Representação em texto

Com Argentina 'insustentável', estudantes de medicina voltam ao Brasil com esperança de concluir o curso

IDTEJ_0065
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/educacao/noticia/2024/12/14/com-argentina-insustentavel-estudantes-de-medicina-voltam-ao-brasil-com-esperanca-de-concluir-o-curso.ghtml
TítuloCom Argentina 'insustentável', estudantes de medicina voltam ao Brasil com esperança de concluir o curso
SubtítuloReajustes constantes no valor das mensalidades, aumento no curso de vida e cobranças de aluguel em dólar são algumas das mudanças que fizeram com que estudar no país vizinho deixasse de ser vantajoso para jovens brasileiros.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEducação
PropósitoNoticiar

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Danilo * chegou a a Argentina em 2022 , a os 25 anos . Ele diz que tudo parecia um sonho , até se tornar um pesadelo em este ano , seu terceiro em o país .

O custo de vida se tornou insustentável , a mensalidade de a universidade foi aumentando mês a mês e eu precisei gastar cada vez mais com moradia , transporte , alimentação e até material para a universidade , diz ele , que hoje tem 28 anos .

O jovem lembra que , até 2023 , seus gastos mensais , convertidos em reais , ficavam em torno de R$ 3,5 mil , incluindo a mensalidade de a faculdade . Em setembro de este ano , ele gastava quase o triplo .

Em outubro , Danilo arrumou as malas e voltou para o Brasil .

Casos como o de Danilo se tornaram comuns a o longo de este ano . Até 2023 , a Argentina era um de os principais destinos escolhidos por brasileiros que queriam cursar medicina em o exterior . Em 2022 , mais de 20 mil brasileiros estudavam medicina em o país vizinho , segundo um relatório argentino de o Ministério de o Capital Humano .

Em o entanto , dezenas de brasileiros estão voltando para o Brasil ou se transferindo para outros países , especialmente o Paraguai .

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O principal motivo é o aumento de preços alavancado por as políticas econômicas de o presidente argentino Javier Milei , que impactou todos os setores de o país , inclusive o de aluguéis e o de educação .

Saindo de a Argentina

Muitos de os brasileiros que estudavam em a Argentina confiavam em a desvalorização de o peso argentino com relação a o real , e em a estabilidade de os preços de serviços e custo de vida em geral em o país .

Isso era necessário porque muitos de eles ainda mantinham algum vínculo empregatício em o Brasil e recebiam em real ou porque recebiam auxílio financeiro de a família que havia permanecido em o país .

E , por algum tempo , mesmo com o aumento de preços em o início de o governo Milei , o cenário ainda era viável , que os gastos totais , incluindo mensalidade de as universidades privadas , ficavam abaixo de muitos cursos de medicina privados em o Brasil , que podem chegar a custar quase R$ 16 mil por mês .

Em o entanto , muita coisa mudou de para :

As universidades passaram a reajustar os preços mensalmente e de maneira imprevisível . Se , em um mês , o aluno pagou R$ 1,2 mil , em o outro poderia pagar R$ 1,8 mil , R$ 2 mil ou mais , sem controle ou aviso prévio . O preço de o aluguel disparou , e muitos locatários passaram a cobrar o valor em dólar , para contornar a baixa de o peso argentino , e com contratos de apenas 3 meses , com aumentos frequentes . Houve um aumento em os casos de xenofobia , segundo brasileiros , e frases como se está achando que aqui está ruim , então volta para o Brasil , se a faculdade aqui está cara , vai estudar em uma particular de o Brasil , se tornaram mais comuns .

Tudo isso , somado a a pressão de estar em um país diferente , falando outro idioma e ficando longe de a família , contribuiu para que muitos brasileiros decidissem voltar para o país .

De volta a o Brasil . E agora ?

Voltar para o Brasil pode significar uma oportunidade de continuar o sonho de a medicina . É o que acredita o mineiro Bruno * , de 33 anos .

Ele voltou a o país após concluir o ano de medicina por a Universidad Abierta Interamericana ( UAI ) . Mesmo faltando um ano para concluir o curso , ele avaliou que voltar era a melhor alternativa .

