A
edição
de
2020
de
o
Exame
Nacional
de
o
Ensino
Médio
(
Enem
)
trará
por
a
primeira
vez
a
aplicação
de
provas
digitais
,
feitas
em
computadores
.
O
novo
exame
,
previsto
anteriormente
para
outubro
e
adiado
por
causa
de
a
pandemia
,
será
aplicado
em
este
domingo
(
31
)
e
em
o
próximo
(
7
)
.
As
provas
serão
feitas
em
aparelhos
sem
acesso
a
a
internet
ou
ferramentas
como
calculadoras
e
editor
de
texto
.
A
redação
será
manual
,
e
os
alunos
precisam
levar
canetas
pretas
de
tubo
transparente
para
escrevê
la
.
De
as
101.100
pessoas
inscritas
em
esta
modalidade
,
96.086
confirmaram
a
inscrição
(
1,66
%
de
o
total
de
candidatos
confirmados
)
.
Quando
anunciado
,
em
julho
de
2019
,
o
objetivo
era
tornar
o
Enem
100
%
digital
até
2026
.
Mas
há
desafios
.
Especialistas
ouvidos
por
o
G1
apontam
problemas
como
:
Logística
e
infraestrutura
:
será
um
desafio
encontrar
locais
com
computadores
para
um
contingente
de
mais
de
5
milhões
de
candidatos
(
em
2020
,
a
prova
impressa
teve
5,78
milhões
de
inscritos
confirmados
)
Problemas
técnicos
:
os
desenvolvedores
precisam
criar
provas
que
"
rodem
"
em
todo
e
qualquer
tipo
de
computador
,
marca
e
capacidade
de
memória
Níveis
de
proficiência
:
a
prova
digital
precisa
ser
adaptada
para
que
a
dificuldade
de
as
questões
seja
comparável
a
as
de
o
Enem
impresso
.
Pesquisas
em
a
área
de
educação
apontam
diferenças
em
o
rendimento
conforme
a
mídia
usada
para
a
prova
(
papel
ou
digital
)
Risco
de
exclusão
social
:
será
necessário
preparar
os
candidatos
para
se
familiarizarem
com
provas
em
computadores
Mas
há
também
vantagens
:
o
Enem
digital
poderá
evoluir
para
um
modelo
que
permita
uma
avaliação
personalizada
,
com
questões
sendo
escolhidas
em
o
Banco
de
Itens
(
questões
)
conforme
o
aluno
acerta
ou
erra
as
respostas
.
Também
será
possível
incluir
interatividade
em
a
avaliação
,
com
vídeos
e
gráficos
animados
,
por
exemplo
.
Para
isso
,
será
preciso
investir
em
a
elaboração
de
essas
questões
,
para
criar
um
banco
de
dados
robusto
e
com
opções
variadas
a
cada
nível
de
desempenho
de
os
candidatos
.
Alexandre
Lopes
,
presidente
de
o
Inep
,
disse
a
o
G1
que
a
versão
digital
amplia
as
possibilidades
e
deixa
as
provas
melhores
.
"
Pode
botar
vídeo
,
gamificação
[
em
a
questão
]
.
A
gente
pode
fazer
provas
muito
mais
interativas
.
"
Ele
diz
que
"
esse
é
o
primeiro
objetivo
"
com
o
Enem
digital
.
"
E
o
segundo
é
a
questão
logística
.
Há
uma
dificuldade
de
movimentar
as
provas
para
o
Brasil
inteiro
.
O
Enem
digital
simplifica
.
"
O
Inep
planeja
,
a
partir
de
a
consolidação
de
o
modelo
digital
,
mais
datas
de
provas
de
o
Enem
distribuídas
a
o
longo
de
o
ano
.
"
Assim
eu
não
preciso
fazer
uma
prova
para
5,6
milhões
de
pessoas
em
o
mesmo
dia
.
O
mesmo
computador
vai
servir
para
mais
de
um
candidato
em
datas
diferentes
"
,
afirma
o
presidente
de
a
autarquia
.
"
A
gente
poderia
dividir
o
total
de
candidatos
em
cinco
grupos
.
Ele
vê
o
edital
e
seleciona
data
e
cidade
que
deseja
"
,
diz
Lopes
.
Pressão
para
se
adaptar
A
prova
digital
pode
criar
uma
pressão
sobre
os
sistemas
de
ensino
,
que
vão
ter
que
se
adaptar
a
as
tecnologias
para
preparar
os
estudantes
.
