O
lenacapavir
,
um
remédio
injetável
tomado
a
cada
seis
meses
como
medida
profilática
contra
o
HIV
,
foi
eleito
o
avanço
científico
de
2024
por
a
revista
acadêmica
Science
.
Os
resultados
que
avaliaram
a
estratégia
,
publicados
em
julho
e
setembro
de
este
ano
,
mostraram
uma
taxa
de
eficácia
que
beira
os
100
%
—
e
foram
consideradas
por
entidades
e
especialistas
um
divisor
de
águas
em
a
prevenção
a
o
vírus
causador
de
a
aids
.
Alguns
pesquisadores
consideram
que
a
novidade
é
o
mais
próximo
que
chegamos
de
uma
vacina
contra
essa
infecção
.
A
medicação
só
deve
estar
disponível
a
partir
de
2026
,
mas
os
debates
sobre
quem
terá
acesso
a
ela
já
estão
a
todo
vapor
.
Isso
porque
a
farmacêutica
responsável
por
a
inovação
fez
um
acordo
de
licenciamento
com
seis
laboratórios
,
para
garantir
a
produção
de
uma
versão
genérica
de
baixo
custo
de
o
lenacapavir
,
que
será
distribuída
para
os
120
países
mais
pobres
de
o
globo
.
Em
o
entanto
,
nações
consideradas
de
renda
média
—
como
o
Brasil
e
boa
parcela
de
a
América
Latina
,
onde
parte
de
os
estudos
clínicos
de
o
fármaco
foram
realizados
—
ficaram
fora
de
essa
lista
.
Com
isso
,
há
um
temor
de
que
os
programas
de
saúde
pública
de
esses
países
não
terão
condições
financeiras
de
custear
o
lenacapavir
para
quem
mais
precisa
.
Para
ter
ideia
,
pesquisadores
ingleses
,
alemães
e
americanos
estimam
que
as
duas
doses
anuais
custem
,
por
paciente
,
algo
entre
US$
25.395
e
44.918
(
a
o
redor
de
R$
153
mil
e
271
mil
,
em
a
cotação
atual
)
.
Esse
valor
é
considerado
"
inviável
"
por
representantes
de
o
Ministério
de
a
Saúde
.
Mas
,
segundo
o
mesmo
grupo
internacional
de
especialistas
,
é
possível
reduzir
esse
preço
para
menos
de
US$
100
(
R$
600
)
por
paciente
por
ano
com
compras
de
insumo
em
larga
escala
e
produção
em
massa
de
as
doses
.
Entenda
a
seguir
como
está
essa
discussão
e
quais
são
os
caminhos
possíveis
para
ampliar
o
acesso
a
a
futura
'
vacina
'
de
a
aids
em
o
Brasil
e
em
o
mundo
.
LEIA
MAIS
:
Casos
aumentam
,
mas
Brasil
têm
em
2023
a
menor
mortalidade
por
Aids
de
a
série
histórica
O
que
é
o
lenacapavir
Para
entender
a
importância
de
essa
nova
estratégia
,
é
preciso
conhecer
os
detalhes
de
a
chamada
Profilaxia
Pré-Exposição
(
Prep
)
.
A
partir
de
meados
de
2010
,
começaram
a
surgir
os
primeiros
trabalhos
e
iniciativas
de
implementação
de
medidas
biomédicas
preventivas
contra
o
HIV
.
Basicamente
,
a
ideia
consiste
em
oferecer
a
pessoas
não
infectadas
um
remédio
de
forma
profilática
,
justamente
para
impedir
que
o
vírus
invada
o
organismo
.
Eles
podem
ser
uma
boa
ideia
para
resguardar
indivíduos
de
grupos
considerados
como
populações-chave
(
gays
e
outros
homens
que
fazem
sexo
com
homens
;
pessoas
trans
;
pessoas
que
usam
álcool
e
outras
drogas
;
pessoas
privadas
de
liberdade
e
trabalhadores
de
o
sexo
)
e
populações
prioritárias
(
adolescentes
e
jovens
;
negros
;
indígenas
;
indivíduos
em
situação
de
rua
)
.
