Representação em texto

Lenacapavir: por que Brasil ficou de fora em distribuição da 'vacina' contra HIV

IDTEJ_0964
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2024/12/12/lenacapavir-por-que-brasil-ficou-de-fora-em-distribuicao-da-vacina-contra-aids.ghtml
TítuloLenacapavir: por que Brasil ficou de fora em distribuição da 'vacina' contra HIV
SubtítuloO lenacapavir é um remédio injetável tomado a cada seis meses como medida profilática contra o HIV. Atual preço do lenacapavir é 'inviável' para a saúde pública brasileira, conforme Draurio Barreira, do Ministério da Saúde.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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O lenacapavir , um remédio injetável tomado a cada seis meses como medida profilática contra o HIV , foi eleito o avanço científico de 2024 por a revista acadêmica Science .

Os resultados que avaliaram a estratégia , publicados em julho e setembro de este ano , mostraram uma taxa de eficácia que beira os 100 % e foram consideradas por entidades e especialistas um divisor de águas em a prevenção a o vírus causador de a aids .

Alguns pesquisadores consideram que a novidade é o mais próximo que chegamos de uma vacina contra essa infecção .

A medicação deve estar disponível a partir de 2026 , mas os debates sobre quem terá acesso a ela estão a todo vapor .

Isso porque a farmacêutica responsável por a inovação fez um acordo de licenciamento com seis laboratórios , para garantir a produção de uma versão genérica de baixo custo de o lenacapavir , que será distribuída para os 120 países mais pobres de o globo .

Em o entanto , nações consideradas de renda média como o Brasil e boa parcela de a América Latina , onde parte de os estudos clínicos de o fármaco foram realizados ficaram fora de essa lista .

Com isso , um temor de que os programas de saúde pública de esses países não terão condições financeiras de custear o lenacapavir para quem mais precisa .

Para ter ideia , pesquisadores ingleses , alemães e americanos estimam que as duas doses anuais custem , por paciente , algo entre US$ 25.395 e 44.918 ( a o redor de R$ 153 mil e 271 mil , em a cotação atual ) . Esse valor é considerado " inviável " por representantes de o Ministério de a Saúde . Mas , segundo o mesmo grupo internacional de especialistas , é possível reduzir esse preço para menos de US$ 100 ( R$ 600 ) por paciente por ano com compras de insumo em larga escala e produção em massa de as doses .

Entenda a seguir como está essa discussão e quais são os caminhos possíveis para ampliar o acesso a a futura ' vacina ' de a aids em o Brasil e em o mundo .

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O que é o lenacapavir

Para entender a importância de essa nova estratégia , é preciso conhecer os detalhes de a chamada Profilaxia Pré-Exposição ( Prep ) .

A partir de meados de 2010 , começaram a surgir os primeiros trabalhos e iniciativas de implementação de medidas biomédicas preventivas contra o HIV .

Basicamente , a ideia consiste em oferecer a pessoas não infectadas um remédio de forma profilática , justamente para impedir que o vírus invada o organismo .

Eles podem ser uma boa ideia para resguardar indivíduos de grupos considerados como populações-chave ( gays e outros homens que fazem sexo com homens ; pessoas trans ; pessoas que usam álcool e outras drogas ; pessoas privadas de liberdade e trabalhadores de o sexo ) e populações prioritárias ( adolescentes e jovens ; negros ; indígenas ; indivíduos em situação de rua ) .

A Prep disponível hoje , inclusive em o sistema público brasileiro , é feita a partir de comprimidos , que devem ser tomados todos os dias .

Ela tem uma alta taxa de eficácia , mas apresenta um problema importante : depende de a memória e de a iniciativa de o próprio indivíduo .

Se a pessoa se esquecer de tomar o remédio , ela fica sob risco de se infectar com o HIV ( caso não faça uso de outras medidas preventivas , como os preservativos , por exemplo ) .

Para lidar com essa fragilidade , os cientistas desenvolveram versões injetáveis e de longa duração de a Prep .

A primeira versão foi o cabotegravir , que precisa ser tomado de dois em dois meses ( e deve chegar em o Brasil a partir de o ano que vem ) .

