Argentina
de
Milei
:
o
que
mudou
um
ano
após
o
Plano
Motosserra
Há
pouco
mais
de
um
ano
,
a
Argentina
foi
a
as
urnas
e
escolheu
a
mudança
.
Quem
venceu
foi
o
polêmico
Javier
Milei
,
um
ultraliberal
de
direita
que
prometia
uma
revisão
completa
de
a
economia
para
resolver
problemas
crônicos
,
que
se
arrastam
há
anos
.
Logo
em
os
primeiros
dias
,
colocou
em
prática
sua
principal
proposta
de
campanha
,
o
“
Plano
Motosserra
”
,
com
cortes
de
todos
os
tipos
:
de
gastos
,
de
normas
burocráticas
e
de
tudo
que
Milei
via
como
intervenção
excessiva
de
o
estado
em
o
dia
a
dia
de
a
economia
.
Foram
flexibilizadas
regras
trabalhistas
e
políticas
de
aluguéis
.
Empresas
públicas
foram
privatizadas
e
funcionários
públicos
,
demitidos
.
Restrições
a
exportações
deixaram
de
existir
.
Essas
restrições
costumam
ser
adotadas
como
uma
forma
de
preservar
a
oferta
e
evitar
o
encarecimento
de
produtos
,
principalmente
alimentos
.
O
princípio
de
os
liberais
,
porém
,
é
deixar
o
mercado
livre
para
operar
como
quiser
e
,
além
de
isso
,
mais
exportações
também
impulsionam
a
moeda
nacional
contra
o
dólar
.
(
entenda
mais
abaixo
)
Também
foram
derrubados
antigos
congelamentos
de
preços
e
subsídios
a
serviços
básicos
,
como
transporte
público
,
contas
de
água
e
luz
.
Reforma
trabalhista
,
privatizações
,
aluguéis
:
os
principais
pontos
de
o
decreto
de
Milei
A
ideia
com
tudo
isso
era
reduzir
os
gastos
de
o
governo
,
liberalizar
a
economia
,
gerar
maior
entrada
de
dólares
em
o
país
e
aumentar
a
confiança
em
o
futuro
de
a
Argentina
.
E
,
claro
,
o
principal
:
reduzir
uma
hiperinflação
,
que
era
de
impressionantes
211,4
%
em
12
meses
a
o
final
de
2023
.
A
inflação
cedeu
e
se
tornou
a
grande
vitória
de
Milei
em
seu
primeiro
ano
.
O
índice
mensal
passou
de
25,5
%
em
dezembro
de
2023
para
2,4
%
em
novembro
de
2024
.
Em
12
meses
,
ainda
são
166
%
.
Vieram
também
os
superávits
:
por
a
primeira
vez
em
13
anos
,
a
Argentina
terá
um
ano
em
que
arrecadou
mais
de
o
que
gastou
.
Depois
de
registrar
superávit
de
357
bilhões
de
pesos
em
novembro
(
cerca
de
US$
337,43
milhões
)
,
11°
mês
consecutivo
de
resultado
positivo
,
o
governo
espera
encerrar
o
ano
com
um
superávit
primário
correspondente
a
cerca
de
1,9
%
de
o
PIB
.
Esse
é
um
pilar
fundamental
de
as
políticas
de
Milei
,
já
que
o
país
precisa
urgentemente
fazer
reservas
em
dólar
,
mostrar
que
pode
cumprir
seus
compromissos
e
é
um
porto
seguro
para
investidores
.
Mas
esse
resultado
veio
a
duras
penas
para
a
população
mais
pobre
.
Com
desemprego
e
preços
em
alta
,
a
pobreza
subiu
e
passou
a
atingir
mais
de
a
metade
de
a
população
—
consequência
direta
de
os
cortes
de
subsídios
e
fim
de
os
controles
de
preços
,
que
encareceram
transporte
,
energia
,
água
e
outros
produtos
e
serviços
básicos
.
