Representação em texto

Com alta do dólar, inflação de remédios faz paciente ter de escolher qual doença tratar

IDTEJ_0535
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/economia/noticia/2021/12/30/com-alta-do-dolar-inflacao-de-remedios-faz-paciente-ter-de-escolher-qual-doenca-tratar.ghtml
TítuloCom alta do dólar, inflação de remédios faz paciente ter de escolher qual doença tratar
SubtítuloAlta do preço dos medicamentos prejudica ainda mais o orçamento das famílias e faz algumas terem de abandonar tratamentos de saúde.
Ano2021
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEconomia
PropósitoNoticiar

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um ano , a cuidadora de idosos Maria Lucia Silva , de 58 anos , usa o medicamento Arava para tratamento de sua artrite reumatoide . Sem o remédio , ela sente dores fortíssimas em as articulações , incluindo as de as mãos e de os pés .

" As juntas de as mãos ficam muito inchadas , eu não com si fazer nada " , conta ela a a BBC News Brasil .

Embora a artrite reumatoide não tenha cura , o tratamento feito por Maria Lucia com o Arava retarda a evolução de a doença , que pode levar a a erosão de os ossos .

O problema é que o remédio está custando R$ 582 e está em falta em a farmácia de alto custo de o SUS ( Sistema Único de Saúde ) , onde ela costumava retirar o medicamento .

" Faz dois meses que eu tento agendar para ir buscar o remédio e não com si , o aplicativo diz que está em falta " , conta ela , que está sentindo os efeitos de a falta de tratamento .

" Minhas juntas estão doendo e minha mão está começando a inchar . Não sei o que vou fazer se continuar sem o remédio . Estou pensando em fazer uma vaquinha para ver se com si comprar.

"

Consultada por a BBC News Brasil , a Secretaria de Estado de a Saúde de São Paulo disse que o medicamento Leflunomida é de responsabilidade de aquisição e distribuição por o Ministério de a Saúde . " A entrega ocorreu com atraso e a distribuição para as farmácias deve ser concluída em a primeira semana de janeiro .

A paciente será comunicada sobre a disponibilidade " , disse a entidade em nota .

Maria Lucia mora com marido e dois filhos em o bairro de Santa Cecília , em São Paulo , e atualmente não está trabalhando .

" A gente tem a renda de o meu marido , e com o aumento de o preço de tudo , não temos condições de gastar 500 reais em remédio " , diz ela .

Sua família também tem tido que comprar medicamentos que seu marido normalmente retirava em o SUS por causa de instabilidade em o sistema de a farmácia popular . " Ele não estava conseguindo pegar e tivemos que comprar .

Deu porque os de ele são mais baratos , mas é difícil , porque também aumentou o preço " , diz Maria Lucia.

2021 :

Ano de juros , inflação e dólar altos e de manobra em o teto de gastos

Insumos importados

O aumento em o preço de medicamentos e a falta de muitos de eles em o mercado têm afetado famílias como a de Maria Lucia desde o início de a pandemia , mas a Covid-19 não é o único motivo . " Os preços de os medicamentos vão acompanhando a variação de a inflação e , principalmente , seguem a tendência de alta de o dólar " , explica Silvia Okabayashi , coordenadora de economia de a Universidade Metodista de São Paulo .

" Os remédios que não são importados usam insumos importados .

Temos uma dependência internacional de 90 % de insumos , ou seja , 90 % de a matéria-prima usada para produção de medicamentos em o Brasil é importada . "

Em os últimos doze meses ( entre novembro de 2020 e novembro de 2021 ) , o IPCA ( índice oficial de inflação de produtos e serviços ) teve um aumento acumulado de 10,74 % , segundo o IBGE ( Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ) .

Embora o reajuste anual de medicamentos seja regulado por a Anvisa com base em uma tabela de preços máximos a o consumidor , a Tabela CMED , essas pressões inflacionárias podem levar o aumento de o preço de os remédios a ultrapassar esse teto de variação , explica Okabayashi .

Além de isso , é comum as farmácias oferecerem descontos em relação a esse valor máximo permitido - descontos que tendem a diminuir com o aumento de a inflação .

O aumento de preços de os remédios para hospitais e clínicas também foi considerável , embora não tão alto quanto os preços para o consumidor final .

O Índice de Preços de Medicamentos para Hospitais ( IPM-H ) , produzido por a Fipe ( Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas ) e por a Bionexo , teve aumento de 7,21 % em o acumulado de 12 meses ( até novembro de 2021 ) .

Em esse cenário de aumentos , explica Okabayashi , são sempre as famílias de baixa renda que mais sofrem .

" Proporcionalmente elas são mais afetadas por esse processo inflacionário , porque os valores impactam mais em o seu orçamento , e elas têm um poder de compra reduzido " , afirma .

Mesmo quem não sofre com doenças crônicas têm sentido esse impacto .

Grávida e acometida por uma infecção urinária , a jovem carioca Ane Caroline Correia de a Silva , de 24 anos , procurou a maternidade Maria Amélia , em o Rio de Janeiro , e recebeu a recomendação de usar um antibiótico caro que não é fornecido por o SUS . Desempregada e sem condição de comprar o remédio , a jovem voltou para casa em o Riachuelo , em a zona norte de o Rio , e não conseguiu fazer o tratamento .

Sua infecção acabou se agravando .

Ela voltou uma segunda vez para a maternidade , e agora sua família está tentando que ela seja internada para receber o antibiótico em o próprio hospital .

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Inflação sem aumento de renda

Em junho de 2020 , quando percebeu que o isolamento social estava afetando sua saúde mental , a paulista Gabriela Calixto , de 31 anos , procurou um psiquiatra e começou a tomar dois remédios antidepressivos . Isso adicionou mais R$ 300 reais a os seus gastos com medicamentos - ela tomava um remédio para controle de glicemia e perda de peso que custava mais de R$ 900 . Em 2021 , todos os remédios que ela tomava tiveram um grande aumento em o preço . " Com desconto , o Ozempic ( para controle de glicemia ) saía mais barato para mim .

Mas agora o preço de ele subiu para mais de R$ 1.000 e mesmo com desconto não sai por menos de R$ 870 " , conta ela .

Com seus gastos com contas , mercado e aluguel também subindo consideravelmente , Gabriela teve que parar de tomar o remédio para diabetes . " Minha médica substituiu por outros dois que até tratam o mesmo problema , mas têm outros efeitos colaterais e não são o ideal para o meu caso " , diz ela .

" Tive que escolher entre ( os remédios para ) minha saúde mental e cuidar de a diabetes .

"

" Enquanto isso minha renda continua a mesma " , diz a jovem , que trabalha como Pessoa Jurídica e não recebeu aumento nem para repor a inflação . Okabayashi diz que é difícil calcular quanto tempo essa situação vai durar .

" Se a cotação de o dólar diminuir , até existe a possibilidade de os preços de os remédios não aumentarem tanto , mesmo que ainda haja um processo inflacionário .


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