A
Prep
disponível
hoje
,
inclusive
em
o
sistema
público
brasileiro
,
é
feita
a
partir
de
comprimidos
,
que
devem
ser
tomados
todos
os
dias
.
Ela
tem
uma
alta
taxa
de
eficácia
,
mas
apresenta
um
problema
importante
:
depende
de
a
memória
e
de
a
iniciativa
de
o
próprio
indivíduo
.
Se
a
pessoa
se
esquecer
de
tomar
o
remédio
,
ela
fica
sob
risco
de
se
infectar
com
o
HIV
(
caso
não
faça
uso
de
outras
medidas
preventivas
,
como
os
preservativos
,
por
exemplo
)
.
Para
lidar
com
essa
fragilidade
,
os
cientistas
desenvolveram
versões
injetáveis
e
de
longa
duração
de
a
Prep
.
A
primeira
versão
foi
o
cabotegravir
,
que
precisa
ser
tomado
de
dois
em
dois
meses
(
e
deve
chegar
em
o
Brasil
a
partir
de
o
ano
que
vem
)
.
Mas
ele
ainda
apresenta
algumas
barreiras
importantes
,
segundo
especialistas
ouvidos
por
a
BBC
News
Brasil
.
Essa
Prep
demanda
uma
injeção
mais
profunda
em
os
glúteos
,
que
pode
ser
um
tanto
incômoda
ou
até
contraindicada
para
pessoas
com
próteses
de
silicone
em
essa
parte
de
o
corpo
.
Em
a
sequência
,
veio
o
lenacapavir
,
que
foi
eleito
a
inovação
científica
de
2024
.
Como
mencionado
anteriormente
,
ele
é
aplicado
uma
vez
a
cada
seis
meses
e
por
via
subcutânea
(
em
as
camadas
mais
superficiais
de
a
pele
)
.
O
médico
Alexandre
Naime
Barbosa
,
coordenador
científico
de
a
Sociedade
Brasileira
de
Infectologia
(
SBInfecto
)
,
explica
que
este
fármaco
inibe
o
capsídeo
,
proteína
que
forma
uma
de
as
estruturas
de
o
HIV
.
"
Ele
consegue
atrapalhar
o
funcionamento
de
esse
capsídeo
,
que
é
uma
espécie
de
caixinha
que
envolve
o
material
genético
de
o
vírus
"
,
diz
o
especialista
,
que
também
é
professor
de
a
Universidade
Estadual
Paulista
(
Unesp
)
.
"
O
lenacapavir
não
deixa
que
essa
caixinha
seja
formada
.
Com
isso
,
o
vírus
não
consegue
infectar
novos
linfócitos
T
CD4
,
que
são
as
células-alvo
de
o
HIV
em
o
organismo
"
,
complementa
ele
.
A
o
quebrar
esse
mecanismo
,
portanto
,
a
infecção
não
acontece
.
De
aí
o
vírus
não
consegue
se
replicar
e
"
se
esconder
"
em
partes
específicas
de
o
corpo
.
"
O
lenacapavir
foi
projetado
para
ter
uma
liberação
lenta
.
Ele
forma
um
depósito
em
o
tecido
gorduroso
,
geralmente
em
o
abdômen
,
e
o
medicamento
é
disponibilizado
para
o
organismo
a
os
poucos
,
a
o
longo
de
seis
meses
"
,
explica
Barbosa
.
A
eficácia
de
o
lenacapavir
O
médico
sanitarista
e
epidemiologista
Draurio
Barreira
,
diretor
de
o
Departamento
de
HIV/Aids
,
Tuberculose
,
Hepatites
Virais
e
Infecções
Sexualmente
Transmissíveis
de
o
Ministério
de
a
Saúde
,
conta
que
participa
de
conferências
sobre
aids
desde
os
anos
1990
.
"
E
dois
de
esses
congressos
foram
muito
marcantes
pra
mim
.
O
primeiro
aconteceu
em
1996
,
em
Vancouver
,
em
o
Canadá
,
quando
surgiu
o
coquetel
antirretroviral
"
,
lembra
ele
.
"
O
segundo
foi
a
Conferência
Internacional
sobre
Aids
de
2024
,
realizada
em
julho
em
a
cidade
de
Munique
,
em
a
Alemanha
"
,
complementa
o
especialista
.