Quando
Milei
tomou
posse
,
eram
41,7
%
de
pobres
(
12,3
milhões
)
.
A
o
final
de
o
primeiro
semestre
de
governo
,
eram
52,9
%
(
15,7
milhões
de
pessoas
)
.
Com
a
paralisação
de
a
economia
,
causada
por
a
motosserra
,
a
atividade
econômica
desabou
.
Em
o
terceiro
trimestre
de
2024
,
o
último
que
se
tem
dados
divulgados
até
aqui
,
o
Produto
Interno
Bruto
(
PIB
)
argentino
teve
queda
de
2,1
%
em
relação
a
o
mesmo
período
de
o
ano
anterior
.
Deve
fechar
o
ano
com
contração
de
3,5
%
,
segundo
as
projeções
de
o
Fundo
Monetário
Internacional
(
FMI
)
.
Mesmo
assim
,
a
popularidade
de
Milei
continua
alta
.
Por
mais
dolorosas
que
sejam
as
medidas
,
os
argentinos
parecem
considerar
que
esse
é
um
caminho
necessário
para
uma
melhora
de
a
economia
e
que
o
presidente
ainda
tem
um
tempo
para
reverter
o
jogo
.
Há
,
porém
,
quem
tenha
pouca
esperança
de
que
a
vida
vá
melhorar
.
São
esses
os
relatos
que
o
g1
ouviu
em
Buenos
Aires
,
capital
de
a
Argentina
.
São
analistas
,
trabalhadores
,
empreendedores
,
empresários
e
estudantes
que
vivem
em
o
país
,
para
entender
como
as
mudanças
em
a
economia
marcaram
o
primeiro
ano
de
Milei
–
e
o
que
esperar
adiante
.
Entenda
em
esta
reportagem
:
A
fórmula
de
Milei
para
salvar
a
economia
A
paciência
com
Milei
Os
riscos
para
o
plano
A
fórmula
de
Milei
para
salvar
a
economia
A
motosserra
foi
um
símbolo
de
a
campanha
de
Milei
em
2023
,
e
não
se
pode
dizer
que
o
argentino
não
sabia
o
que
viria
por
a
frente
.
O
pacote
que
leva
seu
nome
é
muito
mais
amplo
,
mas
a
direção
é
sempre
a
mesma
:
corte
de
gastos
.
Entre
as
principais
medidas
,
o
pacote
:
Eliminou
os
subsídios
governamentais
para
serviços
básicos
,
como
luz
,
água
e
transportes
públicos
;
Eliminou
uma
lei
que
limitava
os
aumentos
de
preços
em
produtos
de
a
cesta
básica
em
os
supermercados
;
Congelou
obras
públicas
;
Demitiu
milhares
de
funcionários
públicos
;
Diminuiu
o
reajuste
de
os
salários
,
aposentadorias
e
pensões
;
Iniciou
estudos
e
processos
de
desestatização
e
privatização
de
empresas
estatais
;
Abriu
a
economia
de
a
Argentina
para
mais
exportações
e
importações
.
O
maior
impacto
veio
de
o
fim
de
os
subsídios
a
as
contas
básicas
e
de
o
controle
de
preços
,
que
fizeram
explodir
a
inflação
em
um
primeiro
momento
.
Em
novembro
de
2023
,
o
índice
foi
de
12,8
%
,
já
altíssimo
.
Em
o
mês
seguinte
,
primeiro
de
vigência
de
as
medidas
,
passou
a
25,5
%
.
Em
março
de
2024
,
a
inflação
argentina
chegou
a
o
pico
de
287,9
%
em
a
janela
de
12
meses
.
"
A
eliminação
de
os
subsídios
de
luz
e
gás
geraram
um
aumento
muito
grande
em
contas
essenciais
para
famílias
e
comerciantes
.
Isso
gerou
um
repasse
em
os
preços
e
pressão
sobre
toda
a
inflação
"
,
explica
Carlos
Bermani
,
professor
de
economia
de
a
Universidade
de
Buenos
Aires
(
UBA
)
.