Prova
de
o
Enem
digital
será
realizada
em
o
próximo
domingo
Por
enquanto
,
em
esta
primeira
versão
,
o
Enem
digital
não
deverá
trazer
inovações
.
É
esperado
uma
"
prova
digitalizada
"
,
ou
seja
,
as
questões
como
apareceriam
em
o
meio
impresso
,
mas
refletidas
em
a
tela
de
o
computador
.
A
única
interação
relevante
será
a
marcação
de
a
resposta
,
com
um
clique
.
A
o
escolher
uma
alternativa
,
ela
já
será
anotada
automaticamente
em
o
gabarito
,
excluindo
o
risco
de
errar
em
a
transcrição
de
as
respostas
,
que
os
candidatos
de
o
Enem
impresso
precisam
enfrentar
.
Logística
e
infraestrutura
Um
de
os
pontos
que
o
país
precisa
superar
em
5
anos
será
a
logística
e
o
aumento
de
infraestrutura
para
atender
a
todos
os
candidatos
inscritos
.
"
Ir
de
100
mil
para
5
milhões
é
muita
coisa
.
A
gente
não
tem
computador
,
mesmo
que
pegue
todas
escolas
e
faculdades
de
o
Brasil
"
,
avalia
Tadeu
de
a
Ponte
,
especializado
em
processos
seletivos
e
programas
de
avaliação
realizados
em
larga
escala
,
métricas
educacionais
e
testes
realizados
em
computador
.
Lopes
,
de
o
Inep
,
afirma
que
é
"
por
isso
que
a
implementação
será
gradual
.
Para
dar
condição
de
jovens
que
ainda
vão
chegar
a
o
ensino
médio
eles
tenham
condição
de
se
preparar
para
a
prova
digital
"
.
Uma
saída
seria
fazer
várias
provas
de
o
Enem
a
o
longo
de
o
ano
,
como
o
próprio
Inep
já
cogita
.
Com
a
Teoria
de
Resposta
a
o
Item
(
TRI
)
,
método
de
avaliação
usado
por
o
Enem
,
é
possível
fazer
provas
que
são
diferentes
,
mas
têm
o
mesmo
nível
de
dificuldade
.
"
Com
a
TRI
,
você
poderia
fazer
prova
em
diferentes
dias
e
teria
a
mesma
régua
para
avaliar
os
alunos
.
Se
o
banco
de
questões
for
suficientemente
grande
,
o
Enem
poderia
ter
aplicações
múltiplas
em
diferentes
datas
de
o
ano
"
,
afirma
.
"
Essas
5
milhões
de
pessoas
seriam
distribuídas
em
o
tempo
,
de
tal
forma
que
a
infraestrutura
seja
mais
dimensionável
"
,
avalia
.
Para
elaborar
as
questões
de
o
Enem
,
é
preciso
pagar
para
um
profissional
.
Ponte
vê
como
saída
para
este
entrava
uma
maior
arrecadação
com
as
múltiplas
inscrições
de
o
Enem
.
Problemas
técnicos
Para
Tadeu
de
a
Ponte
,
além
de
as
salas
disponíveis
,
é
preciso
ter
equipamentos
.
"
E
quando
entra
em
os
detalhes
,
é
muito
diferente
:
tem
mil
memórias
diferentes
,
diversas
capacidades
de
computador
"
,
afirma
.
"
É
um
desafio
fazer
um
sistema
que
funcione
em
qualquer
computador
de
qualquer
lugar
"
,
avalia
Tadeu
de
a
Ponte
.
Segundo
o
Inep
,
haverá
um
técnico
de
informática
em
cada
uma
de
as
salas
de
aplicação
,
além
de
outro
coordenador
em
o
local
.
Se
uma
máquina
apresentar
problema
,
o
profissional
avaliará
a
possibilidade
de
transferir
o
candidato
para
outro
computador
.
Se
o
procedimento
demorar
menos
de
15
minutos
,
o
estudante
pode
terminar
a
prova
.
Caso
leve
mais
tempo
,
ele
terá
de
fazer
a
reaplicação
de
o
Enem
em
fevereiro
.