Em
a
edição
de
este
ano
,
foram
divulgados
justamente
os
resultados
de
um
de
os
estudos
que
avaliou
o
lenacapavir
,
desenvolvido
por
a
farmacêutica
Gilead
Sciences
.
Apelidada
de
Purpose-1
,
essa
pesquisa
acompanhou
5.300
mulheres
cisgênero
(
que
se
identificam
com
o
gênero
designado
a
elas
quando
nasceram
)
de
16
a
25
anos
em
a
África
de
o
Sul
e
em
Uganda
.
Parte
de
o
grupo
adotou
a
Prep
convencional
,
por
comprimidos
,
enquanto
outra
parcela
tomou
a
versão
injetável
.
Entre
as
voluntárias
que
receberam
o
lenacapavir
,
nenhuma
se
infectou
com
o
HIV
.
Essa
eficácia
,
de
100
%
,
é
algo
bastante
raro
em
estudos
clínicos
—
é
a
primeira
vez
que
isso
acontece
em
os
testes
relacionados
a
o
vírus
causador
de
a
aids
,
por
exemplo
.
Já
em
o
grupo
de
a
Prep
por
comprimidos
,
55
mulheres
se
infectaram
com
o
HIV
.
A
diferença
entre
as
estratégias
foi
tão
significativa
que
o
comitê
independente
responsável
por
monitorar
a
pesquisa
recomendou
que
o
trabalho
fosse
interrompido
—
e
todas
as
participantes
passassem
a
receber
o
lenacapavir
de
ali
em
diante
.
Poucos
meses
depois
,
em
setembro
,
foram
divulgados
os
resultados
preliminares
de
o
estudo
Purpose-2
,
que
avaliou
3.267
voluntários
.
Entre
os
participantes
,
foram
selecionados
homens
cisgênero
,
homens
transgênero
,
mulheres
transgênero
e
indivíduos
não
binários
com
mais
de
16
anos
cujos
parceiros
sexuais
foram
classificados
como
de
o
sexo
masculino
em
o
momento
que
nasceram
.
Essa
pesquisa
foi
conduzida
em
Argentina
,
Brasil
,
México
,
Peru
,
África
de
o
Sul
,
Tailândia
e
Estados
Unidos
.
Assim
como
aconteceu
em
o
Purpose
1
,
aqui
os
indivíduos
foram
divididos
em
grupos
(
parte
recebeu
Prep
oral
;
parte
tomou
lenacapavir
)
.
Os
dados
revelaram
uma
redução
de
96
%
em
o
risco
de
adquirir
HIV
entre
indivíduos
que
fizeram
a
Prep
injetável
.
Apenas
dois
voluntários
que
tomaram
o
lenacapavir
se
infectaram
—
o
que
significa
que
99,9
%
de
os
participantes
ficaram
protegidos
.
Esses
números
foram
celebrados
por
especialistas
e
instituições
.
Em
texto
publicado
em
julho
,
a
Organização
Mundial
de
a
Saúde
(
OMS
)
deu
as
"
boas-vindas
,
com
satisfação
"
,
a
a
notícia
de
que
o
lenacapavir
é
"
altamente
eficaz
"
.
"
Isso
representa
um
avanço
significativo
em
a
prevenção
de
o
HIV
"
,
afirmou
a
entidade
.
O
Programa
Conjunto
de
as
Nações
Unidas
sobre
HIV/Aids
(
Unaids
)
classificou
os
resultados
como
um
"
desenvolvimento
emocionante
"
,
que
dá
"
esperança
para
acelerar
os
esforços
de
acabar
com
a
pandemia
"
.
Já
a
revista
acadêmica
Science
deu
a
o
lenacapavir
o
prêmio
de
avanço
científico
de
o
ano
.
"
A
premiação
também
reconhece
o
trabalho
relacionado
a
o
tema
,
que
permitiu
um
novo
entendimento
sobre
a
estrutura
e
a
função
de
o
capsídeo
de
o
HIV
"
,
diz
a
publicação
.