A
o
mesmo
tempo
,
o
governo
Milei
congelou
os
reajustes
de
o
salário
mínimo
e
paralisou
obras
públicas
.
Os
custos
subiram
,
a
economia
desacelerou
e
o
desemprego
subiu
.
A
diarista
Erica
Teijeiro
sentiu
o
impacto
de
o
Plano
Motosserra
duas
vezes
:
o
custo
de
vida
subiu
para
ela
e
para
seus
clientes
.
Ela
acabou
perdendo
trabalhos
porque
seus
contratantes
também
tiveram
que
reduzir
o
orçamento
familiar
.
Sobraram
três
casas
durante
a
semana
,
para
sustentar
seus
dois
filhos
.
Mas
o
grande
dilema
é
que
até
trabalhar
ficou
muito
mais
caro
:
ela
vive
em
a
cidade
de
La
Matanza
e
precisa
de
três
ônibus
para
ir
e
mais
três
para
voltar
de
Buenos
Aires
,
onde
estão
seus
clientes
.
Sem
os
subsídios
a
o
transporte
,
ela
gasta
mais
que
o
dobro
de
o
que
costumava
.
Com
o
que
sobra
de
o
dinheiro
que
recebe
,
Erica
consegue
apenas
pagar
os
serviços
básicos
e
alimentação
.
“
Já
não
compro
carne
,
produtos
lácteos
e
frutas
e
verduras
,
porque
são
os
alimentos
mais
caros
.
Dependo
muito
de
doações
,
muitas
vezes
.
Menos
ainda
compro
roupas
ou
calçados
para
mim
ou
para
as
crianças
”
,
diz
a
diarista
.
Há
casos
menos
dramáticos
,
mas
que
não
deixam
de
sentir
as
mudanças
.
A
estudante
e
servidora
pública
Victoria
D’
Astoli
afirma
que
a
vida
se
transformou
,
e
é
preciso
fazer
contas
o
tempo
todo
.
“
Desde
maio
,
não
vou
a
o
cinema
.
Agora
preciso
escolher
o
tanto
que
vou
colocar
em
o
Sube
(
cartão
de
o
transporte
público
)
e
torcer
para
que
isso
dure
por
uma
ou
duas
semanas
.
Se
chega
a
durar
duas
semanas
,
é
uma
glória
”
.
É
por
situações
como
essa
que
Milei
luta
contra
o
tempo
.
O
número
de
argentinos
que
vivem
abaixo
de
a
linha
de
a
pobreza
chegou
a
15,7
milhões
em
o
primeiro
semestre
de
este
ano
,
atingindo
52,9
%
de
a
população
,
de
acordo
com
o
Indec
.
Trata
se
de
uma
alta
de
11,2
pontos
percentuais
em
relação
a
o
segundo
semestre
de
2023
.
Mas
a
inflação
foi
se
acomodando
.
A
disparada
ocorreu
,
explica
o
analista
financeiro
Luis
De
Dominicis
,
porque
“
os
preços
estavam
muito
defasados
”
,
principalmente
os
de
serviços
e
produtos
básicos
.
Depois
que
os
subsídios
e
controles
de
preços
foram
retirados
,
houve
uma
alta
expressiva
seguida
de
uma
gradual
estabilização
,
explica
o
especialista
.
A
partir
de
abril
,
a
inflação
argentina
deixou
de
ter
dois
dígitos
mensais
,
até
chegar
a
a
casa
de
os
2
%
.
E
,
inegavelmente
,
o
fim
de
a
aflição
com
os
preços
subindo
traz
tranquilidade
a
os
argentinos
.
O
agente
imobiliário
Patricio
Bernabé
sentiu
a
baixa
de
consumo
de
os
primeiros
meses
de
2024
,
que
reduziram
a
busca
por
imóveis
.
Mas
está
otimista
porque
a
desaceleração
de
a
inflação
traz
novas
perspectivas
.
