"
Se
eu
vir
alguém
batendo
os
dedos
em
uma
mesa
,
meu
pensamento
imediato
é
cortar
os
dedos
de
a
pessoa
com
uma
faca
"
,
confidenciou
um
paciente
anônimo
a
um
pesquisador
.
"
Quando
vejo
alguém
fazendo
movimentos
repetitivos
muito
pequenos
,
como
meu
marido
dobrando
os
dedos
de
os
pés
,
me
sinto
fisicamente
mal
.
Eu
seguro
,
mas
tenho
vontade
de
vomitar
"
,
afirmou
outra
.
Parece
familiar
?
Se
sim
,
talvez
você
também
tenha
uma
condição
chamada
misocinesia
—
uma
aversão
a
a
inquietação
ou
movimento
diagnosticável
.
Os
cientistas
estão
se
esforçando
para
entender
mais
sobre
o
fenômeno
que
,
até
o
momento
,
não
tem
causa
conhecida
.
Em
a
pesquisa
mais
recente
,
publicada
em
a
revista
científica
PLoS
One
,
os
especialistas
realizaram
entrevistas
aprofundadas
com
21
pessoas
que
fazem
parte
de
um
grupo
de
apoio
a
as
pessoas
com
misocinesia
.
Por
que
o
Brasil
tem
a
população
mais
ansiosa
de
o
mundo
Ansiedade
ou
preocupação
?
Descubra
o
que
você
está
sentindo
Os
gatilhos
mais
comuns
registrados
foram
os
movimentos
de
as
pernas
,
de
as
mãos
ou
de
os
pés
—
como
balançar
as
coxas
,
mexer
os
dedos
e
arrastar
os
sapatos
.
Clicar
em
a
caneta
e
enrolar
o
cabelo
também
foram
identificados
como
gatilhos
,
embora
não
com
a
mesma
frequência
.
Muitas
vezes
,
as
pessoas
relataram
alguma
sobreposição
com
outra
condição
mais
conhecida
,
chamada
misofonia
—
uma
aversão
intensa
a
os
ruídos
de
outras
pessoas
,
como
a
respiração
pesada
ou
o
barulho
de
a
mastigação
.
Pesquisa
aponta
que
'
ansiedade
'
é
a
palavra
de
o
ano
em
2024
É
impossível
saber
exatamente
quantas
pessoas
podem
estar
sofrendo
de
misocinesia
.
Um
estudo
canadense
recente
sugeriu
que
talvez
um
em
cada
três
de
nós
possa
ser
afetado
negativamente
por
a
inquietação
de
outras
pessoas
,
vivenciando
sentimentos
intensos
de
raiva
,
tortura
e
repulsa
.
Conversei
com
Jane
Gregory
,
psicóloga
clínica
de
a
Universidade
de
Oxford
,
em
o
Reino
Unido
,
que
tem
estudado
e
tratado
tanto
a
misocinesia
quanto
a
misofonia
.
"
As
duas
andam
juntas
com
muita
frequência
.
Muitas
vezes
,
as
pessoas
têm
as
duas
a
o
mesmo
tempo
"
,
diz
ela
a
a
BBC
News
.
Embora
não
haja
dados
confiáveis
,
Gregory
afirma
que
as
condições
são
provavelmente
surpreendentemente
comuns
.
"
Obviamente
,
as
pessoas
têm
vivenciado
isso
há
muito
tempo
,
mas
simplesmente
não
havia
um
nome
para
isso
.
"
Segundo
ela
,
a
gravidade
de
a
aversão
de
as
pessoas
a
a
inquietação
varia
.
"
Algumas
pessoas
podem
ficar
realmente
incomodadas
com
a
inquietação
ou
com
movimentos
repetitivos
,
mas
isso
não
afeta
muito
a
vida
cotidiana
"
,
diz
ela
.
Outros
,
em
o
entanto
,
podem
"
ter
uma
reação
emocional
muito
forte
—
raiva
,
pânico
ou
angústia
—
e
simplesmente
não
conseguem
filtrá
las
"
.
