Hérnia
inguinal
e
umbilical
:
entenda
as
causas
,
diferenças
e
como
tratar
O
ex-presidente
Jair
Bolsonaro
passa
por
uma
cirurgia
eletiva
de
hérnia
inguinal
bilateral
em
esta
quinta-feira
(
25
)
;
ele
está
internado
desde
quarta-feira
(
24
)
.
O
procedimento
foi
autorizado
por
o
ministro
Alexandre
de
Moraes
,
de
o
Supremo
Tribunal
Federal
,
depois
de
avaliação
médica
de
a
Polícia
Federal
,
que
apontou
a
necessidade
de
correção
cirúrgica
para
evitar
o
agravamento
de
o
quadro
.
A
seguir
,
o
g1
explica
o
que
é
a
hérnia
inguinal
,
quando
a
cirurgia
é
indicada
,
quais
técnicas
podem
ser
usadas
e
por
que
,
apesar
de
a
internação
,
o
caso
não
foi
classificado
como
urgência
médica
.
O
que
é
a
hérnia
inguinal
A
hérnia
inguinal
—também
chamada
de
hérnia
em
a
virilha
—
ocorre
quando
tecidos
de
o
interior
de
o
abdômen
,
geralmente
uma
alça
de
o
intestino
,
escapam
por
um
ponto
enfraquecido
de
a
parede
abdominal
e
formam
um
abaulamento
em
a
região
.
Quando
esse
deslocamento
acontece
de
os
dois
lados
de
a
virilha
,
a
condição
recebe
o
nome
de
hérnia
inguinal
bilateral
.
Ela
pode
causar
inchaço
,
dor
ou
desconforto
,
sobretudo
a
o
fazer
esforço
,
tossir
ou
permanecer
muito
tempo
em
pé
,
embora
em
alguns
casos
seja
assintomática
.
De
acordo
com
os
peritos
que
analisaram
o
caso
,
não
há
indicação
,
em
os
relatórios
médicos
,
de
cirurgia
em
caráter
de
urgência
ou
emergência
.
“
O
que
,
exatamente
,
é
uma
hérnia
?
É
um
defeito
em
a
parede
abdominal
”
,
explica
Pedro
Bertevello
,
cirurgião
de
o
aparelho
digestivo
de
a
BP
–
A
Beneficência
Portuguesa
de
São
Paulo
.
Segundo
ele
,
essa
fragilidade
pode
existir
desde
o
nascimento
,
em
pessoas
que
já
têm
uma
predisposição
anatômica
,
ou
surgir
a
o
longo
de
a
vida
,
especialmente
após
cirurgias
abdominais
—sobretudo
aquelas
feitas
em
caráter
de
urgência
.
Para
entender
o
processo
,
é
preciso
imaginar
a
parede
abdominal
como
uma
estrutura
em
camadas
.
Primeiro
vem
a
pele
,
depois
a
gordura
,
a
musculatura
e
,
logo
abaixo
,
uma
membrana
resistente
chamada
aponeurose
,
que
funciona
como
uma
espécie
de
“
armadura
”
para
conter
as
vísceras
.
Atrás
de
essa
estrutura
está
o
peritônio
,
uma
película
fina
e
lubrificada
que
reveste
o
interior
de
o
abdômen
e
permite
que
o
intestino
se
movimente
livremente
.
Esse
movimento
constante
é
essencial
para
a
digestão
e
ocorre
mesmo
em
ações
simples
de
o
cotidiano
,
como
caminhar
,
respirar
ou
mudar
de
posição
.
O
problema
começa
quando
essas
camadas
são
rompidas
,
seja
por
cirurgias
anteriores
,
seja
por
traumas
.
A
cicatrização
interna
pode
gerar
aderências
,
que
fazem
com
que
alças
de
o
intestino
se
“
colem
”
entre
si
ou
a
a
parede
abdominal
.
Com
o
tempo
,
isso
enfraquece
a
aponeurose
e
cria
brechas
por
onde
o
intestino
pode
se
projetar
.
Em
alguns
casos
,
a
alça
intestinal
entra
em
esse
espaço
e
não
consegue
retornar
a
a
cavidade
abdominal
—situação
chamada
de
encarceramento
.
Em
a
hérnia
inguinal
,
essa
projeção
ocorre
em
a
região
de
a
virilha
e
pode
,
em
situações
mais
avançadas
,
descer
em
direção
a
o
escroto
.
Por
que
cirurgias
prévias
pesam
em
o
quadro
Quando
o
abdômen
já
foi
muito
manipulado
cirurgicamente
,
as
aderências
e
as
fibroses
internas
tornam
a
região
mais
rígida
e
irregular
.
Isso
dificulta
tanto
a
circulação
normal
de
o
intestino
quanto
sua
acomodação
dentro
de
a
cavidade
abdominal
,
aumentando
o
risco
de
surgimento
de
hérnias
a
o
longo
de
o
tempo
.
