"
A
violência
que
vem
por
as
palavras
,
em
geral
,
é
o
motor
de
a
violência
que
vem
por
as
ações
.
"
A
reflexão
é
de
a
psicóloga
especialista
em
educação
e
docente
de
a
Unicamp
Angela
Soligo
.
Em
entrevista
a
o
g1
,
ela
apontou
falhas
em
a
educação
que
culminaram
com
um
ano
de
2022
marcado
por
episódios
de
intolerância
,
violência
,
racismo
,
crimes
e
até
mortes
em
escolas
de
o
país
.
A
região
de
Campinas
(
SP
)
foi
destaque
em
este
cenário
.
Mas
como
chegamos
a
esse
ponto
?
O
que
está
por
trás
de
isso
?
Qual
a
saída
para
superar
esses
problemas
?
O
tema
"
educação
"
foi
um
de
os
cinco
assuntos
mais
presentes
em
a
nuvem
de
palavras
formada
por
os
termos
que
mais
apareceram
em
as
mensagens
de
reclamações
enviadas
por
telespectadores
a
a
EPTV
,
afiliada
de
a
TV
Globo
,
em
2022
.
"
Escola
"
aparece
em
segundo
lugar
em
o
ranking
feito
por
o
núcleo
de
dados
de
a
emissora
:
Posto
de
Saúde
Escola
e
Professor
Assalto
e
Drogas
Acidente
de
Trânsito
Moradores
de
rua
A
o
longo
de
essa
semana
,
então
,
o
g1
publica
a
série
de
reportagens
"
Nuvem
de
problemas
"
,
com
um
panorama
de
cada
uma
de
essas
áreas
que
tem
gerado
preocupação
de
a
população
.
Para
Angela
,
as
sequelas
que
vemos
hoje
em
as
salas
de
aula
e
também
em
ambientes
comuns
a
estudantes
,
como
as
redes
sociais
,
são
fruto
de
mudanças
graduais
em
o
ensino
a
o
longo
de
anos
,
perdas
causadas
por
a
ideologia
de
a
"
escola
sem
partido
"
,
que
interrompeu
discussões
essenciais
para
a
formação
de
a
sociedade
.
"
Não
foi
um
projeto
aprovado
como
um
projeto
político
,
porque
é
inconstitucional
,
mas
,
como
ideologia
,
adentrou
a
escola
.
Muita
coisa
que
se
discutia
passou
a
ser
interditada
.
Discussões
que
visavam
problematizar
a
violência
e
a
discriminação
de
gênero
,
projetos
contra
homofobia
,
por
exemplo
,
passam
a
ser
silenciados
.
"
Posturas
e
atitudes
também
acabaram
ficando
inflamadas
após
a
retomada
de
as
aulas
pós-pandemia
de
a
Covid-19
e
por
a
polarização
política
que
ganhou
força
enquanto
a
sociedade
decidia
votos
em
as
eleições
presidenciais
.
Segundo
a
psicóloga
,
as
instituições
de
ensino
deixaram
de
produzir
relações
mais
respeitosas
.
"
O
que
provocou
a
violência
é
exatamente
esse
contexto
de
a
violência
que
já
tinha
se
instalado
.
E
em
esse
retorno
com
as
pessoas
ansiosas
,
com
uma
escola
que
deixou
que
produzir
relações
mais
respeitosas
,
a
violência
aumentou
.
As
pessoas
já
não
estavam
bem
e
não
sabiam
lidar
com
esse
'
não
estar
bem
'
,
e
a
escola
muito
cobrada
para
recuperar
tudo
que
perdemos
...
Isso
tudo
cria
um
caldo
de
tensão
que
é
muito
difícil
de
lidar
"
.
"
A
cobrança
,
os
alunos
com
o
sentimento
de
não
ter
aprendido
,
cria
esse
caldeirão
de
tensão
.
Isso
se
relaciona
com
o
aumento
de
a
violência
.
Junta
isso
com
uma
desigualdade
que
não
foi
discutida
,
um
preconceito
que
não
foi
discutido
.
Tudo
o
que
a
sociedade
já
vem
fazendo
com
as
pessoas
vai
acontecendo
dentro
de
a
escola
.
Não
é
um
problema
só
de
a
escola
"
,
alertou
.