"
Apesar
de
décadas
de
avanços
,
o
HIV
continua
a
infectar
mais
de
um
milhão
de
pessoas
por
ano
[
...
]
Em
o
entanto
,
um
novo
medicamento
injetável
,
o
lenacapavir
,
oferece
esperança
a
o
fornecer
seis
meses
de
proteção
por
meio
de
uma
injeção
"
,
destaca
um
editorial
de
a
Science
.
Barreira
esclarece
que
o
lenacapavir
não
é
exatamente
uma
vacina
—
ele
não
estimula
e
"
ensina
"
o
sistema
imunológico
a
evitar
uma
infecção
,
como
fazem
os
imunizantes
tradicionais
.
Trata
se
de
um
remédio
que
,
como
explicado
mais
acima
,
atua
em
uma
de
as
estruturas
de
o
vírus
para
impedir
a
replicação
de
ele
.
"
Por
outro
lado
,
nosso
próprio
conceito
de
vacina
vem
se
transformando
,
especialmente
a
partir
de
a
pandemia
de
covid-19
"
,
raciocina
ele
.
"
Quando
surge
uma
medida
profilática
,
como
a
Prep
injetável
semestral
,
não
estamos
de
fato
diante
de
uma
vacina
,
embora
em
termos
práticos
e
programáticos
sejam
coisas
similares
.
"
Então
nós
podemos
trabalhar
em
a
perspectiva
de
ter
uma
'
vacina
'
contra
a
aids
,
ainda
que
esse
termo
precise
ser
usado
entre
aspas
"
,
opina
Barreira
.
A
expectativa
é
que
o
lenacapavir
seja
submetido
a
a
avaliação
de
as
agências
regulatórias
(
como
Anvisa
em
o
Brasil
,
FDA
em
os
Estados
Unidos
e
EMA
em
a
Europa
)
e
esteja
liberado
para
uso
em
larga
escala
a
partir
de
2026
.
Quem
vai
conseguir
tomar
?
As
mesmas
análises
que
comemoraram
a
chegada
de
a
Prep
semestral
também
alertaram
para
o
risco
de
desigualdade
em
o
acesso
a
a
medida
preventiva
.
Autoridades
e
instituições
logo
manifestaram
preocupação
sobre
como
garantir
que
as
pessoas
,
especialmente
as
mais
pobres
e
vulneráveis
,
recebam
o
lenacapavir
.
A
Unaids
,
por
exemplo
,
destacou
que
a
nova
medicação
"
só
pode
conferir
esperança
para
o
fim
de
a
aids
se
todos
tiverem
acesso
"
a
ela
.
Para
responder
a
esses
anseios
,
a
Gilead
Sciences
anunciou
em
outubro
um
acordo
de
licenciamento
voluntário
livre
de
royalties
com
seis
outros
laboratórios
farmacêuticos
.
Em
a
prática
,
esses
fabricantes
(
localizados
em
o
Egito
,
em
o
Paquistão
,
em
a
Índia
e
em
os
Estados
Unidos
)
terão
o
direito
de
produzir
versões
genéricas
de
o
lenacapavir
,
que
serão
vendidas
a
baixo
custo
para
120
países
considerados
de
renda
baixa
ou
média-baixa
.
"
Os
acordos
promovem
a
estratégia
de
a
Gilead
para
permitir
acesso
amplo
e
sustentável
a
o
lenacapavir
para
Prep
globalmente
,
se
for
aprovado
,
e
se
alinham
com
a
visão
de
a
Gilead
de
acabar
com
a
epidemia
de
HIV
para
todos
,
em
todos
os
lugares
"
,
afirmou
o
laboratório
.
Em
o
entanto
,
países
de
renda
média
—
como
o
Brasil
e
boa
parte
de
a
América
Latina
—
ficaram
de
fora
de
esse
acordo
.
Isso
significa
,
portanto
,
que
essas
nações
precisarão
negociar
e
comprar
as
doses
diretamente
com
a
farmacêutica
que
detém
a
patente
.
Com
o
anúncio
,
especialistas
e
instituições
lançaram
novos
protestos
.
Um
editorial
de
o
periódico
The
Lancet
HIV
destacou
que
o
licenciamento
anunciado
por
a
Gilead
"
não
concretiza
todas
as
oportunidades
"
com
o
lenacapavir
.
