Representação em texto

Como lidar com o 'ideal inatingível de felicidade' das festas de Ano Novo

IDTEJ_1100
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2022/12/31/como-lidar-com-o-ideal-inatingivel-de-felicidade-das-festas-de-ano-novo.ghtml
TítuloComo lidar com o 'ideal inatingível de felicidade' das festas de Ano Novo
SubtítuloPara alguns, os últimos dias do ano são sinônimo de festa e planos, enquanto para outros, este é um período de angústia e frustração.
Ano2022
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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A última semana de dezembro , que costuma ser especial para algumas pessoas , pode se tornar uma tortura para outras , com sentimentos que vão de comparações frustradas em as redes sociais , a problemas como depressão e ansiedade .

A psicanalista Fernanda Fazzio se refere a a contemporaneidade como " Era de a Pre(s) sa " , marcada por a aceleração e por os excessos : tudo é online e urgente . Não podemos parar , estamos sempre atrasados , cansados e sem tempo .

" Em os tornamos presas de um tempo voraz . Como estudo em as minhas pesquisas , o sujeito se diante de a abundância de estímulos e bombardeio de informações , com efeitos tóxicos , o que afeta o nosso modo de se relacionar com o outro semelhante . Em esse cenário , corremos contra um tempo insuficiente , empobrecendo as nossas experiências " , explica Fazzio , que é doutoranda em psicologia clínica por a USP e idealizadora de o podcast

" Era de a Pressa : psicanálise entre esperas e extremos " .

A profissional destaca que , como não escapamos de a pressa , fica difícil encontrar intervalos suficientes para digerir psiquicamente o que em os acontece : é como se estivéssemos sempre cheios e , a o mesmo tempo , vazios de experiências significativas . " Em a pausa de o fim de o ano , uma desaceleração compartilhada repleta de angústias e inquietações . Em essas horas , algumas perguntas perigosas podem em os alcançar : ' Será que vivo uma vida que vale a pena ser vivida ? ' " .

Não por acaso , muitos psicanalistas veem em a clínica os sofrimentos aumentados entre o período de o Natal e de o Ano Novo .

" Em o fim de o ano , quando a festa acaba , em o nosso íntimo , sabemos que uma distância entre onde estamos e onde queríamos estar em nossas vidas " , diz Fazzio . " Sabe aquelas listas de fim de ano que não foram cumpridas ? E aquela viagem com os amigos a que você não foi convidado ? O projeto que não aconteceu , será que vai dar certo em o próximo ano ? Vemos uma tendência de humores ansiosos e deprimidos em essa época " .

A psicanalista , cuja dissertação de mestrado por a PUC-SP se chamou " O tempo e o impacto de a experiência estética em a era de a Pre(s) sa : psicanálise e teatro performático " , ressalta que , com a aceleração de cada dia , fica difícil encontrar tempo e espaço psíquico para que as experiências em os atravessem , deixem marcas .

" E , em o fim de ano , buscamos tais marcas para em os agarrarmos , para sentirmos que a vida vale a pena ser vivida , apesar de os pontos finais . Quando o ano se encerra , traz também uma ilusão de recomeço necessária para suportarmos essa transição . Desejar um feliz ano novo , muitas vezes , traz a dor de um ideal inatingível de felicidade , bem como uma dose de esperança " .

Arestas de a polarização

Para o psicanalista Alexandre Starnino , as questões envolvendo o fim de ano estão enraizadas em a cultural ocidental : renovação , mudança , despedidas , promessas , perdão , tudo em família .

" Todos esses ideais de grupo são aflorados a partir de a ideia de o espirito fraterno que é legitimado em a maioria de as casas . Uma coisa interessante em a psicanálise é o que chamamos de aparamento de as arestas " , diz Starnino .

" Todo esse mal-estar em relações de grupo ou familiares , aquele discurso que ficou engasgado , a discussão com um parente , a intriga com alguém que era seu amigo de infância . Em alguma medida , tudo fica camuflado , para não estar presente em esses momentos , por mais que vez por outra escape algo . Mas tem que desaparecer para que o espírito fraterno ocorra . Tudo isso gera expectativa e ansiedade " .

Outro fator que pesa muito , segundo o profissional , é o atravessamento de a questão política , por conta de a polarização em as duas últimas eleições presidenciais que deixou marcas em relações familiares , amorosas e de amizade .

" Muitas pessoas foram habituadas a terem contatos carinhosos com amigos e familiares , e de o nada elas passaram a ser vistas como um inimigo . Filho imaginando o pai como rival e vice-versa . Amigos que cresceram juntos , de o nada se veem em lados opostos " , explica o psicanalista .

De o ponto de vista de a saúde mental e psíquica , ele destaca três sentimentos que afloraram em esse fim de ano eleitoral : angústia , frustração e desamparo .

" Angústia porque é natural o atravessamento discursivo que a política operou : 90 % de os meus pacientes , em a semana de as eleições , falavam de o cenário político . Isso tem efeitos em as festas de fim de ano . Essa disputa não foi suturada ainda .

essa angústia com quem está em o outro polo , de o lado oposto " , diz ele , prosseguindo a respeito de a frustração e de o desamparo : " É por esperar de o outro uma posição que você considera a correta , que você acha o melhor para o país . E também o desamparo porque tem coisas que não foram resolvidas .

pais e filhos , maridos e mulheres que ainda não conseguiram manter o mínimo de aparamento de arestas para ter o encontro em paz em o fim de ano " .

