Representação em texto

Disparada do dólar é sinal que Lula perdeu a mão na economia?

IDTEJ_0383
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/economia/noticia/2024/12/27/disparada-do-dolar-e-sinal-que-lula-perdeu-a-mao-na-economia.ghtml
TítuloDisparada do dólar é sinal que Lula perdeu a mão na economia?
SubtítuloAnalistas veem erro do governo no cronograma escolhido para ajuste fiscal e avaliam como cenário pode impactar corrida eleitoral de 2026
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEconomia
PropósitoNoticiar

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Os patamares recordes alcançados por o dólar em dezembro , chegando a vater mais de R$ 6,30 , trouxeram um clima amargo para o fechamento de a primeira metade de o governo de Luiz Inácio Lula de a Silva .

A forte desvalorização de o real acabou ofuscando bons resultados de 2024 , como o crescimento econômico acima de o esperado , a baixa taxa de desemprego e a aprovação de a regulamentação de a reforme tributária .

Por outro lado , a disparada de a moeda americana jogou mais luz sobre a crise fiscal : a dificuldade de o governo em equilibrar as contas públicas e controlar seu endividamento , fatores que tendem a alimentar a inflação e manter os juros altos em o país .

Segundo analistas ouvidos por a BBC News Brasil , os fundamentos econômicos de o país não apontam para um dólar acima de R$ 6 .

Para eles , o enfraquecimento de a moeda brasileira reflete a saída de investidores de o Brasil devido a o aumento de a percepção de risco sobre a capacidade de o governo de honrar suas dívidas em o futuro .

Segundo projeções de o mercado financeiros colhidas semanalmente por o Banco Central , a previsão é que a dívida líquida de o setor público suba de cerca de 63 % de o PIB em este ano para 74 % de o PIB em 2027 .

O novo cenário tem sido fortemente explorado por a oposição .

" Dólar fecha o dia em cotação de valor recorde de R$ 6,26 . A política econômica de Lula 3 segue os passos de o governo Dilma . Vão quebrar o país . Precisamos agir " , escreveu em suas redes sociais a senadora Damares Alves ( Republicanos/DF ) , em a semana passada .

Os economistas entrevistados reconhecem que o desafio fiscal é complexo e anterior a a atual gestão , mas dizem que Lula tomou decisões erradas em a administração de as contas públicas que deixam o governo em situação desconfortável para os dois próximos anos .

Para Nelson Marconi , professor de a Escola de Administração de Empresas de São Paulo de a Fundação Getulio Vargas ( FGV Eaesp ) , um de os erros foi deixar de realizar o ajuste fiscal em o início de o governo , para colher depois os efeitos positivos de as contas equilibradas , como feito em a primeira gestão Lula ( 2003 a 2006 ) .

A o invés de isso , ressalta , foi apresentado apenas agora um pacote de corte de gastos , que acabou repercutindo mal devido a o anúncio simultâneo de o aumento de a isenção de Imposto de Renda para ganhos mensais de até R$ 5 mil .

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" Fizeram um anúncio completamente errado de esse pacote fiscal . Estava todo mundo esperando um pacote de contenção de gastos e o governo vem anunciar uma isenção de impostos " , reforça .

Em a visão de Claudia Moreno , economista de o C6 Bank , o cenário ficou mais difícil para o governo porque a demora em adotar medidas de contenção de gastos aumentou o custo de um ajuste fiscal agora , após a disparada de o dólar .

" O câmbio em esse patamar mais alto atrapalha o trabalho de o Banco Central [ de conter a inflação ] e vai demandar juros mais altos " , afirma .

" Com isso , você também tem uma dinâmica de a dívida pior [ pois juros mais altos impactam em a correção de a dívida ] . Então , querendo ou não , o ajuste fiscal necessário acaba sendo maior de o que era antes , em um patamar de juros mais baixo " , ressalta .

Para o cientista político Creomar de Souza , fundador de a consultoria política Dharma , o governo Lula perdeu tempo a o não implementar mais cedo um ajuste em as contas públicas e talvez agora esteja tarde para reverter isso .

" O cenário hoje me parece muito complexo . De o ponto de vista político , 2025 era a hora de pôr o em o freio e fazer um exercício muito robusto de contenção , para que , em o fim de 2025 , o governo tivesse um arranjo em que pudesse fazer um exercício muito robusto de expansão em 2026 " , afirma .

