Representação em texto

Cotas raciais são constitucionais e têm eficácia comprovada, defendem especialistas

IDTEJ_0030
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/educacao/noticia/2025/12/13/cotas-raciais-sao-constitucionais-e-tem-eficacia-comprovada-defendem-especialistas.ghtml
TítuloCotas raciais são constitucionais e têm eficácia comprovada, defendem especialistas
SubtítuloPara estudiosos, decisão aprovada em Santa Catarina vai na contramão do que mostram dados da ação afirmativa. Brancos com ensino superior ainda são mais que o dobro de pretos e pardos no país.
Ano2025
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEducação
PropósitoNoticiar

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Alesc aprova projeto de lei por o fim de as cotas raciais em universidade de o Estado

A decisão de a Assembleia Legislativa de Santa Catarina ( Alesc ) de proibir cotas raciais em universidades públicas de o Estado trouxe a a tona um debate antigo sobre o tema . Apesar de isso , especialistas ouvidos por o g1 acreditam que a proibição não tem apelo legal para se manter .

Essa não é a primeira vez que as cotas raciais em âmbito estadual são antagonizadas em projetos de lei . Em 2019 , um PL muito semelhante a o de SC foi protocolado em a Alerj por o deputado estadual Rodrigo Amorim ( União Brasil-RJ ) . O projeto , considerado controverso , gerou ampla repercussão e foi recusado por a Casa .

A ação afirmativa também foi alvo de partidos de direita e extrema direita durante a revisão de a Lei de Cotas , em 2023 . Criada em 2012 , a política tinha sua primeira revisão prevista para de ali a 10 anos , mas o Congresso decidiu não analisar o tema em ano eleitoral e a revisão ocorreu em 2023 . Em a ocasião , 24 senadores pediram a extinção de as cotas raciais , mas a emenda foi rejeitada .

Para Delton Felipe , pesquisador visitante e coordenador de o Programa de Diversidade de a Escola Direito de a FGV-SP , o movimento que acontece agora tem as mesmas motivações .

Em esta reportagem , você poderá conferir o histórico de a Lei de Cotas , o funcionamento de as cotas raciais e o que especialistas dizem sobre a proibição de o recorte racial em a política de inclusão .

O surgimento de a Lei de Cotas

Antes de a criação de a Lei de Cotas , diversas instituições públicas de ensino superior implementaram políticas de reserva de vagas para pessoas negras . As primeiras foram a Universidade de o Estado de a Bahia ( Uneb ) , a Universidade de o Estado de o Rio de Janeiro ( UERJ ) e a Universidade Estadual de o Norte Fluminense ( UENF ) , em 2003 .

Em o ano seguinte , a Universidade de Brasília ( UnB ) se tornou a primeira instituição federal a reservar parte de suas vagas para estudantes negros .

Depois de isso , iniciativas como essa se popularizaram em as instituições de ensino superior . Até 2012 , de as 96 universidades estaduais e federais então existentes , 70 tinham algum programa de inclusão em o processo seletivo .

A adoção em massa de a política deu origem a um debate sobre se as reservas de vagas por recorte racial eram justas , legais e constitucionais . O tema chegou a ser julgado por o STF em uma Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental , para avaliar se a reserva de vagas para pessoas negras feria o princípio de a igualdade descrito em a Constituição Federal .

A ADPF 186 foi votada em 2012 e a decisão unânime de os ministros foi de que a iniciativa era constitucional . Em o mesmo ano , foi sancionada a Lei de Cotas , que garantia a reserva de 50 % de as vagas em instituições federais para alunos oriundos de escolas públicas . Parte de essas vagas eram direcionadas para alunos pardos , pretos e indígenas .

Como funcionam as cotas raciais

A versão de 2012 de a Lei de Cotas previa que metade de as vagas de as universidades e instituições federais seriam reservadas para alunos de escolas públicas de baixa renda , pretos , pardos , indígenas e pessoas com deficiência .

Em a redação de a lei , pretos , pardos e indígenas formavam uma subcota dentro de o grupo de ex-alunos de a rede pública .

Em a revisão de a lei em 2023 , os estudantes quilombolas foram incluídos em esse grupo .

Outra mudança estabelecida em a revisão foi a seguinte : os cotistas primeiro disputariam as vagas gerais , destinadas a todos os estudantes . Se não conseguirem a vaga em a chamada ampla concorrência , usariam as notas que tiraram para disputar as vagas previstas em as cotas .

O critério socioeconômico também mudou em 2023 . A renda per capita passou de até de um salário mínimo e meio para até um salário mínimo . Além de isso , a política de cotas foi ampliada também para a pós-graduação .

Acesso , permanência e sucesso

Especialistas defendem que as cotas raciais são tão importantes atualmente quanto eram em 2003 e em 2012 , e , portanto , devem permanecer existindo .

Uma de as características jurídicas e sociológicas de a ação afirmativa é elas serem temporárias . Em o entanto , para que sejam temporárias , elas têm que causar um impacto social em diversas áreas , explica Delton Felipe .

Segundo ele , para que isso aconteça , a diversidade racial não deve ser garantida apenas para ingresso em o ensino superior , mas também em outros aspectos de o contexto social .

O antropólogo e diretor de o Observatório de a Branquitude , Thales Vieira , concorda com a relevância de a manutenção de as cotas raciais .

um grande lastro de evidências produzidas por universidades , por diferentes governos , em diferentes tempos , sobre a eficácia de a política de cotas em o Brasil , em aquilo que é seu mérito , que é reduzir as desigualdades sociorraciais em o acesso a a educação , sobretudo a educação superior em o país , diz .

Por isso , os especialistas defendem que não se trata de garantir apenas de o acesso , mas também a permanência e o sucesso de os profissionais negros .

É garantir o acesso a o ensino superior , mas viabilizar também que ele permaneça em o curso e se forme . E , depois , tenha sucesso , como a perspectiva de fazer um concurso para juiz , se quiser . É isso que vai garantir a igualdade plena que a Constituição promete , defende Delton .

Cotas raciais são necessárias

Um levantamento de 2023 de o governo federal mostrou que o número de ingressos em a educação superior federal por meio de ações afirmativas aumentou 167 % em dez anos . O critério étnico-racial era o segundo mais utilizado , atrás apenas de os oriundos de escolas públicas .

dados de o Censo de 2022 , divulgados em o início de este ano , revelaram as parcelas de população preta e parda de 25 anos ou mais com ensino superior completo quintuplicaram em o Brasil em 22 anos .

Em 2000 , a parcela de brancos com ensino superior era quase o quíntuplo de a parcela de negros ( pretos e pardos ) . 22 anos depois , a diferença diminuiu consideravelmente , mas ainda é grande : brancos com ensino superior são mais que o dobro de pretos e pardos .

Entre os indígenas de 25 anos ou mais , apenas 8,6 % possuíam superior completo em 2022 .

Para os especialistas , a manutenção de a Lei de Cotas e a ampliação de ações afirmativas são fundamentais para promover a igualdade constitucional .

" As cotas que levam em consideração aspectos raciais são legais e têm eficiência e eficácia em aquilo que se propõem e produzem efetivamente uma redução de desigualdade . Portanto , não fundamentação que se sustente nem juridicamente e nem de o ponto de vista avaliativo de políticas públicas que apontem para uma direção em que as cotas raciais precisem acabar em qualquer lugar de o país , sobretudo em o estado mais branco de o país " , conclui Thales Vieira .


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