Já
o
Escritório
Regional
de
a
Unaids
para
a
América
Latina
e
o
Caribe
destacou
que
o
acordo
feito
por
a
farmacêutica
"
não
é
suficiente
"
porque
"
continua
não
incluindo
milhões
de
pessoas
vulneráveis
e
mais
expostas
a
o
risco
"
.
O
texto
divulgado
por
a
entidade
destaca
a
exclusão
de
muitos
países
de
renda
média
,
dez
de
eles
em
a
América
Latina
:
Argentina
,
Brasil
,
Colômbia
,
Costa
Rica
,
Equador
,
El
Salvador
,
Guatemala
,
México
,
Paraguai
e
Peru
.
"
Entre
as
2.184
pessoas
participantes
que
foram
aleatoriamente
designadas
para
receber
lenacapavir
subcutâneo
a
cada
seis
meses
como
parte
de
os
ensaios
estavam
gays
,
bissexuais
e
outros
homens
que
fazem
sexo
com
homens
,
mulheres
e
homens
trans
,
e
pessoas
não
binárias
de
Argentina
,
Brasil
,
México
e
Peru
"
,
diz
a
Unaids
.
"
Além
de
isso
,
em
a
última
década
,
embora
as
infecções
por
HIV
tenham
diminuído
globalmente
,
em
a
América
Latina
houve
um
aumento
de
9
%
,
com
populações-chave
e
mais
vulneráveis
sendo
desproporcionalmente
afetadas
"
,
argumenta
o
texto
.
A
entidade
pede
que
a
"
Gilead
Sciences
e
outras
partes
interessadas
"
iniciem
negociações
"
para
a
redução
de
os
preços
de
essa
ferramenta
fundamental
de
prevenção
"
.
Já
a
Sociedade
Internacional
de
Aids
afirmou
que
o
licenciamento
voluntário
é
"
um
importante
passo
a
a
frente
,
mas
grandes
partes
de
o
mundo
continuam
excluídas
,
incluindo
países
onde
os
ensaios
foram
conduzidos
"
.
"
Estamos
esperançosos
de
que
a
velocidade
com
que
esses
acordos
foram
alcançados
será
mantida
,
e
que
o
resto
de
o
mundo
em
breve
se
beneficiará
de
acordos
semelhantes
para
tornar
o
lenacapavir
mais
acessível
e
oferecer
uma
opção
mais
potente
em
a
caixa
de
ferramentas
de
prevenção
de
o
HIV
"
,
diz
o
comunicado
.
Em
entrevista
a
a
BBC
News
Brasil
,
o
antropólogo
Richard
Parker
,
diretor-presidente
de
a
Associação
Brasileira
Interdisciplinar
de
Aids
(
Abia
)
,
classifica
o
acordo
de
licenciamento
como
um
"
escândalo
"
.
"
Essa
decisão
demonstra
não
somente
a
desigualdade
que
continua
a
desequilibrar
o
campo
de
a
saúde
supostamente
global
que
vivemos
hoje
,
mas
também
é
mais
uma
demonstração
de
como
a
América
Latina
vem
sendo
quase
sistematicamente
marginalizada
dentro
de
este
sistema
"
,
protesta
o
especialista
,
que
também
é
professor
titular
emérito
de
Saúde
Pública
,
Ciências
Sócio-Médicas
e
Antropologia
em
a
Universidade
de
Columbia
,
em
os
Estados
Unidos
.
"
Esta
marginalização
é
especialmente
visível
em
o
caso
de
a
aids
,
tanto
em
o
Brasil
quanto
em
outras
partes
de
a
região
,
e
mostra
um
certo
desprezo
,
ou
por
o
menos
falta
de
respeito
,
com
que
os
principais
atores
de
o
Norte
Global
tratam
esta
região
"
,
complementa
ele
.
Barbosa
,
de
a
SBInfecto
,
concorda
que
a
prevenção
de
o
HIV
alcançou
"
uma
situação
de
ferramentas
muito
potentes
e
resultados
fantásticos
"
—
mas
confessa
uma
certa
frustração
com
as
discussões
sobre
acesso
.