Níveis
de
proficiência
O
professor
e
coordenador
de
o
Grupo
de
Estudos
e
Pesquisas
em
Avaliação
Educacional
(
Gepave
)
de
a
Universidade
de
São
Paulo
(
USP
)
,
Ocimar
Alavarse
,
defende
que
é
preciso
saber
como
o
Enem
digital
será
equivalente
a
o
impresso
para
avaliar
o
desempenho
de
estudantes
e
selecioná
los
para
vagas
em
as
universidades
.
Segundo
Alavarse
,
é
possível
estabelecer
estas
métricas
com
pré-testes
.
Alexandre
Lopes
,
presidente
de
o
Inep
,
afirmou
em
entrevista
a
o
G1
em
5
de
janeiro
que
há
estudos
,
mas
não
há
previsão
de
que
sejam
divulgados
.
"
Fizemos
estudos
,
pré-testes
com
provas
em
papel
e
digital
e
a
gente
tem
tranquilidade
de
dizer
que
as
provas
são
comparáveis
.
Essa
é
a
razão
,
por
exemplo
,
de
a
redação
ainda
ser
em
papel
.
Nossas
equipes
entenderam
que
a
gente
precisa
de
um
pouco
mais
de
estudos
para
poder
configurar
a
prova
em
o
ambiente
digital
para
que
as
pessoas
tenham
as
mesmas
condições
de
concorrência
,
porque
não
basta
simplesmente
dizer
que
30
linhas
equivalem
a
20
linhas
digitadas
,
é
mais
de
o
que
isso
,
precisa
aprofundar
um
pouco
mais
para
saber
como
a
digitação
de
a
redação
pode
influenciar
em
o
resultado
de
a
prova
,
por
isso
a
redação
ainda
é
manuscrita
em
este
ano
.
Em
relação
a
as
respostas
de
múltipla
escolha
,
estamos
tranquilos
em
relação
a
isso
"
,
afirmou
.
"
[
O
estudo
]
não
está
publicado
.
Não
tem
previsão
[
de
publicação
]
em
este
momento
"
,
disse
.
"
[
A
divulgação
de
os
dados
]
É
o
primeiro
elemento
.
A
menos
que
se
queira
criar
uma
nova
escala
,
só
para
o
computador
.
O
problema
de
manter
a
escala
[
de
o
impresso
]
é
manter
a
comparação
"
,
avalia
Alavarse
.
"
É
um
desafio
manter
habilidades
em
o
digital
e
em
o
papel
que
sejam
comparáveis
em
níveis
de
proficiência
para
que
essa
mesma
nota
entre
em
o
Sisu
.
Esse
primeiro
piloto
,
apesar
de
pequeno
em
número
de
inscritos
(
proporcionalmente
a
o
total
de
o
Enem
)
,
já
está
valendo
vaga
pública
"
,
alerta
Ademar
Celedônio
,
professor
e
diretor
de
Ensino
e
Inovações
Educacionais
de
o
SAS
.
Risco
de
exclusão
Para
Catarina
de
Almeida
Santos
,
professora
de
a
Universidade
de
Brasília
(
UnB
)
e
dirigente
de
a
Campanha
Nacional
por
o
Direito
a
a
Educação
,
há
risco
de
aumentar
a
exclusão
social
devido
a
a
desigualdade
de
acesso
a
as
tecnologias
.
"
Os
estudantes
estão
habituados
a
pensar
e
responder
em
papel
impresso
.
Mudar
esse
processo
para
a
forma
digital
teria
que
fazer
com
que
isso
acontecesse
em
as
escolas
.
Não
estou
falando
em
treinar
,
isso
tem
que
fazer
parte
de
o
cotidiano
de
eles
"
,
avalia
.
"
O
uso
de
ferramentas
tecnológicas
em
a
escola
teria
que
ser
tão
normal
quanto
a
avaliação
escrita
.
Além
de
o
Inep
tornar
a
prova
100
%
digital
,
ele
precisa
fazer
que
o
público
de
o
Enem
tenha
condições
de
fazer
isso
.
Em
o
mínimo
,
o
público
que
está
em
a
escola
.
Se
não
,
aquilo
que
foi
feito
para
facilitar
,
se
torna
um
processo
de
exclusão
.
Ninguém
se
torna
um
ser
digital
de
o
nada
"
,
analisa
.
Ela
cita
como
exemplo
o
processo
de
exclusão
digital
evidenciado
por
a
pandemia
.