A
os
37
anos
de
idade
,
ele
comenta
que
os
argentinos
de
sua
faixa
etária
“
não
sabem
o
que
é
viver
sem
inflação
”
e
conta
a
dificuldade
que
é
não
ter
referência
de
quando
um
produto
está
barato
ou
caro
.
“
Você
pergunta
‘
quanto
custa
uma
bebida
cola
?
’
.
Não
sei
!
Se
eu
não
compro
todo
dia
,
não
sei
,
porque
vai
aumentando
e
você
perde
a
referência
.
Quando
o
cara
vai
falar
o
preço
,
você
não
sabe
se
é
caro
ou
se
é
barato
.
Você
paga
”
,
comenta
Patricio
.
“
Eu
acho
que
isso
[
a
redução
de
a
inflação
]
é
o
melhor
:
você
pode
começar
a
planejar
um
pouquinho
mais
a
sua
vida
,
se
tem
que
fazer
um
investimento
,
umas
férias
,
uma
viagem
.
Muda
um
pouquinho
a
sua
cabeça
”
,
diz
.
Já
Carolina
De
Maio
,
empreendedora
que
tinha
uma
casa
lotérica
,
fechou
seu
negócio
durante
a
crise
e
hoje
vive
como
motorista
de
aplicativo
,
diz
que
,
por
mais
que
ainda
tenha
cautela
com
suas
economias
e
um
pouco
de
medo
de
o
futuro
,
“
há
uma
esperança
de
tempos
melhores
”
.
“
Tudo
mudou
muito
rápido
,
por
isso
os
primeiros
meses
foram
muito
difíceis
.
Mas
eu
estou
otimista
”
,
diz
a
motorista
.
“
A
os
poucos
,
tudo
está
se
normalizando
,
as
pessoas
estão
perdendo
o
medo
de
a
inflação
e
se
atrevendo
a
gastar
um
pouco
mais
.
Vejo
que
a
minha
vida
vai
,
a
os
poucos
,
prosperando
mais
”
.
A
paciência
com
Milei
Ainda
há
muito
o
que
fazer
,
mas
o
controle
de
a
inflação
é
a
base
de
sustentação
de
Javier
Milei
.
Quando
eleito
,
ele
avisou
que
tudo
isso
aconteceria
–
e
talvez
por
isso
sua
popularidade
continue
alta
.
Segundo
a
pesquisa
mais
recente
de
a
Opina
Argentina
,
53
%
de
a
população
aprova
a
gestão
de
Milei
.
Em
o
início
de
o
governo
,
eram
51
%
.
Em
seu
discurso
de
posse
,
Milei
disse
que
“
não
há
alternativa
a
o
ajuste
e
não
há
alternativa
a
o
choque
.
Naturalmente
,
isso
impactará
de
modo
negativo
o
nível
de
a
atividade
,
o
emprego
,
os
salários
reais
,
a
quantidade
de
pobres
e
indigentes
”
.
O
presidente
garantiu
,
porém
,
que
o
choque
econômico
seria
o
“
último
mal-estar
antes
de
a
reconstrução
de
a
Argentina
”
.
E
boa
parte
de
os
argentinos
acredita
em
isso
,
principalmente
com
a
leve
retomada
de
o
consumo
de
a
população
e
de
a
atividade
econômica
.
Um
de
os
setores
mais
afetados
por
a
retração
de
a
economia
foi
a
construção
,
tanto
por
o
freio
de
o
consumo
como
por
a
suspensão
de
as
obras
públicas
.
O
setor
teve
a
maior
queda
percentual
de
trabalhadores
e
de
empresas
empregadoras
.
Entre
novembro
de
2023
e
agosto
de
2024
,
houve
uma
redução
de
261.017
trabalhadores
registrados
(
-2,65
%
)
e
uma
queda
de
12.322
(
-2,4
%
)
em
o
número
de
empregadores
entre
todos
os
setores
de
a
economia
,
segundo
o
Centro
de
Estudos
de
Política
Econômica
de
a
Argentina
(
Cepa
)
.