Esse
histórico
também
pode
interferir
em
o
funcionamento
de
o
sistema
digestivo
como
um
todo
.
O
trato
gastrointestinal
funciona
como
um
tubo
contínuo
—da
boca
a
o
ânus—
e
alterações
em
o
trânsito
intestinal
podem
provocar
reflexos
em
outras
regiões
,
inclusive
em
o
diafragma
.
Cirurgia
de
hérnia
:
como
é
feita
A
correção
de
a
hérnia
inguinal
pode
ser
realizada
por
videolaparoscopia
ou
por
cirurgia
aberta
,
a
depender
de
a
complexidade
de
o
caso
e
de
o
histórico
de
o
paciente
.
Em
a
videolaparoscopia
,
o
cirurgião
utiliza
uma
câmera
para
acessar
a
cavidade
abdominal
,
solta
as
aderências
internas
,
recoloca
o
intestino
em
o
lugar
correto
e
aplica
uma
tela
de
malha
que
reforça
a
aponeurose
.
Essa
tela
funciona
como
uma
costura
interna
:
com
o
tempo
,
o
organismo
forma
uma
fibrose
a
o
redor
de
ela
,
impedindo
que
o
intestino
volte
a
se
projetar
.
Já
a
cirurgia
aberta
,
mais
comum
em
casos
complexos
ou
em
pacientes
com
múltiplas
cirurgias
prévias
,
permite
a
o
cirurgião
liberar
manualmente
as
alças
intestinais
,
reforçar
os
músculos
e
a
aponeurose
e
,
se
necessário
,
também
implantar
uma
tela
para
dar
maior
sustentação
a
a
parede
abdominal
.
Em
termos
simples
,
explica
o
cirurgião
cardiovascular
Ricardo
Katayose
,
cirurgião
cardiovascular
de
a
BP
-
A
Beneficência
Portuguesa
de
São
Paulo
,
hérnia
pode
ser
comparada
a
uma
porta
que
se
abriu
em
um
ponto
enfraquecido
de
a
parede
abdominal
.
Parte
de
o
intestino
passou
por
essa
fresta
.
A
cirurgia
devolve
esse
conteúdo
para
dentro
de
a
cavidade
e
fecha
a
“
porta
”
de
forma
segura
.
“
Quando
o
abdômen
nunca
foi
operado
,
o
paciente
pode
ser
tratado
tanto
por
videolaparoscopia
quanto
por
cirurgia
convencional
.
É
um
procedimento
relativamente
simples
:
o
paciente
interna
,
opera
e
,
geralmente
,
recebe
alta
em
o
dia
seguinte
”
,
explica
Bertevello
.
Depois
de
a
cirurgia
,
a
recomendação
costuma
ser
de
cerca
de
uma
semana
de
repouso
relativo
e
aproximadamente
30
dias
sem
fazer
esforço
ou
carregar
peso
.
Hérnia
e
soluços
:
há
relação
?
Os
peritos
também
analisaram
os
episódios
de
soluços
persistentes
relatados
por
Bolsonaro
.
Segundo
a
avaliação
médica
,
o
bloqueio
de
o
nervo
frênico
—procedimento
que
reduz
temporariamente
a
atividade
de
o
nervo
responsável
por
o
controle
de
o
diafragma—
é
uma
medida
tecnicamente
adequada
e
deve
ser
realizada
o
quanto
antes
.
É
um
procedimento
feito
com
anestesia
local
,
geralmente
guiado
por
ultrassom
,
em
o
qual
um
medicamento
é
aplicado
próximo
a
o
nervo
para
interromper
soluços
persistentes
.
Ele
é
indicado
apenas
quando
os
soluços
não
respondem
a
tratamentos
convencionais
e
causam
impacto
clínico
relevante
.
De
acordo
com
Bertevello
,
não
há
relação
direta
entre
a
hérnia
inguinal
e
o
soluço
.
“
O
soluço
surge
quando
o
estômago
não
esvazia
bem
ou
quando
há
irritação
de
o
diafragma
”
,
explica
.
Em
o
caso
específico
de
o
ex-presidente
,
o
médico
afirma
que
o
quadro
pode
estar
associado
a
refluxo
gastroesofágico
e
a
a
presença
de
hérnia
de
hiato
—
uma
condição
diferente
,
em
que
parte
de
o
estômago
sobe
para
o
tórax
,
irritando
o
esôfago
e
estruturas
próximas
a
o
diafragma
.
Por
fim
,
o
cirurgião
ressalta
que
hérnia
inguinal
e
hérnia
de
hiato
não
têm
relação
entre
si
:
ambas
envolvem
deslocamento
de
tecidos
,
mas
ocorrem
em
regiões
distintas
de
o
corpo
e
têm
causas
e
consequências
diferentes
.