Mas ele ainda apresenta algumas barreiras importantes , segundo especialistas ouvidos por a BBC News Brasil .

Essa Prep demanda uma injeção mais profunda em os glúteos , que pode ser um tanto incômoda ou até contraindicada para pessoas com próteses de silicone em essa parte de o corpo .

Em a sequência , veio o lenacapavir , que foi eleito a inovação científica de 2024 .

Como mencionado anteriormente , ele é aplicado uma vez a cada seis meses e por via subcutânea ( em as camadas mais superficiais de a pele ) .

O médico Alexandre Naime Barbosa , coordenador científico de a Sociedade Brasileira de Infectologia ( SBInfecto ) , explica que este fármaco inibe o capsídeo , proteína que forma uma de as estruturas de o HIV .

" Ele consegue atrapalhar o funcionamento de esse capsídeo , que é uma espécie de caixinha que envolve o material genético de o vírus " , diz o especialista , que também é professor de a Universidade Estadual Paulista ( Unesp ) .

" O lenacapavir não deixa que essa caixinha seja formada .

Com isso , o vírus não consegue infectar novos linfócitos T CD4 , que são as células-alvo de o HIV em o organismo " , complementa ele .

A o quebrar esse mecanismo , portanto , a infecção não acontece . De o vírus não consegue se replicar e " se esconder " em partes específicas de o corpo .

" O lenacapavir foi projetado para ter uma liberação lenta . Ele forma um depósito em o tecido gorduroso , geralmente em o abdômen , e o medicamento é disponibilizado para o organismo a os poucos , a o longo de seis meses " , explica Barbosa .

A eficácia de o lenacapavir O médico sanitarista e epidemiologista Draurio Barreira , diretor de o Departamento de HIV/Aids , Tuberculose , Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis de o Ministério de a Saúde , conta que participa de conferências sobre aids desde os anos 1990 .

" E dois de esses congressos foram muito marcantes pra mim .

O primeiro aconteceu em 1996 , em Vancouver , em o Canadá , quando surgiu o coquetel antirretroviral " , lembra ele .

" O segundo foi a Conferência Internacional sobre Aids de 2024 , realizada em julho em a cidade de Munique , em a Alemanha " , complementa o especialista . Em a edição de este ano , foram divulgados justamente os resultados de um de os estudos que avaliou o lenacapavir , desenvolvido por a farmacêutica Gilead Sciences .

Apelidada de Purpose-1 , essa pesquisa acompanhou 5.300 mulheres cisgênero ( que se identificam com o gênero designado a elas quando nasceram ) de 16 a 25 anos em a África de o Sul e em Uganda .

Parte de o grupo adotou a Prep convencional , por comprimidos , enquanto outra parcela tomou a versão injetável .

Entre as voluntárias que receberam o lenacapavir , nenhuma se infectou com o HIV . Essa eficácia , de 100 % , é algo bastante raro em estudos clínicos é a primeira vez que isso acontece em os testes relacionados a o vírus causador de a aids , por exemplo .

em o grupo de a Prep por comprimidos , 55 mulheres se infectaram com o HIV .

A diferença entre as estratégias foi tão significativa que o comitê independente responsável por monitorar a pesquisa recomendou que o trabalho fosse interrompido e todas as participantes passassem a receber o lenacapavir de ali em diante .

Poucos meses depois , em setembro , foram divulgados os resultados preliminares de o estudo Purpose-2 , que avaliou 3.267 voluntários .

Entre os participantes , foram selecionados homens cisgênero , homens transgênero , mulheres transgênero e indivíduos não binários com mais de 16 anos cujos parceiros sexuais foram classificados como de o sexo masculino em o momento que nasceram .

Essa pesquisa foi conduzida em Argentina , Brasil , México , Peru , África de o Sul , Tailândia e Estados Unidos .

Assim como aconteceu em o Purpose 1 , aqui os indivíduos foram divididos em grupos ( parte recebeu Prep oral ; parte tomou lenacapavir ) . Os dados revelaram uma redução de 96 % em o risco de adquirir HIV entre indivíduos que fizeram a Prep injetável .