A
construção
perdeu
88.856
trabalhadores
de
o
setor
privado
,
que
representa
uma
queda
de
18,6
%
.
Já
o
número
de
empregadores
registrou
1.447
empresas
contratantes
a
menos
,
redução
de
6,6
%
.
Juan
Bernabé
,
dono
de
uma
empresa
de
construção
,
não
nega
que
2024
foi
um
ano
muito
difícil
.
O
negócio
consiste
em
comprar
terrenos
para
construir
imóveis
,
então
ele
precisa
de
investidores
para
tornar
os
projetos
viáveis
.
Em
os
seis
primeiros
meses
de
governo
Milei
,
a
disparada
de
os
preços
de
materiais
de
construção
fez
o
setor
sangrar
,
porque
os
fornecedores
elevaram
os
preços
rapidamente
como
forma
de
proteção
.
Os
projetos
ficaram
inviáveis
e
tudo
foi
pausado
.
“
A
mudança
repentina
de
regras
fez
com
que
muitos
fabricantes
de
materiais
de
construção
buscassem
se
proteger
com
aumento
de
preços
,
e
isso
levou
a
uma
alta
generalizada
totalmente
desmedida
que
impacta
diretamente
o
custo
de
a
construção
.
Para
nós
foi
muito
difícil
enfrentar
os
seis
primeiros
meses
”
,
diz
Bernabé
.
O
PIB
argentino
encolheu
5,1
%
em
o
primeiro
trimestre
e
1,7
%
em
o
segundo
.
Mas
apresentou
alta
de
3,9
%
em
o
terceiro
trimestre
em
relação
a
o
anterior
,
deixando
para
trás
a
recessão
técnica
.
E
um
dado
importante
de
a
composição
de
o
PIB
de
este
terceiro
trimestre
é
que
o
consumo
privado
de
as
famílias
e
empresas
apresentou
uma
alta
de
4,6
%
.
Em
o
dia
a
dia
,
a
melhora
já
se
percebe
.
A
empreendedora
Victoria
Poggi
,
dona
de
a
cafeteria
Demente
,
em
Buenos
Aires
,
conta
que
o
negócio
voltou
a
ter
fôlego
em
a
segunda
metade
de
o
ano
.
“
Agora
,
os
preços
estão
se
estabilizando
mais
,
e
as
pessoas
voltaram
a
sair
um
pouco
mais
e
consumir
”
,
comenta
.
A
empreendedora
destaca
também
que
sempre
valorizou
a
qualidade
de
a
matéria-prima
,
então
não
podia
reduzir
os
custos
,
“
porque
reduzir
os
custos
implicava
em
usar
uma
matéria-prima
pior
”
.
Agora
,
com
os
preços
mais
estáveis
,
consegue
planejar
melhor
e
buscar
inovação
.
“
Eu
acho
que
se
tem
um
pouco
mais
de
estabilidade
e
se
pode
projetar
com
os
pés
um
pouquinho
mais
sobre
a
terra
e
com
a
esperança
de
que
possa
ser
algo
melhor
”
.
O
também
empreendedor
Alejandro
Verbitsky
,
dono
de
o
bar
de
vinhos
Trova
,
tem
uma
visão
semelhante
e
conta
que
os
meses
de
novembro
e
dezembro
foram
muito
bons
para
o
seu
negócio
.
“
Ainda
não
com
si
dizer
se
foi
melhor
ou
pior
que
(
os
mesmos
meses
de
o
)
ano
passado
,
mas
parece
ser
bem
bom
.
A
verdade
é
essa
”
.
Outro
ponto
que
alimenta
o
otimismo
é
o
comportamento
de
o
dólar
em
o
país
.
Por
conta
de
a
crise
inflacionária
de
anos
,
o
peso
argentino
perdeu
muito
de
seu
valor
.
