Calor
deixa
o
café
'
estressado
'
,
pode
derrubar
a
produção
brasileira
e
encarecer
a
bebida
“
Dez
dias
fazendo
40°
C
,
os
outros
trinta
dias
fazendo
35
°C
e
quarenta
e
dois
dias
sem
chuva
,
sem
uma
gota
d’
água
.
É
uma
condição
muito
severa
mesmo
,
como
a
gente
nunca
viveu
em
anos
anteriores
”
,
relata
o
produtor
de
café
Pedro
Berengan
.
A
plantação
de
ele
fica
em
Cerqueira
César
(
SP
)
,
um
lugar
onde
décadas
atrás
o
problema
eram
fortes
geadas
.
As
ondas
de
calor
e
a
seca
histórica
criaram
uma
nova
realidade
para
quem
cultiva
o
grão
em
o
Brasil
:
pragas
e
doenças
fora
de
controle
,
meses
sem
chuva
e
lavouras
inteiras
sendo
perdidas
O
resultado
é
uma
produção
menor
,
o
aumento
em
os
preços
e
mesmo
a
qualidade
de
o
grão
pode
ficar
comprometida
.
Estudos
apontam
que
Minas
Gerais
e
São
Paulo
,
que
estão
entre
os
pólos
de
o
café
em
o
país
,
correm
risco
de
perderem
protagonismo
.
Em
este
sábado
(
21
)
,
a
série
"
PF
:
prato
de
o
futuro
"
mostrou
como
Berengan
e
outros
produtores
tentam
combater
os
efeitos
de
um
planeta
mais
quente
recorrendo
a
a
técnica
de
plantar
café
sob
a
sombra
de
árvores
,
em
vez
de
a
pleno
sol
.
Assista
abaixo
.
Cafezinho
em
risco
:
como
sombra
de
árvores
pode
ser
solução
para
aumento
de
a
temperatura
Dias
quentes
estão
mais
frequentes
O
café
,
assim
como
a
laranja
,
está
entre
os
alimentos
que
correm
mais
risco
com
o
planeta
ficando
mais
quente
.
Isso
porque
eles
são
uma
agricultura
perene
,
como
se
chama
a
categoria
de
os
cultivos
em
que
só
é
preciso
plantar
uma
vez
e
a
árvore
dará
frutos
todos
os
anos
.
O
momento
mais
crítico
para
essas
culturas
é
o
de
a
florada
,
que
,
em
o
caso
de
o
café
,
costuma
acontecer
entre
setembro
e
novembro
.
Em
essa
época
,
o
calor
e
a
seca
podem
acabar
causando
o
aborto
floral
,
que
é
quando
as
flores
não
geram
os
frutos
.
Comparada
com
os
níveis
pré-industriais
,
a
temperatura
de
o
planeta
já
subiu
cerca
de
1°C
,
segundo
o
Painel
Intergovernamental
sobre
Mudanças
Climáticas
(
IPCC
)
de
a
Organização
de
as
Nações
Unidas
(
ONU
)
.
A
previsão
é
de
que
,
entre
2030
e
2050
,
o
aquecimento
será
de
mais
1,5°C
.
Parece
,
pouco
,
mas
não
é
.
Para
o
café
arábica
,
o
mais
produzido
em
o
Brasil
,
que
aguenta
uma
temperatura
entre
18°C
e
22°C
,
o
impacto
pode
ser
devastador
.
Foto
:
g1
Além
de
os
níveis
de
temperatura
,
outro
efeito
é
que
os
dias
em
que
o
calor
supera
os
35°C
se
tornaram
mais
frequentes
.
“
Não
foi
só
um
mês
,
não
é
isolado
.