Para ter a chance de concluir o curso em o Brasil , Bruno fez o vestibular de uma universidade privada de o interior de São Paulo . aprovado , ele agora luta para conseguir a documentação necessárias de a universidade argentina para eliminar as disciplinas que cursou .

Para Marcela * , de 32 anos , o retorno tem um sabor mais agridoce . Ela conta que os quase 6 anos que passou em a Argentina deixaram marcas psicológicas profundas , e retornar para seu país natal foi uma maneira de autocuidado .

" Eu voltei em outubro para o Brasil , faltava um ano para eu me formar , mas além de a questão financeira , voltei também por minha saúde mental . , infelizmente , sofremos muita xenofobia , discriminação , inclusive em a faculdade , e aguentar tudo isso por anos longe de a família não é fácil " , confidencia .

formada em administração de empresa , a potiguar agora espera poder retomar os estudos e concluir sua gradação de os sonhos .

" Quero tentar me transferir para alguma universidade de aqui , fazer um financiamento se for preciso , e terminar . Porque hoje , , quem faz uma [ universidade ] particular gasta , a o todo , cerca de R$ 7 mil , R$ 8 mil , e a esse preço , a gente faz um esforço e estuda em o nosso país " , avalia .

Tanto Bruno quanto Marcela desapegaram de a ideia de estudar fora , e mesmo que a condição econômica de a Argentina voltasse a ficar favorável para os brasileiros , eles acreditam que não voltariam .

Transferência não é fácil

Apesar de a esperança que voltar a o Brasil a muitos estudantes , o processo de transferência para instituições nacionais não é simples . O pricipal desafio é conseguir o acesso rápido a a documentação que comprova quais disciplinas foram estudadas até ali .

Esse documento é importante pois , sem ele , o candidato que tentar transferir o curso para o Brasil pode precisar reiniciar a graduação . Em contrapartida , com a documentação , é possível que o estudante elimine algumas disciplinas . Quase sempre , algum prejuízo de tempo de por o menos um semestre , mas é a melhor solução .

Atualmente , segundo estudantes ouvidos por o g1 , o tempo mínimo informado por as universidades para envio de este documento é de 6 meses , podendo passar de um ano . A informação teria sido confirmada por o Ministério de a Educação argentino , que teria justificado como " demanda muito alta " .

O g1 procurou a pasta e universidades argentinas para confirmar o período de espera , mas não obteve resposta até a publicação de a reportagem .

Para tentar reduzir o tempo de espera por a documentação , muitos estudantes estão entrado com representação judicial contra as universidades .

Por , o desafio continua

A estudante Ana Clara Gazoli , de 21 anos , continua em a Argentina , apesar de as dificuldade de permanência para os brasileiros . Ela conta que até pensa em voltar para o Brasil e terminar o curso por aqui , mas ainda não conseguiu levar o plano para a frente por questões burocráticas que envolvem o filho de 10 meses .

O que pesou em a escolha de Ana Clara de estudar medicina em a Argentina foi o valor de as mensalidades e o reconhecimento internacional de a qualidade de os cursos de a área em o país .

Ela começou o curso por a Universidade de Buenos Aires ( UBA ) , uma instituição pública , mas optou por se transferir para a universidade privada Maimónides , onde precisou reiniciar o curso de ingresso , também chamado de pré-grad .

Quando começou em a Maimónides , as mensalidades ficavam cerca de R$ 1,5 mil . Agora , a o final de o ano de o curso , ela paga quase R$ 4 mil .

Agora , mais de o que nunca , Clara conta que precisa de a ajuda de o pai para permanecer em o país . " Eu trabalho , mas o que ganho é para manter o meu filho . Quem me mantém aqui é meu pai " , diz ela .

E , apesar de as universidades argentinas continuarem entre as mais reconhecidas de o mundo , a jovem avalia que vale a pena para poucos .

" Se a pessoa quer sair de casa , estudar em outro país , conhecer outras culturas , conhecer outras pessoas , sair de onde vive , mas tem condições , venha . Vem e vai ser incrível . Porém , se a pessoa está vindo pensando em a questão financeira , econômica , não vale a pena , não está valendo a pena estar em a Argentina . Não mais " , conclui .

* Estudante pediu para não ser identificado por medo de retaliação .

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