve
exigir
em
a
prestação
de
conta
de
cada
candidato
a
autorização
de
o
artista
para
o
uso
de
a
sua
obra
"
,
disse
.
"
Pois
se
em
a
campanha
já
estão
agindo
assim
,
imagine
em
o
mandato
"
,
critica
o
empresário
.
Dúvidas
musicais
O
advogado
Sidney
Sanches
,
presidente
de
a
comissão
de
direito
autoral
de
a
Ordem
de
os
Advogados
de
o
Brasil
(
OAB
)
,
explica
que
o
direito
autoral
brasileiro
dá
espaço
a
a
paródia
para
assegurar
liberdade
de
expressão
e
o
humor
em
o
debate
público
.
Por
isso
,
a
lei
abre
uma
exceção
para
a
paródia
e
não
exige
autorização
de
o
autor
para
estes
casos
.
Mas
,
para
Sidney
,
a
versão
de
Tiririca
não
tem
o
objetivo
previsto
por
essa
definição
de
paródia
,
e
sim
o
de
a
“
capitalização
de
um
interesse
pessoal
”
.
A
decisão
de
o
STJ
não
é
final
e
foi
só
sobre
o
caso
de
“
O
portão
”
,
explica
o
advogado
.
“
Mas
lógico
que
,
tratando
se
de
quem
é
,
e
o
precedente
que
foi
,
que
vai
impactar
.
É
um
sinal
negativo
em
as
eleições
para
os
compositores
.
”
O
advogado
aponta
outro
problema
:
se
para
a
justiça
a
questão
não
é
clara
,
as
redes
sociais
,
cada
vez
mais
importantes
em
a
eleição
,
podem
reconhecer
o
direito
de
o
autor
e
derrubar
versões
sem
autorização
.
Em
uma
campanha
cada
vez
mais
digital
,
pode
ficar
estranho
:
“
O
YouTube
pode
tirar
de
o
ar
,
seguindo
suas
políticas
.
E
essa
proibição
não
necessariamente
vai
se
repetir
em
a
propaganda
de
TV
e
rádio
ou
em
o
carro
de
som
em
a
rua
.
Isso
é
uma
preocupação
”
,
diz
Sidney
.
Axé
eleitoral
Em
essa
toada
incerta
,
compositores
tentam
reagir
.
O
baiano
Manno
Góes
,
autor
de
diversos
sucessos
de
o
carnaval
de
Salvador
e
diretor
de
comunicação
de
a
União
Brasileira
de
Compositores
(
UBC
)
,
considera
a
decisão
inicial
de
o
STJ
“
um
precedente
perigoso
,
inédito
,
que
não
existe
em
nenhum
lugar
de
o
mundo
”
.
O
problema
é
antigo
,
mas
ele
já
se
sentiu
mais
protegido
.
“
Já
tive
a
música
‘
Praieiro
’
usada
por
um
candidato
com
sobrenome
Guerreiro
[
palavra
presente
em
o
hit
de
o
Jammil
e
Uma
Noites
]
.
Entrei
com
ação
e
ganhei
.
Depois
fizemos
um
acordo
,
como
deve
ser
.
”
Em
2020
,
ele
teve
dois
pedidos
formais
para
o
uso
de
“
Milla
”
,
outro
sucesso
de
sua
autoria
.