Representação em texto

A revolução dos alimentos 'animais' criados em laboratório

IDTEJ_0519
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2021/12/29/a-revolucao-dos-alimentos-animais-criados-em-laboratorio.ghtml
TítuloA revolução dos alimentos 'animais' criados em laboratório
SubtítuloConhecida como agricultura celular, esta técnica faz parte de um grupo cada vez maior de tentativas de encontrar novas formas de produção de alimentos, sem empregar animais de criação. A ideia é produzir carne, leite ou outros produtos sem a necessidade de criação, abate e processamento de animais.
Ano2021
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEconomia
PropósitoNoticiar

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A criação de animais é responsável por uma parcela significativa de as emissões de gases de a indústria alimentícia , mas os cientistas e cada vez mais empresas esperam que a produção de carne - incluindo a carne bovina , as aves e até mesmo os peixes - com cultivos celulares em laboratório possa representar uma solução .

Perumal Gandhi oferece um copo de café com cobertura de espuma que parece um café com leite como qualquer outro oferecido em uma cafeteria por a manhã . Mas o leite de o copo não veio de uma vaca . Ele foi produzido por fungos .

Gandhi e seu colega Ryan Pandya - ambos , bioengenheiros - são cofundadores de uma start-up chamada Perfect Day . Eles fornecem a os fungos sequências genéticas usadas por as vacas para produzir certas proteínas de o leite , como a proteína de o soro .

Em vez de retirar DNA de uma vaca , eles inserem em os fungos genes decodificados para as proteínas de o leite . Os fungos então produzem as proteínas em um processo de fermentação . O produto resultante pode ser usado para criar um líquido com propriedades similares a o leite ou para fabricar sorvetes ou queijos cremosos , sem o uso de animais .

Conhecida como agricultura celular , esta técnica faz parte de um grupo cada vez maior de tentativas de encontrar novas formas de produção de alimentos , sem empregar animais de criação . A ideia é produzir carne , leite ou outros produtos sem a necessidade de criação , abate e processamento de animais .

E esta forma de produção de alimentos poderá também ajudar o planeta . A criação de gado sozinha é responsável por cerca de 14,5 % de as emissões globais de gases de o efeito estufa - e a indústria alimentícia como um todo representa um terço de as nossas emissões de carbono .

Levar alimento para bilhões de pessoas todos os dias é uma tarefa monumental que tende a crescer cada vez mais , a a medida que aumenta a população humana . De o desmatamento a o transporte , armazenagem e gestão de resíduos , cada etapa de a cadeia alimentícia traz com si uma alta pegada de carbono .

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Para o mundo atingir o objetivo de zero emissão de carbono até 2050 , como definido em o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas , a indústria alimentícia precisará fazer a sua parte . Como poderemos mudar os alimentos que consumimos a a medida que se aproxima a metade de o século ?

Gandhi e Pandya , residentes em Berkeley , em a Califórnia ( Estados Unidos ) , esperam oferecer parte de a solução . Outros cientistas em todo o mundo alimentam esperanças similares de produzir em laboratório alimentos que imitem a carne e os laticínios .

A TurtleTree Labs de Singapura , por exemplo , é a primeira empresa de o mundo a usar células-tronco de mamíferos para produzir leite , incentivando as células a fabricar o produto em enormes biorreatores .

Com menos necessidade de vacas para a produção de leite , espera se que esse tipo de solução possa também reduzir a quantidade de metano - um potente gás de o efeito estufa que captura até 25 vezes mais calor que CO2 durante seus primeiros 100 anos em a atmosfera - produzida por os milhões de vacas existentes mundo durante a digestão de os seus alimentos .

A empresa também afirma que poderá reduzir os custos e emissões de o transporte , pois os biorreatores poderão , em tese , ser instalados mais perto de os locais de venda de o leite que em as fazendas .

Tecnologias similares também estão sendo empregadas para criar carne em laboratório , cultivando a a partir de células de animais . Em 2013 , o cientista Mark Post apresentou o primeiro hambúrguer de o mundo criado em laboratório , formado por pequenos feixes de fibras musculares produzidas com o cultivo de células retiradas de uma vaca .

Post descreveu sua criação como " um começo muito bom " - e , cumprindo a previsão , sua companhia Mosa Meat pode criar atualmente 80 mil hambúrgueres com apenas uma amostra de células de o tamanho de uma semente de gergelim .

Existem cada vez mais pesquisadores tentando criar carne celular de diferentes animais , incluindo carne de carneiro , porco , peixe e galinha - e esta última foi aprovada para venda em Singapura em 2020 .

Mas as barreiras para que a carne e o leite produzidos com células cheguem a o mercado são significativas . Atender a os padrões alimentícios não é fácil quando se lida com alimentos novos , sem falar em o aumento de escala de essa produção complexa - uma tarefa indispensável para quem quiser sair de o laboratório e passar a ser um fornecedor confiável de alimentos para lojas e supermercados .

Haverá também os desafios de equilibrar os custos associados a as tecnologias envolvidas em a produção de esse alimento que , por enquanto , existe em escala muito pequena . Mas os especialistas afirmam que a carne produzida com células pode ter o mesmo custo de a carne convencional , quando se atingir a produção em escala .