Desabafar : o pecado de o Réveillon A o falar de esse período , a psicanalista Gabriela Vargas acha importante contextualizar : vivemos em uma sociedade pós-moderna , que o filósofo Byung Chul-Han define como uma sociedade de positividade . Antigamente , para o Michel Foucault , vivíamos em uma sociedade disciplinar , que dizia ' você deve isso ou aquilo ' e tinha muitos ' nãos ' .

Agora estamos em a sociedade de o ' sim ' , então ' sim ' você pode fazer o que quiser ; se você não conseguiu algo é porque não tentou o suficiente ; ' sim ' você tem que ser feliz porque todo mundo posta foto feliz . " O grande problema de isso tudo em o final de ano é que , além de essas datas serem extremamente comerciais , existe algo que tortura quem não tem relação com a família , quem perdeu alguém , tem muitas cicatrizes e dores .

Muitas pessoas passam sozinhas , tem gente que passa fim de ano internada em hospitais sem receber visitas " , explica Vargas . " De um lado tem o padrão de a família heteronormativa em volta de a mesa fazendo ceia , e de o outro vivemos em uma realidade de desigualdade gigantesca , então tem famílias que não têm dinheiro nem para comer o básico , muito menos para fazer ceia ou comprar presentes que estão em a moda para crianças .

Esse é um grande problema que pode trazer muito sofrimento psíquico , ainda mais com o aumento de o desemprego " .

A pandemia vai acabar em 2023 ?

O que esperar de a Covid e de outras doenças em o próximo ano Endometriose , Parkinson e afasia : o que aprendemos sobre saúde a partir de dramas enfrentados por personalidades em 2022 Perda de peso : horário de refeições grandes não tem impacto , indica estudo Vargas , que tem um projeto chamado Corpo Inconsciente - sobre psicanálise e transtornos alimentares - , também destaca sobre como vivemos em uma sociedade que não aceita diferenças e onde o diferente é cancelado em vários âmbitos . " Para quem tem distúrbios alimentares é muito difícil comer em as festas de fim de ano , e isso dificulta passar com muita gente . É uma época de calor em o Brasil , então tem a exposição de o corpo submetido a os comentários de o tio de o pavê que pergunta se engordou ou emagreceu .

Ou se casou e teve filho . Enfim , todos aqueles comentários maldosos em essas reuniões que fazem as pessoas sofrerem " .

O período com confraternizações , amigos secretos e outras festinhas também pode ser delicado para quem tem vícios em álcool e outras compulsões , porque acaba tendo que lidar com algo que não faz bem . E se não vai , precisa encarar a solidão em casa .

Enquanto vivemos em a sociedade de performance , a psicanalista define o final de ano como a época de se exibir : é quando as pessoas aparecem em fotos de rede social com uma árvore de Natal linda , com a família sorrindo em a foto , viagens para as praias e exterior em o Réveillon e todos bem vestidos . Por outro lado , um contraponto a essa necessidade de ver e ser visto é que muitas vezes aquela foto linda não condiz com a realidade , as famílias brigaram , não existe aquela felicidade .

" Mas muitas pessoas de o outro lado de a tela , solitárias em o sofá , não sabem de isso e sofrem por não ter aquele momento supostamente feliz , então bate a frustração " , explica a psicanalista .

" Isso se agrava para quem tem depressão , ansiedade ou outros problemas psíquicos , mas qualquer pessoa , a o se comparar e achar que o outro está em aquela vida de os sonhos , acaba sofrendo muito " .

SAIBA MAIS :

Por que você pode esquecer de a dieta em as festas de fim de ano , segundo nutricionistas Ano Novo x ressaca : o que vale saber sobre o consumo de bebidas em as festas de boas-vindas para 2023 Quantas cervejas podemos beber sem passar de os limites ? Para Vargas , outro agravante é a sensação de que , em este período , muita gente sente como não fosse permitido falar de problemas , expor o mal-estar causado por todos esses fatores .

" É quase um pecado de o fim de ano abrir a boca para falar sobre coisas ruins , o que faz com o sofrimento aumente consideravelmente - tanto que vários pacientes pedem sessão entre Natal ou Ano Novo para lidar com esse tipo de situação .

Mas muitas pessoas não têm essa rede de apoio e não sabem o que fazer .

Então é praticamente um compromisso ético de os profissionais de saúde mental falar sobre essas coisas . " O que fazer ? Para a reportagem de a BBC News Brasil , Vargas listou algumas atitudes que podem ajudar quem não está bem e não sabe como lidar com essas questões em a reta final de o ano : O primeiro é tentar se proteger de algumas formas . Evitar comparações com o feed de redes sociais de outras pessoas é um bom começo , lembrando que aquelas imagens muitas vezes são filtradas e não necessariamente condizem com a realidade . Outra orientação de os psicanalistas é de e cercar de bons amigos ou de pessoas com que se sinta bem , mesmo que não seja de a sua família . Se estiver muito difícil segurar o que você está sentindo , tente procurar ajuda de psicólogos , psiquiatras ou psicanalistas .

Em o caso de ter pensamentos que coloquem em risco sua vida ou saúde mental e não conseguir encontrar os profissionais acima , o CVV - Centro de Valorização de a Vida oferece apoio emocional 24 horas por o telefone 188 . Vale lembrar que este é um momento : o fim de ano também vai passar e outros dias virão .


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