Apenas dois voluntários que tomaram o lenacapavir se infectaram o que significa que 99,9 % de os participantes ficaram protegidos .

Esses números foram celebrados por especialistas e instituições .

Em texto publicado em julho , a Organização Mundial de a Saúde ( OMS ) deu as " boas-vindas , com satisfação " , a a notícia de que o lenacapavir é " altamente eficaz " .

" Isso representa um avanço significativo em a prevenção de o HIV " , afirmou a entidade .

O Programa Conjunto de as Nações Unidas sobre HIV/Aids ( Unaids ) classificou os resultados como um " desenvolvimento emocionante " , que " esperança para acelerar os esforços de acabar com a pandemia " .

a revista acadêmica Science deu a o lenacapavir o prêmio de avanço científico de o ano .

" A premiação também reconhece o trabalho relacionado a o tema , que permitiu um novo entendimento sobre a estrutura e a função de o capsídeo de o HIV " , diz a publicação .

" Apesar de décadas de avanços , o HIV continua a infectar mais de um milhão de pessoas por ano [ ... ]

Em o entanto , um novo medicamento injetável , o lenacapavir , oferece esperança a o fornecer seis meses de proteção por meio de uma injeção " , destaca um editorial de a Science .

Barreira esclarece que o lenacapavir não é exatamente uma vacina ele não estimula e " ensina " o sistema imunológico a evitar uma infecção , como fazem os imunizantes tradicionais .

Trata se de um remédio que , como explicado mais acima , atua em uma de as estruturas de o vírus para impedir a replicação de ele .

" Por outro lado , nosso próprio conceito de vacina vem se transformando , especialmente a partir de a pandemia de covid-19 " , raciocina ele . " Quando surge uma medida profilática , como a Prep injetável semestral , não estamos de fato diante de uma vacina , embora em termos práticos e programáticos sejam coisas similares . " Então nós podemos trabalhar em a perspectiva de ter uma ' vacina ' contra a aids , ainda que esse termo precise ser usado entre aspas " , opina Barreira . A expectativa é que o lenacapavir seja submetido a a avaliação de as agências regulatórias ( como Anvisa em o Brasil , FDA em os Estados Unidos e EMA em a Europa ) e esteja liberado para uso em larga escala a partir de 2026 .

Quem vai conseguir tomar ?

As mesmas análises que comemoraram a chegada de a Prep semestral também alertaram para o risco de desigualdade em o acesso a a medida preventiva .

Autoridades e instituições logo manifestaram preocupação sobre como garantir que as pessoas , especialmente as mais pobres e vulneráveis , recebam o lenacapavir .

A Unaids , por exemplo , destacou que a nova medicação " pode conferir esperança para o fim de a aids se todos tiverem acesso " a ela .

Para responder a esses anseios , a Gilead Sciences anunciou em outubro um acordo de licenciamento voluntário livre de royalties com seis outros laboratórios farmacêuticos .

Em a prática , esses fabricantes ( localizados em o Egito , em o Paquistão , em a Índia e em os Estados Unidos ) terão o direito de produzir versões genéricas de o lenacapavir , que serão vendidas a baixo custo para 120 países considerados de renda baixa ou média-baixa .

" Os acordos promovem a estratégia de a Gilead para permitir acesso amplo e sustentável a o lenacapavir para Prep globalmente , se for aprovado , e se alinham com a visão de a Gilead de acabar com a epidemia de HIV para todos , em todos os lugares " , afirmou o laboratório .

Em o entanto , países de renda média como o Brasil e boa parte de a América Latina ficaram de fora de esse acordo .

Isso significa , portanto , que essas nações precisarão negociar e comprar as doses diretamente com a farmacêutica que detém a patente .

Com o anúncio , especialistas e instituições lançaram novos protestos .

Um editorial de o periódico The Lancet HIV destacou que o licenciamento anunciado por a Gilead " não concretiza todas as oportunidades " com o lenacapavir .

o Escritório Regional de a Unaids para a América Latina e o Caribe destacou que o acordo feito por a farmacêutica " não é suficiente " porque " continua não incluindo milhões de pessoas vulneráveis e mais expostas a o risco " .