Em
o
trabalho
de
Gregory
,
ela
tende
a
encontrar
pessoas
com
sintomas
mais
extremos
.
Muitos
são
adultos
que
sofrem
de
misocinesia
há
anos
,
mas
alguns
estão
em
o
início
de
a
adolescência
e
vivenciando
a
condição
por
a
primeira
vez
.
O
que
é
a
ansiedade
e
como
ela
se
diferencia
de
a
depressão
'
Simplesmente
explode
dentro
de
você
'
Andrea
,
de
62
anos
,
diz
que
desenvolveu
misofonia
e
misocinesia
a
os
13
anos
,
mas
que
isso
não
foi
reconhecido
em
a
época
.
Uma
de
suas
primeiras
lembranças
de
a
condição
é
a
de
ter
ficado
angustiada
com
uma
menina
em
a
escola
que
estava
cutucando
as
unhas
.
"
A
maior
parte
de
a
misocinesia
tende
a
focar
em
as
mãos
de
as
pessoas
—
em
o
que
elas
estão
fazendo
com
as
mãos
e
o
que
estão
tocando
"
,
explica
.
Outro
gatilho
para
ela
é
quando
as
pessoas
cobrem
parcialmente
a
boca
com
a
mão
enquanto
falam
—
ela
se
esforça
para
ver
,
e
sente
que
sua
própria
boca
está
ficando
dolorida
quando
faz
isso
.
Andrea
afirma
que
a
raiva
que
ela
sente
é
explosiva
e
instantânea
.
"
Não
há
nenhum
processo
racional
em
isso
.
Não
há
lógica
.
Simplesmente
explode
dentro
de
você
,
e
é
por
isso
que
é
tão
angustiante
.
"
Ela
me
disse
que
tentou
diferentes
estratégias
para
gerenciar
sua
condição
,
mas
não
consegue
bloqueá
la
.
Agora
,
ela
se
protege
de
a
sociedade
,
morando
sozinha
e
trabalhando
de
casa
,
e
diz
que
toda
a
sua
vida
foi
projetada
para
evitar
as
coisas
que
poderiam
perturbá
la
.
Andrea
conta
que
tem
muitos
amigos
que
a
apoiam
,
e
que
entendem
que
,
a
as
vezes
,
ela
precisa
mudar
a
forma
como
interage
com
eles
.
"
É
mais
fácil
simplesmente
se
retirar
.
Tentar
sobreviver
.
Você
não
pode
ficar
pedindo
a
as
outras
pessoas
que
não
façam
as
coisas
.
"
Ela
explica
que
não
culpa
os
outros
por
sua
inquietação
,
e
entende
que
a
maioria
de
as
atitudes
de
as
pessoas
não
é
intencional
—
e
,
sim
,
realizada
por
a
força
de
o
hábito
.
Andrea
diz
que
compartilhar
suas
experiências
com
um
grupo
de
apoio
em
o
Facebook
tem
sido
de
grande
ajuda
.
'
Eu
fico
com
muita
raiva'
Jill
,
de
53
anos
,
é
outro
membro
de
esse
grupo
.
Ela
relata
que
a
misocinesia
faz
seu
coração
disparar
.
"
Qualquer
coisa
pode
ser
um
gatilho
para
mim
,
desde
balançar
as
pernas
até
a
aparência
e
a
forma
como
alguém
segura
o
garfo
.
"
"
Eu
fico
com
raiva
,
muita
raiva
"
,
acrescenta
.
"
Meu
coração
começa
a
bater
muito
rápido
.
É
como
uma
[
reação
de
]
luta
ou
fuga
.
"
Bola
de
ansiedade
Julie
,
de
54
anos
,
diz
que
a
principal
sensação
que
tem
por
conta
de
a
misocinesia
é
a
angústia
.
