Representação em texto

Como calor e seca afetam alimentos e já deixam o café mais caro

IDTEJ_0356
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/economia/agronegocios/agro-de-gente-pra-gente/noticia/2024/12/21/como-calor-e-seca-afetam-alimentos-e-ja-deixam-o-cafe-mais-caro.ghtml
TítuloComo calor e seca afetam alimentos e já deixam o café mais caro
SubtítuloProdutores sofrem após meses sem chuva, temperaturas mais altas e mais pragas e doenças. Com aquecimento global, colheitas podem se tornar menores nos principais estados.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEconomia
PropósitoNoticiar

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Calor deixa o café ' estressado ' , pode derrubar a produção brasileira e encarecer a bebida

Pragas e doenças fora de controle , meses sem chuva e lavouras inteiras sendo perdidas : essa é a nova realidade de os cafeicultores brasileiros em meio a o aumento de a temperatura global e de as ondas de calor .

É uma condição muito severa mesmo , como a gente nunca viveu em anos anteriores , relata o cafeicultor Pedro Berengani , de Cerqueira César ( SP ) .

A série " PF : prato de o futuro " mostrou como ele e outros produtores tentam amenizar esses efeitos recorrendo a a técnica de plantar café sob a sombra de árvores , em vez de a pleno sol .

O café , assim como a laranja , está entre os alimentos que correm mais risco com o planeta ficando mais quente . Isso porque eles são uma agricultura perene , como se chama a categoria de os cultivos em que é preciso plantar uma vez e a árvore dará frutos todos os anos .

O momento mais crítico para essas culturas é o de a florada , que , em o caso de o café , costuma acontecer entre setembro e novembro .

Em essa época , o calor e a seca podem acabar causando o aborto floral , que é quando as flores não geram os frutos .

Como sombra de árvores ajuda planta a lidar com o planeta mais quente Café a quase R$ 50 : por que preço deve continuar subindo 2024 é o ano mais quente visto em a Terra

Comparada com os níveis pré-industriais , a temperatura de o planeta subiu cerca de 1°C , segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ( IPCC ) de a Organização de as Nações Unidas ( ONU ) .

A previsão é de que , entre 2030 e 2050 , o aquecimento será de mais 1,5°C . Parece , pouco , mas não é . Para o café arábica , o mais produzido em o Brasil , que aguenta uma temperatura entre 18°C e 22°C , o impacto pode ser devastador .

Foto : g1

Além de os níveis de temperatura , outro efeito é que os dias em que o calor supera os 35°C se tornaram mais frequentes .

Não foi um mês , não é isolado . Foram vários meses , por o menos 34 meses consecutivos com temperaturas muito acima de o normal , junto com seca , disse Ana Paula Cunha , especialista em o monitoramento de secas de o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais ( Cemaden ) , em entrevista a o g1 em junho de este ano .

Em agosto , o órgão confirmou que o Brasil enfrentava a maior seca vista em a sua história recente .

Com este cenário , a tendência é de cada vez mais dificuldades para se manter uma boa produção de o café e que estados tradicionais em o cultivo , como São Paulo e Minas Gerais , percam área de plantio .

Os impactos estão aparecendo . Em o início de a atual safra , a expectativa era de um novo crescimento em a colheita . Mas as estiagens , juntamente com altas temperaturas durante as fases de desenvolvimento de os frutos , reduziram a produtividade nacional em 1,9 % em a comparação com 2023 , aponta a Companhia Nacional de Abastecimento ( Conab ) .

E as consequências vão além de o café , considerando a importância de o Brasil em o setor , que gera empregos , influencia a economia e oportunidades para pequenas empresas .

Foto : Luisa Rivas / arte g1

Saiba mais abaixo :

Como o café é afetado por o aumento de temperatura Risco de perda de protagonismo

Vai ter café para todo mundo ?

Como o café é afetado por o aumento de temperatura

Com o aumento de as temperaturas , parte de a flora de o planeta deve desaparecer de as suas áreas tradicionais , aponta o relatório de o IPCC . Em o caso de o cafeeiro , o calor elevado causa queda em as folhas e , de este modo , diminui a fotossíntese de a planta .

Esse processo , conhecido como estresse térmico , induz uma perda acelerada de água , explica o pesquisador Carlos Henrique , de a Embrapa Café .

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Uma vez que o cafezal não tem folha o suficiente , ele não faz fotossíntese , então ele não consegue , para a próxima colheita , ter produtividade para ter novos frutos e uma quantidade melhor de grão , explica Tatiana Nakamura , especialista em café em a Nespresso Brasil . Você pode ter o grão também com uma de dificuldade para dar a bebida como ele sempre deu . Então , não necessariamente você vai perder em quantidade .

É possível que as condições de o clima oscilaram de tal forma que você perde a qualidade , explica Priscila Coltri , pesquisadora de o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas a a Agricultura ( Cepagri ) . A planta também fica mais suscetível a doenças e o clima é propício para o desenvolvimento pragas , relata a professora Ana Ávila , que também é de o Cepagri .

Um de os predadores que se desenvolvem em o calor é o bicho mineiro , que se instala em a folha e causa a sua queda .

Cafezinho em risco : como sombra de árvores pode ser solução para aumento de a temperatura

Risco de perda de protagonismo

O Brasil é o principal produtor de café de o mundo , sendo que apenas Minas Gerais representa mais de a metade de o total nacional , com uma colheita de mais de 1,7 milhão de toneladas em 2023 , segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE ) .