Repúdio
em
SP
e
Brasil
afora
Discursos
de
ódio
,
casos
de
racismo
e
outras
violências
causaram
repúdio
em
Valinhos
(
SP
)
,
quando
oito
alunos
de
uma
escola
de
elite
foram
expulsos
após
ataques
racistas
a
apologia
a
nazismo
;
em
Mogi
Mirim
(
SP
)
,
quando
uma
professora
foi
afastada
suspeita
de
injúria
racial
contra
um
aluno
de
12
anos
;
em
Campinas
,
quando
uma
briga
generalizada
por
suspeita
de
importunação
sexual
terminou
com
aluno
desacordado
,
e
outra
escola
precisou
de
intervenção
de
a
Polícia
Militar
.
"
Vimos
a
violência
ampliando
,
e
é
claro
que
a
escola
não
está
separada
de
a
sociedade
,
ela
reflete
a
sociedade
.
Então
a
intolerância
,
os
discursos
de
ódio
,
os
atos
violentos
entram
em
a
escola
.
Vão
se
manifestar
não
só
entre
alunos
mas
também
entre
professores
e
em
a
relação
professor-aluno
,
de
mão
dupla
"
,
disse
Angela
.
Também
em
SP
,
uma
aluna
denunciou
racismo
após
ouvir
de
a
professora
que
suas
tranças
eram
sujas
.
Em
Louveira
(
SP
)
houve
briga
entre
alunos
e
as
guardas
municipais
.
Brasil
afora
,
um
aluno
que
alegou
ser
vítima
de
bullying
em
o
Ceará
conseguiu
ter
acesso
a
uma
arma
e
atirou
contra
três
colegas
,
um
de
eles
morreu
.
Casos
graves
de
brigas
em
escolas
de
Brasília
(
DF
)
também
chamaram
a
atenção
de
as
autoridades
este
ano
,
como
estudantes
esfaqueados
e
ameaçados
com
armas
de
fogo
.
Em
o
Paraná
,
mães
registraram
boletim
de
ocorrência
após
negras
serem
representadas
em
cartaz
com
cabelo
de
palha
de
aço
.
"
Você
vai
ver
a
violência
racista
praticada
por
alunos
e
também
por
professores
.
E
qual
é
a
grande
questão
?
Tudo
isso
que
entra
em
a
escola
,
os
preconceitos
,
a
violência
,
não
foi
sendo
problematizado
,
discutido
em
a
escola.
"
,
avaliou
Angela
.
Disciplina
e
relacionamentos
em
baixa
Presidente
de
o
Conselho
de
as
Escolas
Municipais
de
Campinas
,
Renato
Nucci
disse
a
o
g1
que
a
falta
de
disciplina
entre
os
alunos
,
a
falta
de
atenção
e
as
brigas
foram
relatos
comuns
de
os
professores
em
este
ano
de
2022
em
as
unidades
de
ensino
.
"
A
capacidade
de
atenção
em
as
aulas
diminuiu
bastante
,
uma
certa
dificuldade
de
eles
se
relacionarem
entre
si
,
vários
conflitos
.
Não
que
não
existissem
antes
,
mas
os
professores
relataram
muito
a
os
pais
de
o
tempo
que
eles
passaram
a
ter
dentro
de
a
escola
para
chamar
a
atenção
de
as
crianças
para
prestar
atenção
em
as
aulas
"
.
Muitos
desaprenderam
a
estudar
com
a
mudança
de
metodologia
para
cumprir
o
ano
letivo
,
que
dependeu
de
aulas
online
e
recursos
limitados
.
Nucci
também
é
pai
de
uma
aluna
de
12
anos
de
a
rede
pública
,
e
contou
que
a
filha
e
outras
crianças
enfrentaram
dificuldades
de
relacionamento
.
"
Em
o
caso
de
ela
,
ela
não
terminou
o
ciclo
em
uma
escola
e
já
foi
transferida
para
outra
,
que
ela
nem
conseguiu
retomar
os
estudos
[
por
causa
de
a
pandemia
].
"
De
as
brigas
constantes
entre
estudantes
,
restaram
visitas
frequentes
de
a
Guarda
Municipal
e
de
a
Polícia
Militar
.
Violência
tão
perto
,
e
pais
assustados
.
"
Guarda
municipal
foi
em
a
porta
de
a
escola
algumas
vezes
em
o
fim
de
a
tarde
,
horário
de
saída
,
quando
tinha
alguma
suspeita
de
haver
confusões
fora
de
a
escola
.
Você
vê
polícia
em
a
porta
de
a
escola
,
você
fica
meio
...
A
gente
não
está
habituado
a
isso
,
você
fica
preocupado
,
gera
uma
tensão
.