Em
este
contexto
,
o
dólar
é
visto
como
a
moeda
forte
em
a
Argentina
e
,
por
isso
,
a
moeda
virou
uma
forma
de
proteção
econômica
para
a
população
.
Diferentemente
de
o
que
acontece
em
o
Brasil
,
por
exemplo
,
é
comum
que
os
argentinos
façam
suas
poupanças
em
dólares
,
para
evitar
a
desvalorização
de
o
dinheiro
e
a
rápida
perda
de
o
poder
de
compra
.
Contratos
importantes
também
são
acordados
em
dólar
em
o
país
,
como
os
de
compra
e
venda
de
imóveis
e
empréstimos
tomados
por
empreendedores
e
empresários
para
seus
negócios
.
Assim
,
as
partes
envolvidas
em
o
acordo
garantem
a
proteção
de
o
valor
de
o
que
estão
negociando
em
uma
moeda
segura
.
E
por
essa
busca
de
os
argentinos
por
o
dólar
para
garantir
maior
estabilidade
em
um
ambiente
de
inflação
descontrolada
,
o
país
convive
há
anos
com
um
cerco
cambial
que
limita
o
acesso
de
a
população
a
a
moeda
americana
,
em
uma
busca
de
os
governos
de
evitar
a
saída
de
mais
dinheiro
de
o
país
.
A
Argentina
já
teve
cercos
cambiais
em
outros
momentos
de
sua
história
recente
,
também
em
meio
a
disparadas
de
a
inflação
,
e
por
isso
a
venda
paralela
de
dólar
é
muito
popular
em
o
país
—
o
chamado
“
dólar
blue
”
.
ENTENDA
:
A
história
recente
de
a
crise
econômica
em
a
Argentina
Por
ser
extraoficial
e
não
controlado
por
o
governo
,
o
preço
de
o
dólar
blue
varia
com
a
demanda
e
com
a
percepção
de
as
pessoas
sobre
a
economia
,
enquanto
a
cotação
de
o
dólar
oficial
é
decidida
por
o
governo
.
Isso
é
negativo
para
a
economia
porque
cria
distorções
em
os
preços
de
os
produtos
e
serviços
,
principalmente
importados
,
já
que
a
taxa
de
câmbio
acessada
por
a
população
não
é
unificada
e
previsível
e
pode
variar
muito
e
muito
rápido
—
alimentando
ainda
mais
a
inflação
.
Em
o
ano
passado
,
perto
de
as
eleições
,
que
aconteceram
em
outubro
,
o
dólar
oficial
era
cotado
a
pouco
mais
de
300
pesos
,
enquanto
o
dólar
blue
chegava
a
os
1.200
pesos
.
Em
dezembro
,
quando
Milei
assumiu
,
ele
promoveu
uma
desvalorização
acentuada
de
o
peso
,
que
levou
a
taxa
oficial
a
cerca
de
800
pesos
,
diminuindo
a
diferença
entre
as
duas
cotações
.
Também
aumentou
temporariamente
os
impostos
de
importação
.
A
ideia
era
aumentar
a
entrada
de
dólares
de
o
país
com
as
exportações
de
produtos
argentinos
para
o
exterior
e
reduzir
a
saída
de
a
moeda
com
a
compra
de
produtos
internacionais
.
O
ministro
de
a
Economia
de
o
país
,
Luis
Caputo
,
explicou
que
a
ideia
com
essa
medida
era
estimular
os
setores
produtivos
e
aumentar
as
reservas
de
o
país
.
A
Argentina
tem
uma
dívida
com
o
Fundo
Monetário
Internacional
(
FMI
)
de
cerca
de
US$
44
bilhões
e
,
mesmo
assim
,
conseguiu
mais
um
empréstimo
de
US$
800
milhões
em
junho
porque
o
Fundo
entendeu
que
as
ações
de
Milei
são
positivas
para
a
economia
.