O café arábica corresponde a 80 % de a área total de café plantado em o país , aponta a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária ( Embrapa ) .

Em o mundo , 58 % de a produção é de o arábica , segundo estudo de a Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp ) , em 2019 .

O Sudeste de o Brasil tem grande potencial cafeeiro por , em um quadro normal , ter estações bem demarcadas , por exemplo , as chuvas concentradas em o verão e o inverno mais seco , explica Ávila .

A pesquisa de Eduardo Assad , de a FGV Agro , de 2004 , mostrou que , conforme a temperatura aumenta , as áreas aptas para o cultivo diminuem .

Veja abaixo as projeções que foram feitas para Minas Gerais :

Alta de 1°C : mesmo que aconteça um acréscimo em as chuvas de 15 % , as áreas impróprias a o plantio de o café em Minas Gerais se elevariam em 20 % , representando 43 % de a área total de o estado ;

Alta de 3°C : áreas com risco de geada praticamente desaparecem e o total de terras consideradas impróprias sobe para 76,3 % de o estado ; Alta de 5,8°C : a cultura passa a ser possível em apenas 2,6 % de o Estado , e concentrada em alguns municípios de o Sul , em as regiões montanhosas e de difícil manejo . A pesquisa também fez projeções para São Paulo , onde , quase 80 % de o estado é apto a o plantio de café atualmente :

Alta de 1°C : em 41 % de o território seria impossível plantar o grão .

Alta de 3°C : a área imprópria pode subir para 69,6 % de o estado . Alta de 5,8°C : em 96,6 % não seria possível plantar café , ficando restrito a as regiões montanhosas .

Em São Paulo , áreas que antes sofriam com geadas , hoje precisam lidar com fortes ondas de calor .

Foi o que aconteceu em Cerqueira César . O produtor rural Pedro Berengan relata que , em a década de 70 , muitos cafeicultores abandonaram a região ou migraram para culturas como soja e milho , devido a o episódio que ficou conhecido como geada negra .

Em a atualidade , Berengan teve que suspender a irrigação de a sua lavoura por causa de a seca em a represa Jurumirim . Porque você pensa : 10 dias fazendo 40° C , os outros 30 dias fazendo 35°C e 42 dias sem chuva , sem uma gota d’ água .

Então é uma condição muito extrema , diz .

Em paralelo , estados de o Sul de o país poderiam aumentar seu potencial cafeeiro , justamente por perderem o alto risco de geadas .

Por exemplo , a pesquisa apontou que , com o aquecimento de 1°C , o Paraná ainda teria quase 90 % de a sua área apta a o café . Contudo , a o aumentar ainda mais a temperatura , também é observada uma queda em o potencial , que pode se restringir em torno de 40 % de a área de o estado , em o cenário de alta de 5,8°C .

Além de o Paraná , o Rio Grande de o Sul , Santa Catarina , o Uruguai e a Argentina também possuem cenários onde poderiam ser beneficiados por esse aquecimento . Contudo , essas migrações ainda não são uma realidade . Isso porque os agricultores de esses estados ainda preferem o plantio de soja e milho , aponta Assad . Mas eu continuo insistindo : se quiser manter a produção de café , nós temos que buscar áreas com temperaturas mais amenas . Ou seja , o café tem que subir a montanha , para pegar a temperatura mais baixa , e tem que ir para o Sul de o Brasil .

Se não , não vai dar .

Ele não aguenta .

Ele realmente não aguenta , afirma .

Contudo , subir a montanha não é garantia de manter a produção , uma vez que muitas áreas são preservadas e não podem ser desmatadas , aponta Ana Ávila , de o Cepagri .

Vai ter café para todo mundo ?

Mais de 9 milhões de toneladas de café são consumidas por ano , aponta o Departamento de Agricultura de os Estados Unidos ( FDA ) .

Em 20 anos , esse número cresceu mais de 50 % e deve continuar subindo , principalmente considerando que a população mundial pode aumentar em 9,9 bilhões de pessoas até 2054 . Com mais gente bebendo café e menos área para produzir o grão , a expectativa é de que , em o futuro , o preço de o alimento encareça , limitando o acesso a a bebida . Uma de as razões para isso é que , com o clima causando mais prejuízos , menos produtores vão se interessar por o plantio de o fruto . Você começa a perder mais de o que ganhar . Então , o que que acontece ? Você produz menos . [ ... ] A questão toda é você diminuir a quantidade produzida e a qualidade de a produção , você acaba expondo uma quantidade maior de pessoas a uma falta de alimentos e aumenta o preço , explica Avíla .

A qualidade de o café também deve cair .

O que influencia é a quantidade de água dentro de o grão em o momento de a torra . Quando você torra um café , a água interna age de uma forma que ela vai conduzir aquela torra . A gente tem notado que os cafés de essa safra de 24 tão muito difíceis de torrar " , explica Marcelo Gasparoto , consultor em qualidade de café e torrefação .

Mas não é preciso decretar o fim de o café . Atualmente , existem pesquisas que buscam desenvolver variedades que são mais resistentes a o clima , além de técnicas de manejo mais sustentáveis ajudarem a resfriar a produção .

Foto : Luisa Rivas / arte g1

Veja abaixo como produtores tentam amenizar os efeitos de o calor :

Cafezinho em risco : como sombra de árvores pode ser solução para aumento de a temperatura


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