" Vamos lembrar que Bolsonaro jogou um caminhão de dinheiro em o último ano de governo . Mas , de o jeito que a coisa vai , talvez o governo Lula não tenha essa possibilidade " , compara .

O " caminhão de dinheiro " citado por Souza foi a chamada PEC de as bondades , uma alteração de a Constituição aprovada por o Congresso que permitiu a o governo de Jair Bolsonaro elevar as despesas em 2022 em R$ 41 bilhões com benefícios sociais , driblando restrições eleitorais . Em agosto de esse ano , o Supremo Tribunal Federal considerou essa PEC inconstitucional .

" Talvez o Lula não consiga expandir os gastos em 2026 porque tem tanto mau humor [ de alguns setores com o governo ] , tanta irritabilidade , que em parte é derivada de esse processo de polarização que a gente vive , mas tem também o fato de que o governo motivo . E esse parece ser um elemento chave pra gente entender esse fim de ano " , analisa Souza .

Como Lula iniciou governo ampliando gastos

Após Bolsonaro encerrar seu governo com a PEC de as Bondades , Lula começou o seu com a PEC de a Transição , que permitiu subir as despesas acima de o antigo teto de gastos em R$ 145 bilhões , com objetivo de ampliar o valor de o Bolsa Família e retomar políticas públicas que tiveram despesas contidas em a gestão anterior , como o programa Farmácia Popular .

Além de isso , a PEC deu espaço para Lula retomar a política de correção de o salário mínimo acima de a inflação , após anos de reajuste real zero .

O ganho real de o mínimo é considerado fundamental por a gestão petista para melhorar a renda de os mais pobres . A medida , porém , tem forte impacto em as contas públicas , que despesas relevantes como aposentadorias de o INSS e o Benefício de Prestação Continuada ( BPC ) são atrelados a o mínimo .

Para Claudia Moreno , de o C6 Bank , esse foi um de os erros de o governo que contribuíram para a perda de confiança em a política fiscal em esses dois primeiros anos .

Uma de as medidas de o novo pacote fiscal de a Fazenda foi justamente conter o reajuste de o mínimo .

Segundo as novas regras aprovadas em o Congresso , ele vai continuar sendo reajustado acima de a inflação , mas o ganho real não poderá mais passar de 2,5 % , que é o limite geral para aumento de despesas estabelecido por o Arcabouço Fiscal ( regra que substituiu o Teto de Gastos , adotado em o governo Michel Temer ) .

A mudança foi avaliada positiva por economistas preocupados com o equilíbrio de as contas públicas , mas , ainda assim , foi considerada insuficiente .

Samuel Pessôa , pesquisador de o Ibre-FGV ( Instituto Brasileiro de Economia de a Fundação Getulio Vargas ) , ressalta que despesas atreladas a o mínimo não crescem apenas por o reajuste de o seu valor , mas também por o aumento de o número de benefícios , devido a o envelhecimento de a população .

Por isso , mesmo com o teto de 2,5 % de ganho real , essas despesas vão continuar subindo mais rapidamente que outros gastos , pressionando o endividamento público .

Os argumentos de Fernando Haddad

Os economistas entrevistados concordam que uma medida importante para equilibrar as contas públicas é rever os benefícios tributários ( descontos de impostos para alguns setores ) , algo que vem sendo defendido por o ministro de a Fazenda , Fernando Haddad , mas enfrenta resistências em o Congresso Nacional .

Segundo estimativa de a Receita Federal , essa renúncia fiscal vai somar R$ 544 bilhões , em 2025 , o equivalente a 4,4 % de o Produto Interno Bruto e cerca de um quinto de as receitas administradas por a Receita .

Em a sexta-feira 20/12 , em café de a manhã com jornalistas , Haddad afirmou que a União fecharia 2024 com saldo positivo em as contas se o Congresso tivesse aprovado a proposta de o governo de rever alguns de esses benefícios , evitando uma perda de R$ 45 bilhões em arrecadação .

De esse total , cerca de R$ 20 bilhões correspondem a a desoneração de a folha de pagamentos para alguns setores econômicos , outros R$ 15 bilhões vêm de o Programa Emergencial de Retomada de o Setor de Eventos ( Perse ) e mais R$ 10 bilhões de a redução de a contribuição a a Previdência Social por pequenos municípios .