O texto divulgado por a entidade destaca a exclusão de muitos países de renda média , dez de eles em a América Latina : Argentina , Brasil , Colômbia , Costa Rica , Equador , El Salvador , Guatemala , México , Paraguai e Peru .

" Entre as 2.184 pessoas participantes que foram aleatoriamente designadas para receber lenacapavir subcutâneo a cada seis meses como parte de os ensaios estavam gays , bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens , mulheres e homens trans , e pessoas não binárias de Argentina , Brasil , México e Peru " , diz a Unaids .

" Além de isso , em a última década , embora as infecções por HIV tenham diminuído globalmente , em a América Latina houve um aumento de 9 % , com populações-chave e mais vulneráveis sendo desproporcionalmente afetadas " , argumenta o texto .

A entidade pede que a " Gilead Sciences e outras partes interessadas " iniciem negociações " para a redução de os preços de essa ferramenta fundamental de prevenção " .

a Sociedade Internacional de Aids afirmou que o licenciamento voluntário é " um importante passo a a frente , mas grandes partes de o mundo continuam excluídas , incluindo países onde os ensaios foram conduzidos " .

" Estamos esperançosos de que a velocidade com que esses acordos foram alcançados será mantida , e que o resto de o mundo em breve se beneficiará de acordos semelhantes para tornar o lenacapavir mais acessível e oferecer uma opção mais potente em a caixa de ferramentas de prevenção de o HIV " , diz o comunicado .

Em entrevista a a BBC News Brasil , o antropólogo Richard Parker , diretor-presidente de a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids ( Abia ) , classifica o acordo de licenciamento como um " escândalo " .

" Essa decisão demonstra não somente a desigualdade que continua a desequilibrar o campo de a saúde supostamente global que vivemos hoje , mas também é mais uma demonstração de como a América Latina vem sendo quase sistematicamente marginalizada dentro de este sistema " , protesta o especialista , que também é professor titular emérito de Saúde Pública , Ciências Sócio-Médicas e Antropologia em a Universidade de Columbia , em os Estados Unidos . " Esta marginalização é especialmente visível em o caso de a aids , tanto em o Brasil quanto em outras partes de a região , e mostra um certo desprezo , ou por o menos falta de respeito , com que os principais atores de o Norte Global tratam esta região " , complementa ele .

Barbosa , de a SBInfecto , concorda que a prevenção de o HIV alcançou " uma situação de ferramentas muito potentes e resultados fantásticos " mas confessa uma certa frustração com as discussões sobre acesso .

" Trata se de uma situação paradoxal .

Dispomos de as ferramentas , mas não conseguimos mudar o resultado .

É como se tivéssemos um ótimo carro de Fórmula 1 , garantíssemos a pole position , mas não conseguíssemos ganhar o grande prêmio em o final " , compara ele .

Procurada por a BBC News Brasil para comentar o assunto , a Gilead Sciences não enviou respostas até a publicação de esta reportagem .

Como o governo a questão

Barreira , responsável por comandar o programa de aids em o Ministério de a Saúde , admite que o lenacapavir não sai de a pauta desde o anúncio de os resultados de os estudos em o meio de o ano .

" Em as reuniões que fazemos , todo mundo cobra e quer saber a nossa posição sobre o assunto " , confessa ele .

" O laboratório produtor tem preços absolutamente inviáveis de o ponto de vista de a saúde pública . Esse valor pode até funcionar para quem tem um seguro-saúde premium em os Estados Unidos e em outros lugares ricos " , pontua o médico . Um artigo assinado por especialistas de a Universidade de Liverpool , de a Universidade de Oxford e de o Hospital Universitário St. George , em o Reino Unido , de o Instituto de Medicina Tropical e Saúde Internacional , em a Alemanha , e de a Universidade Howard , em os EUA , estima que o lenacapavir chegue a custar até US$ 44.819 por pessoa por ano .

" Isso afundaria o Sistema Único de Saúde ( SUS ) " , acredita Barreira .

Em a mesma pesquisa , os autores acreditam que seja possível derrubar esse preço para menos de US$ 100 , caso exista uma compra grande de insumos farmacêuticos e uma produção massiva de doses de o remédio .