"
Trata
se
de
uma
situação
paradoxal
.
Dispomos
de
as
ferramentas
,
mas
não
conseguimos
mudar
o
resultado
.
É
como
se
tivéssemos
um
ótimo
carro
de
Fórmula
1
,
garantíssemos
a
pole
position
,
mas
não
conseguíssemos
ganhar
o
grande
prêmio
em
o
final
"
,
compara
ele
.
Procurada
por
a
BBC
News
Brasil
para
comentar
o
assunto
,
a
Gilead
Sciences
não
enviou
respostas
até
a
publicação
de
esta
reportagem
.
Como
o
governo
vê
a
questão
Barreira
,
responsável
por
comandar
o
programa
de
aids
em
o
Ministério
de
a
Saúde
,
admite
que
o
lenacapavir
não
sai
de
a
pauta
desde
o
anúncio
de
os
resultados
de
os
estudos
em
o
meio
de
o
ano
.
"
Em
as
reuniões
que
fazemos
,
todo
mundo
cobra
e
quer
saber
a
nossa
posição
sobre
o
assunto
"
,
confessa
ele
.
"
O
laboratório
produtor
tem
preços
absolutamente
inviáveis
de
o
ponto
de
vista
de
a
saúde
pública
.
Esse
valor
pode
até
funcionar
para
quem
tem
um
seguro-saúde
premium
em
os
Estados
Unidos
e
em
outros
lugares
ricos
"
,
pontua
o
médico
.
Um
artigo
assinado
por
especialistas
de
a
Universidade
de
Liverpool
,
de
a
Universidade
de
Oxford
e
de
o
Hospital
Universitário
St.
George
,
em
o
Reino
Unido
,
de
o
Instituto
de
Medicina
Tropical
e
Saúde
Internacional
,
em
a
Alemanha
,
e
de
a
Universidade
Howard
,
em
os
EUA
,
estima
que
o
lenacapavir
chegue
a
custar
até
US$
44.819
por
pessoa
por
ano
.
"
Isso
afundaria
o
Sistema
Único
de
Saúde
(
SUS
)
"
,
acredita
Barreira
.
Em
a
mesma
pesquisa
,
os
autores
acreditam
que
seja
possível
derrubar
esse
preço
para
menos
de
US$
100
,
caso
exista
uma
compra
grande
de
insumos
farmacêuticos
e
uma
produção
massiva
de
doses
de
o
remédio
.
"
Ficaram
fora
de
a
lista
de
licenciamento
voluntário
países
com
alta
carga
de
HIV
,
como
é
o
caso
de
o
Brasil
.
Ninguém
licencia
nada
para
a
gente
,
porque
o
mercado
aqui
é
muito
grande
"
,
diz
Barreira
.
"
Além
de
isso
,
por
a
nossa
Constituição
,
a
saúde
é
um
direito
de
todos
e
um
dever
de
o
Estado
.
Os
fabricantes
sabem
de
isso
e
jogam
para
nós
comprarmos
por
o
preço
que
eles
quiserem
vender
"
,
complementa
ele
.
Segundo
Barreira
,
o
governo
está
em
uma
fase
de
discussões
preliminares
,
para
entender
qual
será
a
política
de
a
Gilead
Sciences
.
"
Até
porque
eles
não
anunciaram
oficialmente
o
preço
que
será
praticado
em
os
países
de
média
renda
,
como
o
nosso
"
,
pondera
o
especialista
.
"
Nós
precisamos
também
entender
quais
foram
os
critérios
,
e
por
que
o
Brasil
foi
excluído
tanto
de
o
ponto
de
vista
de
a
fabricação
de
as
versões
genéricas
quanto
de
o
acesso
por
um
baixo
custo
.
"
Uma
nova
quebra
de
patente
?
Em
2007
,
o
Brasil
fez
o
licenciamento
compulsório
de
o
efavirenz
,
uma
medicação
que
era
amplamente
usada
em
o
tratamento
de
a
aids
.
A
A
época
,
o
governo
fez
longas
negociações
com
o
laboratório
Merck
Sharp
&
Dohme
,
responsável
por
o
remédio
.
