Representação em texto

Nosso cérebro pode ser ‘hackeado’ e fazer com que as drogas assumam o controle?

IDTEJ_0953
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2024/12/10/entenda-se-nosso-cerebro-pode-ser-hackeado-e-fazer-com-que-as-drogas-assumam-o-controle.ghtml
TítuloNosso cérebro pode ser ‘hackeado’ e fazer com que as drogas assumam o controle?
SubtítuloNeste artigo, pesquisadores da Universidade de Valência discutem sobre o efeito de determinadas substâncias no corpo e como elas afetam a química do cérebro.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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As drogas fazem parte de a nossa sociedade , em todas as suas formas e aplicações . De o tabaco a o álcool , passando por os opiáceos , sempre estiveram em a moda . Constantemente , vemos em a mídia notícias relacionadas a a crise de o fentanil , a a legalização de a cannabis e a os supostos efeitos antioxidantes de o consumo de vinho ( que , hoje , tem sido negado por a ciência ) .

Mas qual é a base química que torna essas substâncias tão populares - e perigosas ?

Um hábito antigo

A história de o uso de drogas é quase tão antiga quanto a de a Humanidade . em a Antiguidade , inúmeras drogas , como o ópio , espalharam se amplamente por as civilizações de a Bacia de o Mediterrâneo , sendo aplicadas principalmente com fins medicinais . Apesar de o alerta de pensadores como o grego Diágoras de Melos ( século V a.C. ) - É melhor sofrer dores de o que ficar dependente de o ópio - , a aplicação recreativa não demorou a chegar . Outro exemplo de droga popular desde a Antiguidade é o álcool . Persas , gregos , chineses , egípcios , maias , romanos

Em todos os cantos de o mundo , a produção e o consumo de bebidas alcoólicas faziam parte de a vida social , espiritual e cultural de cada civilização . Hoje , a situação permanece : o consumo moderado de álcool em a cultura ocidental é normalizado , legalizado e estendido a grande parte de a população .

A as vezes , filmes , televisão e música até glorificam sua ingestão , enfatizando seus efeitos eufóricos . Qual é o segredo de essas substâncias ?

Como é possível que afetem a química de o nosso cérebro a ponto de influenciar o futuro de as civilizações ? A resposta está em um conjunto de áreas interconectadas de nosso cérebro conhecido como sistema mesocorticolímbico ( de recompensa , euforia ) .

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Minha dopamina está pregando peças em mim ?

Para em os informar que um estímulo é benéfico para a sobrevivência , nosso cérebro se certifica de que gostamos de ele .

Exemplo de isso são as sensações de prazer que experimentamos em uma refeição calórica , em interações sociais e em o sexo . Acompanhando essa sensação , nosso cérebro também sinaliza estímulos e em os faz aprender que gostamos de ela : assim , temos mais chances de repetir aquela atividade positiva .

Em a verdade , graças a este sistema também teremos uma grande motivação , necessária para movimentar o nosso corpo e , assim , obter os estímulos citados acima . Os comportamentos reforçados são sempre importantes para a sobrevivência ?

A resposta é não . O sistema de recompensa mesocorticolímbico pode ser hackeado .

Em nível celular , as duas regiões mais relevantes de esse sistema são a área tegmental ventral ( grupamento de neurônios ) e o núcleo accumbens ( região de o cérebro relacionada a recompensa ) .

Os neurônios de a primeira região se conectam com os de a segunda e enviam uma molécula neurotransmissora chamada dopamina . Isso desempenha um papel essencial em a recompensa : quando o nível de dopamina liberado aumenta , uma série de processos é iniciada . O resultado final é que aprendemos que o estímulo é importante para a sobrevivência e ficamos mais motivados a procurá lo novamente em o futuro .

Proteínas em a superfície celular , chamadas receptores opioides , são responsáveis por isso .

É aqui que entram em jogo as drogas e a invasão de sistemas : esses tipos de receptores podem ser ativados tanto por estímulos naturais quanto por drogas . A o fazer isso , a liberação de dopamina é aumentada . O resultado é que nosso cérebro gosta de essas drogas , aprende que são estímulos importantes e em os motiva a obtê las novamente .

Mesmo que elas não ofereçam nenhum benefício de sobrevivência . Isso explica parcialmente os efeitos de euforia e reforço de o uso agudo de essas substâncias .

Em o entanto , é também a base de o seu lado mais sombrio : o vício , a dependência . O que acontece quando a utilização de drogas se torna crônica ? A linha tênue entre euforia e dor

Embora o uso moderado de drogas seja normalizado e até celebrado em contextos sociais , pode desencadear problemas graves .

A prática prolongada de consumo de álcool e outras substâncias não afeta as nossas percepções e comportamentos como , também , deixa a sua marca em o nosso cérebro de uma forma que pode ser difícil de reverter . Lembremos que nosso sistema mesocorticolímbico é um sistema de recompensa , projetado para em os fazer sentir bem quando realizamos ações benéficas .

Porém , o consumo repetido de essas substâncias pode fazer com que seu funcionamento se altere e o que antes produzia prazer não o faça mais em a mesma medida . Estas alterações em as capacidades de reforço de o álcool e de os opiáceos devem se , entre outras coisas , a a redução de a liberação de dopamina .

Mas o que é responsável por essas alterações ? Assim como existem receptores opioides que provocam aumento em a liberação de dopamina e são responsáveis por o reforço positivo ( receptor opioide Mu ) , existem outros que atuam de forma oposta ( receptor opioide Kappa ) .

Ou seja , sua atividade diminui a liberação de o neurotransmissor e origem a efeitos opostos : disforia ( sensação de desconforto , depressão , ansiedade etc ) , aversão e perda de motivação . Durante o consumo repetitivo de substâncias como álcool e opioides , ocorrem mudanças em a expressão de esses receptores .

Enquanto os receptores Mu tornam se cada vez menos ativos , os receptores Kappa tornam se cada vez mais ativos .

A diminuição de a capacidade de as drogas de gerar sensações de prazer faz com que elas se tornem menos gratificantes com o tempo . Este fato , aliado a os estados disfóricos que se manifestam em a ausência de a substância , levam a escaladas em o consumo com o objetivo de autotratar o desconforto .

Este mecanismo é tão importante em o vício que até foi criado um novo termo para ele : hiperkatifeia , de o grego katifeia , que significa desânimo ou estado emocional negativo . Curiosamente , essas alterações em os receptores opioides são semelhantes a as que ocorrem em situações de dor crônica e podem desencadear estados negativos como desmotivação , ansiedade e depressão .

O resultado final é que o uso continuado de certas substâncias pode ter graves consequências físicas , mentais e sociais , e alterar a forma como o nosso cérebro sente prazer e dor . Não é de se admirar que o vício em drogas leve pessoas a atingir o fundo de o poço . Embora disfarçadas de aliadas para enfrentar os problemas , acabam se tornando o maior de eles .

* María Ros Ramírez de Arellano é doutoranda em Neurociência em a Universidade de Valência .

* Lucía Hipólito Cubedo é professora em a área de Farmácia e Tecnologia Farmacêutica em a Universidade de Valência .

* Víctor Ferrís Vilar é doutorando em Neurociência em a Universidade de Valência .

* * Este texto foi publicado originalmente em o site de a The Conversation Brasil .

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