Foram
vários
meses
,
por
o
menos
34
meses
consecutivos
com
temperaturas
muito
acima
de
o
normal
,
junto
com
seca
”
,
disse
Ana
Paula
Cunha
,
especialista
em
o
monitoramento
de
secas
de
o
Centro
Nacional
de
Monitoramento
de
Desastres
Naturais
(
Cemaden
)
,
em
entrevista
a
o
g1
em
junho
de
este
ano
.
Em
agosto
,
o
órgão
confirmou
que
o
Brasil
enfrentava
a
maior
seca
já
vista
em
a
sua
história
recente
.
Com
este
cenário
,
a
tendência
é
de
cada
vez
mais
dificuldades
para
se
manter
uma
boa
produção
de
o
café
e
que
estados
tradicionais
em
o
cultivo
,
como
São
Paulo
e
Minas
Gerais
,
percam
área
de
plantio
.
Os
impactos
já
estão
aparecendo
.
Em
o
início
de
a
atual
safra
,
a
expectativa
era
de
um
novo
crescimento
em
a
colheita
de
o
café
.
Mas
as
estiagens
,
juntamente
com
altas
temperaturas
durante
as
fases
de
desenvolvimento
de
os
frutos
,
reduziram
a
produtividade
nacional
em
1,9
%
em
a
comparação
com
2023
,
aponta
a
Companhia
Nacional
de
Abastecimento
(
Conab
)
.
E
as
consequências
vão
além
de
o
café
,
considerando
a
importância
de
o
Brasil
em
o
setor
,
que
gera
empregos
,
influencia
a
economia
e
dá
oportunidades
para
pequenas
empresas
.
Foto
:
Luisa
Rivas
/
arte
g1
Saiba
mais
abaixo
:
Como
o
café
é
afetado
por
o
aumento
de
temperatura
Risco
de
perda
de
protagonismo
Vai
ter
café
para
todo
mundo
?
Como
o
café
é
afetado
por
o
aumento
de
temperatura
Com
o
aumento
de
as
temperaturas
,
parte
de
a
flora
de
o
planeta
deve
desaparecer
de
as
suas
áreas
tradicionais
,
aponta
o
relatório
de
o
IPCC
.
Em
o
caso
de
o
cafeeiro
,
o
calor
elevado
causa
queda
em
as
folhas
e
,
de
este
modo
,
diminui
a
fotossíntese
de
a
planta
.
Esse
processo
,
conhecido
como
estresse
térmico
,
induz
uma
perda
acelerada
de
água
,
explica
o
pesquisador
Carlos
Henrique
,
de
a
Embrapa
Café
.
“
Uma
vez
que
o
cafezal
não
tem
folha
o
suficiente
,
ele
não
faz
fotossíntese
,
então
ele
não
consegue
,
para
a
próxima
colheita
,
ter
produtividade
para
ter
novos
frutos
e
uma
quantidade
melhor
de
grão
”
,
explica
Tatiana
Nakamura
,
especialista
em
café
em
a
Nespresso
Brasil
.
“
Você
pode
ter
o
grão
também
com
uma
de
dificuldade
para
dar
a
bebida
como
ele
sempre
deu
.
Então
,
não
necessariamente
você
vai
perder
só
em
quantidade
.
É
possível
que
as
condições
de
o
clima
oscilaram
de
tal
forma
que
você
perde
a
qualidade
”
,
explica
Priscila
Coltri
,
pesquisadora
de
o
Centro
de
Pesquisas
Meteorológicas
e
Climáticas
Aplicadas
a
a
Agricultura
(
Cepagri
)
.
A
planta
também
fica
mais
suscetível
a
doenças
e
o
clima
é
propício
para
o
desenvolvimento
pragas
,
relata
a
professora
Ana
Ávila
,
que
também
é
de
o
Cepagri
.
Um
de
os
predadores
que
se
desenvolvem
em
o
calor
é
o
bicho
mineiro
,
que
se
instala
em
a
folha
e
causa
a
sua
queda
.