" Temos de olhar para o gasto tributário . São benefícios indevidos , espúrios , muitas vezes . Por que se tanto valor a a correção de o gasto primário e não a a correção de o gasto tributário ? " , questionou o ministro em a conversa com a imprensa . A o defender a política fiscal de o governo , Haddad também argumentou que parte de a alta de os gastos em a gestão Lula foram medidas para corrigir " maquiagem contábil " de o governo anterior , como o adiamento em o pagamento de precatórios ( dívidas de a União reconhecidas em a Justiça ) e a compensação a Estados por as perdas de a redução de o ICMS sobre combustíveis em 2022 .

" O superávit de 2022 [ último ano de o governo Bolsonaro ] não foi consistente .

Foi fake [ falso ] , fruto de calote , de privatizações açodadas , de dividendos extraordinários , de maquiagem contábil " , criticou . Questionado sobre a necessidade de mais medidas para conter as despesas em 2025 , o ministro afirmou que a revisão de gastos será uma constante em o governo , mas não detalhou o que está em o radar para o próximo ano .

Haddad também não quis falar em uma meta para o dólar , mas disse que cabe a o Banco Central atuar para evitar disfuncionalidades .

A autoridade monetária injetou quase US$ 17 bilhões em o mercado a a vista , em um intervalo de dez dias em dezembro , para tentar conter a disparada de a moeda . O ministro reconheceu que a moeda americana tem ganhado força em o mundo , mas teve valorização mais intensa em o Brasil , refletindo fatores domésticos .

" Temos de corrigir essa ' escorregada ' de o dólar aqui .

Não em o sentido de buscar um nível de dólar , de mirar uma meta . O nível que o BC deveria atuar é buscar o equilíbrio " , disse ainda . Os analistas ouvidos por a BBC News Brasil avaliam que a crise fiscal de hoje não reflete apenas decisões de o governo atual e apontam também a responsabilidade de os outros Poderes .

O Judiciário tem sido cobrado a reduzir os supersalários , com valores acima de o teto de o funcionalismo público ( R$ 44 mil ) , mas as categorias resistem a mudanças .

E o Congresso Nacional , pressionado por lobbies setoriais , resiste em cortar benefícios tributários , a o mesmo tempo que atua para ampliar cada vez mais o valor de as emendas parlamentares ( recursos que deputados e senadores podem direcionar para obras e programas em seus redutos eleitorais ) .

" Para o Congresso , o problema [ fiscal ] nem existe porque o problema de o Congresso está resolvido .

E qual é o problema de o Congresso ? É ter fundo partidário , fundo eleitoral e emenda orçamentária " , afirma Creomar de Souza . " um desarranjo institucional que vai criando uma conjuntura que é muito desfavorável a o governo Lula " , acrescenta .

Os impactos para 2026

Apesar de apontar um cenário difícil para o governo , Souza diz que isso ainda não " altera o prognóstico de reeleição , porque o Lula é um fenômeno diferente em o governo Lula " .

Para Marconi , o que será mais importante para a força eleitoral de Lula são as taxas de desemprego e inflação .

Suas chances de reeleição , ressalta , vão depender de como a alta de o dólar e de os juros vão impactar esses dois fatores que impactam mais diretamente a vida de as pessoas . Em o momento , o Banco Central está elevando fortemente a taxa básica de juros ( Selic ) , para trazer a inflação , hoje acumulada em 4,87 % , para dentro de a meta atualmente em 3 % a o ano , com intervalo de tolerância até 4,5 % .

A Selic chegou a 12,25 % em o início de dezembro , e deve chegar até 14,25 % em março , segundo sinalização de o Banco Central .

Para Marconi , a meta atual de inflação está muito baixa e acaba obrigando o BC a subir demais os juros .

Ele ressalta que isso é um problema também para a política fiscal , que parte de a dívida pública está atrelada a a Selic . " O governo tem uma meta de inflação inexequível .

O BC pratica juros altos para tentar alcançar essa meta e isso inibe a atividade econômica . De o outro lado , o governo gasta mais para tentar compensar isso . Então , fica uma política absolutamente contraditória " , critica . " E esse aumento de os gastos públicos pressiona a dívida .

E o próprio aumento de os juros também pressiona o gasto com juros de a dívida . O mercado financeiro olha para isso e pensa , ' bom , a dívida vai subir , o risco vai subir ' . O resultado é que começa a movimentação de moeda para o exterior e o dólar sobe " , continua . Marconi não é o único que tem criticado essa dinâmica , mas a alteração de a meta não é consenso entre economistas .

Questionado por jornalistas em a semana passada , Haddad afirmou que o governo não tem intenção de mudar a meta de inflação em o momento .


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