O
objetivo
era
reduzir
o
preço
cobrado
,
de
US$
1,59
a
unidade
.
"
Precisávamos
garantir
a
sustentabilidade
de
o
programa
de
aids
e
impedir
que
houvesse
um
colapso
em
o
fornecimento
de
as
terapias
"
,
lembra
a
a
BBC
News
Brasil
o
médico
sanitarista
José
Gomes
Temporão
,
ministro
de
a
Saúde
responsável
por
a
decisão
,
que
foi
tomada
durante
o
segundo
governo
Lula
(
PT
)
.
"
O
laboratório
estava
cobrando
um
preço
muito
superior
a
o
que
era
praticado
em
várias
outras
partes
de
o
mundo
.
Nós
tentamos
negociar
exaustivamente
,
mas
não
chegamos
a
um
acordo
.
A
saída
que
encontramos
foi
o
licenciamento
compulsório
"
,
complementa
ele
.
Para
Temporão
,
a
quebra
de
patentes
de
o
efavirenz
foi
"
a
melhor
decisão
possível
de
o
ponto
de
vista
de
a
saúde
pública
"
.
Em
um
primeiro
momento
,
o
Brasil
precisou
importar
a
medicação
genérica
de
a
Índia
(
que
a
a
época
custava
US$
0,44
a
unidade
)
.
"
Mas
fizemos
um
consórcio
com
três
empresas
farmoquímicas
nacionais
e
com
a
Farmanguinhos-FioCruz
.
Por
meio
de
a
engenharia
reversa
,
desenvolvemos
um
genérico
próprio
e
,
em
um
ano
,
tínhamos
autossuficiência
em
a
produção
.
Conseguimos
tratar
um
maior
número
de
pacientes
com
o
mesmo
orçamento
"
,
relata
Temporão
.
O
médico
sanitarista
diz
que
não
houve
nenhuma
contestação
judicial
a
a
quebra
de
patente
e
que
este
é
um
instrumento
previsto
em
tratados
de
a
Organização
Mundial
de
o
Comércio
,
usado
posteriormente
também
por
Estados
Unidos
,
Inglaterra
e
Itália
.
"
É
claro
que
o
licenciamento
compulsório
não
deve
ser
usado
em
todas
as
situações
,
mas
serve
para
garantir
a
defesa
de
os
pacientes
e
o
acesso
a
o
tratamento
em
um
contexto
de
equilíbrio
financeiro
"
,
diz
Temporão
.
Mas
será
que
o
mesmo
poderia
ocorrer
com
o
lenacapavir
,
em
um
cenário
hipotético
de
negociações
emperradas
e
preço
muito
alto
para
a
saúde
pública
?
Questionado
sobre
o
assunto
por
a
BBC
News
Brasil
,
Barreira
respondeu
que
"
não
está
autorizado
a
responder
por
a
ministra
"
de
a
Saúde
,
Nísia
Trindade
Lima
.
"
Mas
posso
dizer
que
temos
feito
essa
discussão
para
avaliar
até
onde
nós
podemos
ir
"
,
acrescenta
ele
.
"
Nós
temos
o
precedente
de
o
licenciamento
compulsório
de
o
efavirenz
.
A
A
época
,
a
discussão
era
sobre
um
custo
de
US$
1,59
.
Agora
,
estamos
falando
de
drogas
de
40
mil
dólares
por
ano
.
Trata
se
de
uma
outra
escala
"
,
compara
ele
.
"
Estamos
em
uma
fase
de
discussões
preliminares
,
mas
acredito
que
todas
as
medidas
que
garantam
acesso
a
a
população
precisam
ser
pensadas
.
Nossa
disposição
,
claro
,
é
ter
uma
negociação
e
chegar
a
um
acordo
.
"
"
O
efavirenz
foi
uma
exceção
em
a
História
,
nunca
tivemos
outro
episódio
de
licença
compulsória
.
"
"
Mas
nós
contamos
também
com
a
boa
vontade
de
a
indústria
farmacêutica
e
a
compreensão
de
que
o
SUS
tem
limites
e
precisamos
lidar
com
a
realidade
"
,
conclui
ele
.