Risco
de
perda
de
protagonismo
O
Brasil
é
o
principal
produtor
de
café
de
o
mundo
,
sendo
que
apenas
Minas
Gerais
representa
mais
de
a
metade
de
o
total
nacional
,
com
uma
colheita
de
mais
de
1,7
milhão
de
toneladas
em
2023
,
segundo
o
Instituto
Brasileiro
de
Geografia
e
Estatística
(
IBGE
)
.
O
Sudeste
de
o
Brasil
sempre
apresentou
grande
potencial
cafeeiro
por
,
em
um
quadro
normal
,
ter
estações
bem
demarcadas
.
As
chuvas
são
concentradas
em
o
verão
e
o
inverno
é
mais
seco
,
explica
Ávila
.
Mas
o
calor
pode
mudar
esse
cenário
benéfico
para
o
café
em
essa
região
.
A
pesquisa
de
Eduardo
Assad
,
de
a
FGV
Agro
,
de
2004
,
mostrou
que
,
conforme
a
temperatura
aumenta
,
as
áreas
aptas
para
o
cultivo
diminuem
.
Veja
abaixo
as
projeções
que
foram
feitas
para
Minas
Gerais
:
Alta
de
1°C
:
mesmo
que
aconteça
um
acréscimo
em
as
chuvas
de
15
%
,
as
áreas
impróprias
a
o
plantio
de
o
café
em
Minas
Gerais
se
elevariam
em
20
%
,
representando
43
%
de
a
área
total
de
o
estado
;
Alta
de
3°C
:
áreas
com
risco
de
geada
praticamente
desaparecem
e
o
total
de
terras
consideradas
impróprias
sobe
para
76,3
%
de
o
estado
;
Alta
de
5,8°C
:
a
cultura
passa
a
ser
possível
em
apenas
2,6
%
de
o
Estado
,
e
concentrada
em
alguns
municípios
de
o
Sul
,
em
as
regiões
montanhosas
e
de
difícil
manejo
.
A
pesquisa
também
fez
projeções
para
São
Paulo
,
onde
,
quase
80
%
de
o
estado
é
apto
a
o
plantio
de
café
atualmente
:
Alta
de
1°C
:
em
41
%
de
o
território
seria
impossível
plantar
o
grão
.
Alta
de
3°C
:
a
área
imprópria
pode
subir
para
69,6
%
de
o
estado
.
Alta
de
5,8°C
:
em
96,6
%
não
seria
possível
plantar
café
,
ficando
restrito
a
as
regiões
montanhosas
.
Em
São
Paulo
,
áreas
que
antes
sofriam
com
geadas
,
hoje
já
precisam
lidar
com
fortes
ondas
de
calor
.
Foi
o
que
aconteceu
em
Cerqueira
César
.
O
produtor
rural
Pedro
Berengan
lembra
que
,
em
a
década
de
70
,
muitos
cafeicultores
abandonaram
a
região
ou
migraram
para
culturas
como
soja
e
milho
,
devido
a
o
episódio
que
ficou
conhecido
como
“
geada
negra
”
.
Em
a
atualidade
,
Berengan
já
teve
que
suspender
a
irrigação
de
a
sua
lavoura
por
causa
de
a
seca
em
a
represa
Jurumirim
.
“
Porque
você
pensa
:
10
dias
fazendo
40°
C
,
os
outros
30
dias
fazendo
35°C
e
42
dias
sem
chuva
,
sem
uma
gota
d’
água
.
Então
é
uma
condição
muito
extrema
”
,
diz
.
Em
paralelo
,
estados
de
o
Sul
de
o
país
poderiam
aumentar
seu
potencial
cafeeiro
,
justamente
por
perderem
o
alto
risco
de
geadas
.
A
pesquisa
apontou
que
,
com
o
aquecimento
de
1°C
,
o
Paraná
ainda
teria
quase
90
%
de
a
sua
área
apta
a
o
café
,
por
exemplo
.