Se essas dificuldades técnicas puderem ser superadas , parece haver pessoas dispostas a consumir os alimentos cultivados em laboratório . Um estudo recente entre consumidores em o Reino Unido estimou que a carne cultivada poderá compor até 40 % de o consumo anual de carne de o país , considerando a disposição de o público para experimentar produtos cultivados em laboratório .

O que mais pode ser feito ?

Os pesquisadores estão desenvolvendo outras inovações que também poderão ajudar a reduzir as emissões de os alimentos que consumimos .

Cientistas de a Nova Zelândia , por exemplo , estão pesquisando uma vacina que pode ser aplicada a carneiros e vacas para reduzir a quantidade de gás metano produzida por os animais . Além de isso , a agricultura regenerativa - que pretende melhorar a saúde de o solo usando práticas que causem menos movimentação de a terra - permite que a matéria orgânica de o solo se regenere e a prática de rotação de as safras possibilita que o solo retenha uma variedade maior de nutrientes .

O solo pode reter carbono a a medida que a matéria vegetal se decompõe e permanece em a terra . Mas , se o solo for movimentado , por exemplo , com uso excessivo de o arado , esse carbono pode ser liberado de volta para a atmosfera .

O projeto britânico AgriCaptureCO2 também está desenvolvendo uma forma de medir o carbono capturado em o solo , usando imagens de satélites , dados de os agricultores e amostras de solo . A intenção é permitir que os agricultores sejam capazes de rastrear seus esforços para capturar mais carbono em a terra .

Outra inovação importante ocorrida em os últimos anos é a agricultura vertical . Em vez de a luz de o sol , as plantas em as fazendas em ambientes fechados recebem luz de LEDs com comprimentos de onda específicos e suas necessidades de água e nutrientes são monitoradas por a tecnologia .

As fazendas verticais podem gerar safras com muito mais rapidez que os campos , mas também consomem muita energia para iluminação e aquecimento , segundo Fiona Burnett , professora de patologia vegetal aplicada de a Faculdade Rural de a Escócia , em o Reino Unido .

Isso significa , segundo ela , que as fazendas verticais somente são economicamente viáveis em as regiões de o mundo onde o clima é tão extremo que é difícil cultivar produtos com métodos agrícolas tradicionais - ou em regiões tão remotas que é difícil levar os alimentos até .

Atualmente , as fazendas verticais emitem muito CO2 , mas estão surgindo tecnologias que pretendem reduzir essas emissões , retirando energia de fontes de a própria terra , usando baterias para armazenar energia de fontes renováveis e empregando comprimentos de onda específicos , em substituição a a luz branca , para acelerar o crescimento .

As fazendas verticais também precisarão encontrar seu lugar em a cadeia de fornecimento global , para fornecer o tipo certo de alimento que precisa de cultivo , segundo Burnett . " Você tem muitas empresas inovadoras concorrendo em esse mercado . Em o momento , elas estão separadas de os agricultores tradicionais , mas existem grandes oportunidades para que eles possam unir se e formar melhores conexões para o fornecimento de alimentos . Isso precisará acontecer " , afirma ela .

O papel de os consumidores

Embora soluções de alta tecnologia como essa possam ajudar a reduzir a pegada de carbono de a agropecuária , também serão necessárias algumas mudanças de comportamento por parte de os consumidores .

" Em a virada de o século , estávamos produzindo calorias suficientes para alimentar 10 a 12 bilhões de pessoas , mas tínhamos apenas 7 bilhões de pessoas em o planeta " , afirma Tim Benton , diretor de o programa de ambiente e sociedade de a organização britânica Chatham House . " A questão era produzir mais , comer mais , distribuir mais e reduzir os preços .

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Agora , precisamos mudar o que comemos para transformar o sistema alimentar , segundo ele . Cerca de 17 % de os alimentos produzidos em todo o mundo em 2019 foram desperdiçados em vários pontos de a cadeia alimentar . Isso representa 931 milhões de toneladas .

Por o menos 61 % de os desperdícios ocorreram em as residências , segundo a Organização de as Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura ( FAO ) , enquanto o restante ocorreu durante a colheita , transporte , processamento e varejo . Isso significa que , além de o desperdício de o carbono liberado durante a produção de os alimentos , mais gases de o efeito estufa são liberados para a atmosfera a a medida que esses alimentos se deterioram .

Somente em o Reino Unido , o desperdício de alimentos em 2018 foi responsável por cerca de 36 milhões de toneladas de gases de o efeito estufa . Os esforços para reduzir o desperdício de alimentos com melhores métodos de armazenagem , refrigeração e transporte poderão ajudar a reduzir as emissões , mas outras mudanças são necessárias para garantir que seja consumido o máximo possível de produtos comestíveis .

Isso poderá também ajudar a tornar os alimentos mais acessíveis em outras partes de o mundo , especialmente quando são doados a os bancos de alimentos e outros esforços sociais e de caridade . Mas isso poderia também significar mudanças fundamentais de a nossa relação com os alimentos , afirma Benton .

" Se nós reduzirmos suficientemente a demanda , não precisaremos ter agricultura muito intensiva , não precisaremos usar muitos produtos químicos e não teremos que destruir a biodiversidade " , segundo ele .

Por fim , Benton afirma que todo o sistema alimentício precisa mudar , incluindo como pensamos , embalamos e transportamos os alimentos , como os regulamentamos e o comercializamos . " Não é uma bala de prata .


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