"
Outro
dia
,
eu
estava
em
o
ônibus
,
e
havia
uma
senhora
passando
,
e
seus
dois
braços
estavam
balançando
.
Eu
não
conseguia
tirar
os
olhos
de
ela
.
Eu
estava
ficando
muito
ansiosa
com
isso
,
não
com
raiva
.
"
"
São
coisas
bobas
,
como
alguém
que
está
preparando
uma
xícara
de
chá
para
mim
,
e
pega
o
saquinho
de
chá
e
balança
para
cima
e
para
baixo
,
para
cima
e
para
baixo
,
para
cima
e
para
baixo
.
Por
quê
?
"
"
Ou
se
alguém
estiver
sentado
balançando
a
perna
.
Não
com
si
tirar
os
olhos
.
E
,
se
eu
desviar
o
olhar
,
tenho
que
olhar
para
trás
para
ver
se
a
pessoa
ainda
está
fazendo
isso
.
"
Ela
contou
a
a
BBC
que
a
sensação
desagradável
que
se
segue
pode
consumi
la
por
horas
.
"
Não
sou
uma
pessoa
irritada
.
Isso
só
me
faz
sentir
como
se
houvesse
uma
bola
em
o
meu
estômago
prestes
a
explodir
.
Não
é
raiva
,
é
um
sentimento
interno
de
ansiedade
.
"
Julie
afirma
que
não
tem
receio
de
pedir
a
as
pessoas
que
parem
de
fazer
algo
que
ela
está
achando
angustiante
—
mas
,
em
vez
de
isso
,
ela
tende
a
se
afastar
.
Ela
me
diz
que
a
misocinesia
a
deixa
infeliz
.
"
Me
faz
internalizar
isso
.
Não
gosto
de
mim
mesma
por
me
sentir
assim.
"
Suricato
interior
hipervigilante
Gregory
destaca
que
a
condição
pode
ser
extremamente
debilitante
,
e
impedir
que
as
pessoas
se
concentrem
e
façam
coisas
normais
.
"
Parte
de
seu
cérebro
está
constantemente
pensando
em
esse
movimento
"
,
ela
explica
.
"
Imagens
violentas
podem
surgir
em
a
cabeça
de
elas
.
Eles
querem
agarrar
a
pessoa
e
forçá
la
a
parar
.
..
mesmo
que
não
estejam
irritadas
em
suas
vidas
normais
.
"
Com
relação
a
o
motivo
por
o
qual
algumas
pessoas
são
suscetíveis
,
Gregory
diz
que
pode
ser
um
instinto
de
sobrevivência
básico
intensificado
,
como
um
suricato
atento
a
o
perigo
.
Ela
compara
a
sensação
com
a
de
ver
"
alguém
apressado
a
a
distância
"
ou
"
perceber
passos
atrás
de
você
"
.
"
Em
o
caso
de
algumas
pessoas
,
você
não
desliga
mais
.
Seu
cérebro
está
monitorando
continuamente
.
"
Ela
observa
que
,
em
a
vida
moderna
barulhenta
e
agitada
,
isso
não
é
muito
útil
.
E
se
o
gatilho
continuar
,
a
frustração
e
a
raiva
podem
aumentar
.
Para
algumas
pessoas
,
os
hábitos
de
estranhos
são
os
mais
incômodos
,
enquanto
para
outras
,
são
os
de
seus
entes
queridos
.
Uma
maneira
comum
de
as
pessoas
tentarem
controlar
a
condição
é
evitar
olhar
para
a
inquietação
ou
se
distrair
,
diz
Gregory
.
Outros
podem
tentar
evitar
as
pessoas
por
completo
,
em
a
medida
de
o
possível
.
Se
houver
apenas
um
gatilho
visual
isolado
—
como
enrolar
o
cabelo
—
,
a
especialista
afirma
que
,
a
as
vezes
,
é
possível
usar
a
terapia
de
reenquadramento
(
reframing
)
para
ajudar
a
pessoa
a
ver
a
situação
de
uma
forma
mais
positiva
.