LEIA
MAIS
Argentina
anuncia
acordo
com
FMI
para
renegociar
dívidas
de
2023
FMI
considera
'
impressionante
'
progresso
em
a
economia
de
a
Argentina
com
governo
Milei
Depois
de
a
forte
desvalorização
inicial
de
o
peso
,
o
dólar
oficial
foi
se
valorizando
a
os
poucos
,
enquanto
o
dólar
blue
,
depois
de
oscilar
bastante
em
os
primeiros
meses
,
também
traçou
uma
trajetória
de
maior
consistência
,
acompanhando
o
movimento
de
a
taxa
oficial
,
explica
Luis
de
Dominicis
.
“
Essa
é
uma
de
as
coisas
que
chamou
muito
a
atenção
de
os
argentinos
,
que
olhando
para
o
passar
de
o
ano
,
de
outubro
de
o
ano
passado
até
agora
,
o
dólar
praticamente
se
manteve
estável
”
,
comenta
o
analista
.
E
essa
dinâmica
também
traz
maior
previsibilidade
para
a
população
.
Patricio
Bernabém
,
agente
imobiliário
,
comenta
que
,
embora
a
estabilização
de
a
taxa
de
câmbio
possa
reduzir
os
ganhos
de
quem
negocia
em
dólar
(
porque
quanto
maior
a
taxa
de
câmbio
,
mais
é
possível
consumir
com
uma
mesma
quantidade
de
dólar
)
,
a
previsibilidade
de
o
comportamento
de
a
moeda
é
benéfica
para
a
economia
e
oferece
mais
segurança
para
as
pessoas
que
querem
comprar
uma
casa
.
Os
riscos
para
o
plano
de
Milei
Com
a
inflação
sob
certo
controle
e
superávits
consecutivos
,
Milei
tem
vitórias
que
saíram
de
seu
primeiro
ano
de
mandato
.
A
saga
,
porém
,
tem
muitos
outros
capítulos
.
Para
o
analista
financeiro
Luis
de
Dominicis
,
o
maior
risco
em
o
radar
é
que
a
Argentina
não
consiga
atrair
investimentos
o
suficiente
para
recompor
de
maneira
expressiva
suas
reservas
de
dólares
e
reaquecer
a
economia
de
o
país
,
depois
de
políticas
tão
severas
de
corte
de
gastos
a
as
custas
de
o
bem-estar
de
a
população
.
Os
primeiros
sinais
são
bons
.
O
índice
S&P
Merval
,
principal
índice
acionário
de
a
bolsa
de
valores
argentina
,
teve
uma
valorização
de
quase
180
%
em
2024
.
É
um
sinal
importante
de
que
investidores
estrangeiros
estão
olhando
o
país
com
novos
olhos
.
Além
de
isso
,
muitas
empresas
nacionais
e
internacionais
estão
anunciando
investimentos
,
principalmente
em
setores
com
potencial
de
exportações
,
como
energia
e
mineração
.
A
mineradora
anglo-australiana
Rio
Tinto
,
por
exemplo
,
anunciou
em
o
começo
de
dezembro
um
investimento
de
US$
2,5
bilhões
em
um
projeto
de
produção
de
lítio
em
a
província
de
Salta
,
em
o
noroeste
argentino
.
Há
também
as
reservas
de
gás
natural
de
Vaca
Muerta
,
um
megacampo
que
hoje
é
subaproveitado
e
levou
o
governo
argentino
a
fechar
um
acordo
com
o
Brasil
para
a
exportação
de
o
recurso
.
Dominicis
diz
que
os
sinais
são
de
confiança
em
o
país
e
que
os
investimentos
devem
continuar
.
Outros
dois
riscos
importantes
vêm
de
os
lados
político
e
social
.
Milei
sabe
que
,
se
a
economia
não
concluir
seu
trajeto
de
recuperação
em
2025
,
“
a
paciência
e
confiança
de
as
pessoas
poderia
acabar
”
,
lembra
Dominicis
.