"
A
pandemia
mostrou
que
não
é
só
a
falta
de
acesso
a
a
tecnologia
,
mas
a
falta
de
uso
de
as
tecnologias
.
Os
jovens
de
a
rede
pública
em
geral
estão
acostumados
a
mexer
em
redes
sociais
,
ouvir
música
.
Nossas
escolas
precisam
ser
equipadas
com
essas
tecnologias
e
para
fazerem
parte
de
o
dia
a
dia
de
os
estudantes
"
,
afirma
.
"
O
governo
precisa
essencialmente
garantir
a
inclusão
tecnológica
,
e
não
só
entregando
um
chip
de
internet
e
um
celular
,
mas
essa
inclusão
de
que
a
tecnologia
se
torne
uma
ferramenta
normal
em
o
dia
a
dia
de
as
tarefas
escolares
"
,
diz
.
O
presidente
de
o
Inep
afirma
que
o
papel
de
o
Enem
é
de
indução
.
"
A
partir
de
o
momento
em
que
os
gestores
sabem
que
seus
alunos
serão
submetidos
em
o
futuro
a
uma
prova
de
avaliação
digital
você
cria
essa
necessidade
,
induz
a
capacitação
de
esses
alunos
.
"
"
A
implementação
[
de
o
Enem
digital
]
agora
é
um
fato
.
E
a
discussão
sobre
a
informatização
de
a
escola
não
é
um
tema
novo
.
A
dificuldade
de
levar
internet
e
computadores
a
as
escolas
já
vem
de
bastante
tempo
"
,
diz
Alexandre
Lopes
.
O
Censo
de
a
Educação
Básica
2020
,
divulgado
em
esta
sexta
(
29
)
,
aponta
que
o
acesso
a
as
tecnologias
e
a
a
internet
varia
entre
as
regiões
de
o
país
e
também
entre
as
redes
pública
e
privada
.
Em
a
visão
de
Almeida
,
em
os
próximos
cinco
anos
,
o
governo
teria
que
eliminar
essas
diferenças
.
"
A
gente
pode
minimizar
isso
ampliando
acesso
a
a
tecnologia
,
não
só
de
estudantes
,
mas
de
a
sociedade
como
um
todo
.
Não
só
te
tecnologia
,
mas
de
internet
.
Que
disponibilize
ferramentas
para
que
as
pessoas
se
familiarizem
.
Tudo
isso
precisa
ser
treinado
,
as
pessoas
precisam
ser
habituadas
para
conseguir
fazer
uma
prova
"
,
avalia
Almeida
.
Ademar
Celedônio
alerta
para
outro
tipo
de
exclusão
:
o
de
candidatos
com
algum
tipo
de
deficiência
que
precisam
de
apoio
para
as
provas
.
"
Em
a
hora
em
que
eu
me
transportar
100
%
para
o
digital
,
vou
ter
que
lembrar
de
esses
alunos
para
fazer
a
inclusão
.
São
outras
adaptações
,
outros
desafios
de
inclusão
.
"
Prova
personalizada
Superados
os
desafios
,
uma
de
as
vantagens
de
ter
um
Enem
100
%
digital
será
poder
evoluir
para
uma
prova
personalizada
,
que
começa
com
perguntas
fáceis
e
avança
para
outras
difíceis
.
Em
uma
escala
de
0
a
1.000
em
o
Enem
,
por
exemplo
,
isso
seria
começar
a
prova
com
uma
questão
de
nível
de
proficiência
100
,
e
avançar
para
200
,
depois
300
.
Se
o
aluno
continuar
acertando
,
ele
avança
para
níveis
mais
difíceis
.
Se
ele
errar
,
o
teste
pode
"
calibrar
"
mais
questões
.
Se
o
erro
foi
em
300
,
o
teste
pode
fornecer
uma
pergunta
de
nível
350
,
por
exemplo
.
Se
o
candidato
errar
,
a
pergunta
seguinte
pode
vir
em
310
ou
340
,
dependendo
de
o
grau
de
especificidade
de
o
Banco
de
Itens
.
Estes
"
degraus
"
de
dificuldade
são
os
níveis
de
proficiência
.
Quanto
mais
variados
,
melhor
será
a
avaliação
.
Em
uma
prova
impressa
,
o
número
de
perguntas
é
fixo
.
Em
um
Enem
digital
,
ele
poderá
ser
variável
.