"
Mais
história
crítica
e
mais
ação
de
as
autoridades
A
especialista
em
psicologia
educacional
Angela
Soligo
defende
que
a
história
mais
crítica
seja
recuperada
por
os
educadores
,
que
seja
explicado
o
significado
de
a
intolerância
em
o
Brasil
,
que
os
direitos
sociais
devem
ser
iguais
entre
todos
.
É
uma
mudança
em
as
salas
de
aula
que
pode
motivar
uma
transformação
social
.
"
Mesmo
a
discussão
de
assuntos
que
fazem
parte
de
a
nossa
história
passam
a
ser
cancelados
.
Em
a
escola
,
não
se
discute
como
foi
a
ditadura
,
e
vai
ter
gente
que
vai
dizer
que
a
ditadura
não
aconteceu
.
Não
se
discute
o
papel
de
o
colonizador
,
só
se
fala
de
as
pessoas
negras
como
escravas
,
o
que
é
perverso
.
"
Mas
também
é
obrigação
e
precisa
ser
o
foco
de
o
poder
público
,
ressalta
a
educadora
.
"
Não
tem
um
grupo
de
atores
só
para
retomar
esses
temas
.
O
fortalecimento
de
as
discussões
sobre
questões
raciais
,
LGBT+
,
preconceitos
de
classe
,
de
origem
.
A
retomada
depende
,
sim
,
de
as
escolas
,
de
professores
e
gestores
,
mas
também
de
a
pressão
de
alunos
e
de
o
poder
público
.
"
O
presidente
de
o
Conselho
de
as
Escolas
também
destacou
que
se
faz
necessário
um
posicionamento
claro
de
as
autoridades
contra
discriminação
e
violências
.
Segundo
ele
,
a
entidade
chegou
a
discutir
medidas
para
trabalhar
os
conflitos
em
as
unidades
de
ensino
de
maneira
ampla
,
já
que
,
atualmente
,
tem
ficado
em
as
mãos
de
professores
pontuais
o
aprofundamento
de
os
temas
em
sala
.
Nucci
cobra
de
o
poder
público
de
Campinas
que
falta
uma
política
de
a
educação
em
um
território
livre
de
preconceito
e
intolerância
.
Deixar
claro
que
o
município
não
vai
admitir
de
forma
alguma
a
discriminação
,
e
que
vai
contar
com
um
prática
estruturada
de
combate
a
o
racismo
,
fascismo
,
a
a
xenofobia
,
por
exemplo
.
"
Você
tem
iniciativas
individuais
de
professores
que
buscam
trabalhar
um
pouco
essa
temática
de
o
combate
a
o
racismo
contra
negro
e
indígena
,
você
vê
em
as
aulas
professores
buscando
desenvolver
essa
política
.
Em
a
rede
pública
,
sinto
falta
de
uma
política
clara
:
'
Não
vamos
tolerar
de
maneira
nenhuma
o
racismo
'
"
.
O
g1
cobrou
a
Prefeitura
de
Campinas
sobre
a
adoção
de
medidas
práticas
de
combate
a
a
violência
e
a
intolerância
em
as
escolas
.
Em
nota
,
a
Secretaria
de
Educação
respondeu
que
promove
projetos
de
respeito
entre
as
pessoas
e
suas
diferenças
em
os
ambientes
escolares
.
"
Os
temas
mencionados
por
a
reportagem
são
tratados
em
sala
de
aula
de
maneira
interdisciplinar
.
Além
de
o
conteúdo
pedagógico
,
os
alunos
têm
a
oportunidade
de
participar
de
debates
e
discussões
que
os
levam
a
refletir
sobre
essas
questões
.
"
,
diz
o
texto
.
A
rede
também
possui
um
programa
de
combate
a
o
bullying
.
"
São
abordados
os
diferentes
tipos
de
violência
e
suas
motivações
,
assim
como
as
consequências
jurídicas
sobre
esses
atos
.
"
.
Com
foco
em
a
atuação
de
os
professores
,
uma
formação
se
volta
a
a
implantação
de
políticas
pedagógicas
e
publicação
de
conteúdos
sobre
o
assunto
.
Em
o
projeto
Justiça
Restaurativa
,
estudantes
que
vivem
em
situação
de
conflito
têm
espaço
em
a
escola
para
expressar
sentimentos
e
refletir
,
junto
a
os
envolvidos
de
uma
ocorrência
,
sobre
os
danos
emocionais
causados
.
"
A
proposta
também
visa
restabelecer
as
relações
sociais
rompidas
por
conta
de
conflitos
.
"
,
completou
a
Pasta
.
Veja
mais
notícias
de
a
região
em
o
g1
Campinas
.