" Ficaram fora de a lista de licenciamento voluntário países com alta carga de HIV , como é o caso de o Brasil .

Ninguém licencia nada para a gente , porque o mercado aqui é muito grande " , diz Barreira .

" Além de isso , por a nossa Constituição , a saúde é um direito de todos e um dever de o Estado . Os fabricantes sabem de isso e jogam para nós comprarmos por o preço que eles quiserem vender " , complementa ele .

Segundo Barreira , o governo está em uma fase de discussões preliminares , para entender qual será a política de a Gilead Sciences . " Até porque eles não anunciaram oficialmente o preço que será praticado em os países de média renda , como o nosso " , pondera o especialista . " Nós precisamos também entender quais foram os critérios , e por que o Brasil foi excluído tanto de o ponto de vista de a fabricação de as versões genéricas quanto de o acesso por um baixo custo . "

Uma nova quebra de patente ?

Em 2007 , o Brasil fez o licenciamento compulsório de o efavirenz , uma medicação que era amplamente usada em o tratamento de a aids .

A A época , o governo fez longas negociações com o laboratório Merck Sharp & Dohme , responsável por o remédio . O objetivo era reduzir o preço cobrado , de US$ 1,59 a unidade .

" Precisávamos garantir a sustentabilidade de o programa de aids e impedir que houvesse um colapso em o fornecimento de as terapias " , lembra a a BBC News Brasil o médico sanitarista José Gomes Temporão , ministro de a Saúde responsável por a decisão , que foi tomada durante o segundo governo Lula ( PT ) . " O laboratório estava cobrando um preço muito superior a o que era praticado em várias outras partes de o mundo .

Nós tentamos negociar exaustivamente , mas não chegamos a um acordo .

A saída que encontramos foi o licenciamento compulsório " , complementa ele .

Para Temporão , a quebra de patentes de o efavirenz foi " a melhor decisão possível de o ponto de vista de a saúde pública " .

Em um primeiro momento , o Brasil precisou importar a medicação genérica de a Índia ( que a a época custava US$ 0,44 a unidade ) .

" Mas fizemos um consórcio com três empresas farmoquímicas nacionais e com a Farmanguinhos-FioCruz .

Por meio de a engenharia reversa , desenvolvemos um genérico próprio e , em um ano , tínhamos autossuficiência em a produção . Conseguimos tratar um maior número de pacientes com o mesmo orçamento " , relata Temporão .

O médico sanitarista diz que não houve nenhuma contestação judicial a a quebra de patente e que este é um instrumento previsto em tratados de a Organização Mundial de o Comércio , usado posteriormente também por Estados Unidos , Inglaterra e Itália .

" É claro que o licenciamento compulsório não deve ser usado em todas as situações , mas serve para garantir a defesa de os pacientes e o acesso a o tratamento em um contexto de equilíbrio financeiro " , diz Temporão . Mas será que o mesmo poderia ocorrer com o lenacapavir , em um cenário hipotético de negociações emperradas e preço muito alto para a saúde pública ? Questionado sobre o assunto por a BBC News Brasil , Barreira respondeu que " não está autorizado a responder por a ministra " de a Saúde , Nísia Trindade Lima .

" Mas posso dizer que temos feito essa discussão para avaliar até onde nós podemos ir " , acrescenta ele .

" Nós temos o precedente de o licenciamento compulsório de o efavirenz .

A A época , a discussão era sobre um custo de US$ 1,59 . Agora , estamos falando de drogas de 40 mil dólares por ano . Trata se de uma outra escala " , compara ele .

" Estamos em uma fase de discussões preliminares , mas acredito que todas as medidas que garantam acesso a a população precisam ser pensadas .

Nossa disposição , claro , é ter uma negociação e chegar a um acordo .

"

" O efavirenz foi uma exceção em a História , nunca tivemos outro episódio de licença compulsória .

"

" Mas nós contamos também com a boa vontade de a indústria farmacêutica e a compreensão de que o SUS tem limites e precisamos lidar com a realidade " , conclui ele .


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