Contudo
,
a
o
aumentar
ainda
mais
a
temperatura
,
também
é
observada
uma
queda
em
o
potencial
,
que
pode
se
restringir
em
torno
de
40
%
de
a
área
de
o
estado
,
em
o
cenário
de
alta
de
5,8°C
.
Além
de
o
Paraná
,
o
Rio
Grande
de
o
Sul
,
Santa
Catarina
,
o
Uruguai
e
a
Argentina
também
possuem
cenários
onde
poderiam
ser
beneficiados
por
esse
aquecimento
.
Contudo
,
essas
migrações
ainda
não
são
uma
realidade
.
Isso
porque
os
agricultores
de
esses
estados
ainda
preferem
o
plantio
de
soja
e
milho
,
aponta
Assad
.
“
Mas
eu
continuo
insistindo
:
se
quiser
manter
a
produção
de
café
,
nós
temos
que
buscar
áreas
com
temperaturas
mais
amenas
.
Ou
seja
,
o
café
tem
que
subir
a
montanha
,
para
pegar
a
temperatura
mais
baixa
,
e
tem
que
ir
para
o
Sul
de
o
Brasil
.
Se
não
,
não
vai
dar
.
Ele
não
aguenta
.
Ele
realmente
não
aguenta
”
,
afirma
.
Contudo
,
“
subir
a
montanha
”
não
é
garantia
de
manter
a
produção
,
uma
vez
que
muitas
áreas
são
preservadas
e
não
podem
ser
desmatadas
,
aponta
Ana
Ávila
,
de
o
Cepagri
.
Vai
ter
café
para
todo
mundo
?
Mais
de
9
milhões
de
toneladas
de
café
são
consumidas
por
ano
,
aponta
o
Departamento
de
Agricultura
de
os
Estados
Unidos
(
FDA
)
.
Em
20
anos
,
esse
número
cresceu
mais
de
50
%
e
deve
continuar
subindo
,
principalmente
considerando
que
a
população
mundial
pode
aumentar
em
9,9
bilhões
de
pessoas
até
2054
.
Com
mais
gente
bebendo
café
e
menos
área
para
produzir
o
grão
,
a
expectativa
é
de
que
,
em
o
futuro
,
o
preço
de
o
alimento
encareça
,
limitando
o
acesso
a
a
bebida
.
Uma
de
as
razões
para
isso
é
que
,
com
o
clima
causando
mais
prejuízos
,
menos
produtores
vão
se
interessar
por
o
plantio
de
o
fruto
.
“
Você
começa
a
perder
mais
de
o
que
ganhar
.
Então
,
o
que
que
acontece
?
Você
produz
menos
.
[
...
]
A
questão
toda
é
você
diminuir
a
quantidade
produzida
e
a
qualidade
de
a
produção
,
aí
você
acaba
expondo
uma
quantidade
maior
de
pessoas
a
uma
falta
de
alimentos
e
aumenta
o
preço
”
,
explica
Avíla
.
A
qualidade
de
o
café
também
deve
cair
.
“
O
que
influencia
é
a
quantidade
de
água
dentro
de
o
grão
em
o
momento
de
a
torra
.
Quando
você
torra
um
café
,
a
água
interna
age
de
uma
forma
que
ela
vai
conduzir
aquela
torra
.
A
gente
tem
notado
que
os
cafés
de
essa
safra
de
24
tão
muito
difíceis
de
torrar
"
,
explica
Marcelo
Gasparoto
,
consultor
em
qualidade
de
café
e
torrefação
.
Mas
não
é
preciso
decretar
o
fim
de
o
café
.
Atualmente
,
existem
pesquisas
que
buscam
desenvolver
variedades
que
são
mais
resistentes
a
o
clima
,
além
de
técnicas
de
manejo
mais
sustentáveis
ajudarem
a
resfriar
a
produção
.
Foto
:
Luisa
Rivas
/
arte
g1