Representação em texto

Como as vacinas de RNA que nos salvaram da covid-19 podem derrotar outras doenças

IDTEJ_1107
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/coronavirus/vacinas/noticia/2021/12/25/como-as-vacinas-de-rna-que-nos-salvaram-da-covid-19-podem-derrotar-outras-doencas.ghtml
TítuloComo as vacinas de RNA que nos salvaram da covid-19 podem derrotar outras doenças
SubtítuloDesenvolvida nos últimos 30 anos, tecnologia pode ser central no combate a muitas enfermidades, da AIDS à chicungunha.
Ano2021
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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apenas um ano , a pesquisadora britânica Anna Blakney trabalhava em um campo de a ciência pouco conhecido de o público em geral , e bastante especializado . Poucas pessoas fora de o meio científico tinham ouvido falar de o tipo de pesquisa que ela realizava em o seu laboratório em Londres : o desenvolvimento de vacinas de RNA .

Quando Blakney começou em 2016 seu PhD em a universidade Imperial College , em Londres , " muitas pessoas duvidavam que a vacina com uso de RNA pudesse funcionar " , diz ela . Em 2019 , uma palestra oferecida por Blakney recebeu algumas dezenas de pessoas .

Agora , " todo o campo de ( uso de tecnologia com ) RNA está explodindo . É uma grande mudança em a medicina " , afirma a pesquisadora . Professora assistente em a British Columbia University , em o Canadá , Blakney agora tem mais de 250 mil seguidores em a plataforma de redes sociais TikTok e mais de 3,7 milhões de " curtidas " em esta rede .

Ela diz que estava " lugar certo e em a hora certa " para fazer parte de um progresso em as pesquisas em uma velocidade muito acima de o normal . Devido a a pandemia de coronavírus , muitas pessoas ouviram falar e receberam vacinas de RNA de a Pfizer/BioNTech ou de a Moderna .

Com o progresso rápido de a tecnologia devido a o grande investimento feito por causa de a pandemia , muitas dúvidas e hipóteses para investigação surgiram : as vacinas de RNA poderiam ajudar a curar certos tipos de câncer , HIV , doenças tropicais ( como malária ) ? Elas poderiam ajudar a criar uma " imunidade sobre-humana " ?

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Sem necessidade de vírus mortais dentro de ovos de galinhas O ácido ribonucléico mensageiro , ou RNA , é uma molécula em formato de fita que carrega o código genético de o DNA para a produção de proteínas em uma célula .

Diferente de o DNA , que é composto por uma fita dupla de códigos ( formando a famosa hélice ) , o RNA é composto por uma fita simples .

Sem o RNA , seu código genético não seria usado , proteínas não seriam produzidas e seu corpo não funcionaria .

Em uma metáfora simples , se o DNA fosse um cartão de banco , o RNA seria o leitor de o cartão .

Quando um vírus está dentro de nossas células , ele libera seu próprio RNA , enganando nossas células sequestradas para que produzam cópias de o vírus , em a forma de proteínas virais , que comprometem nosso sistema imunológico .

As vacinas tradicionais funcionam injetando proteínas virais inativadas chamadas antígenos , que estimulam o sistema imunológico de o corpo a reconhecer o vírus quando ele tenta infectar o corpo . A genialidade de as vacinas de RNA é que não é preciso injetar os antígenos : o que essas vacinas fazem é usar a sequência genética ou " código " de o antígeno traduzido em RNA , para provocar uma resposta de o sistema imune .

Depois , o RNA artificial desaparece , destruído por as defesas naturais de o corpo incluindo as enzimas que o decompõem , deixando nos apenas com os anticorpos .

Em comparação com as vacinas tradicionais , a vacina de RNA é mais segura para produzir , mais rápida e mais barata .

Não são necessários enormes laboratórios com altos níveis de biossegurança que desenvolvem vírus mortais dentro de ovos de galinha , como é o caso de muitas vacinas tradicionais .

Em vez de isso , um único laboratório pode sequenciar as proteínas de o antígeno e enviar este código por e-mail para o outro lado de o planeta .

Com essa informação , um laboratório poderia produzir " um milhão de doses de mRNA em um único tubo de ensaio de 100 ml " , diz Blakney .

Com a pandemia de coronavírus , vimos como esse processo acontece em tempo real .

Correndo contra a covid-19

Em 10 de janeiro de 2020 , Zhang Yongzhen , professor de zoonoses em o Centro para Controle e Prevenção de Doenças de a China em Pequim , sequenciou o genoma de o coronavírus e o publicou em o dia seguinte . A covid-19 foi declarada uma pandemia por a Organização Mundial de a Saúde ( OMS ) em 11 de março .

Em 16 de março , a partir de a sequência feita por Zhang , a primeira vacina de mRNA começou a ser testada em a fase 1 de um ensaio clínico ( com humanos ) .

Em 11 de dezembro de 2020 , a agência sanitária de os EUA , a Food and Drug Administration ( FDA ) , aprovou a vacina Pfizer-BioNTech contra a covid-19 .

Ela se tornou não apenas a primeira vacina de mRNA aprovada para uso em humanos , mas também a primeira a ter mostrado em os ensaios clínicos uma taxa de eficácia de 95 % .

a vacina de mRNA de a Moderna contra a covid-19 foi aprovada pouco depois , em 18 de dezembro . Antes , a vacina detentora de o título de " produzida mais rapidamente em a história " era contra a caxumba , que precisou de quatro anos para ser desenvolvida .

as vacinas de a Moderna e Pfizer-BioNTech precisaram de apenas 11 meses . A teoria por trás de a vacina de mRNA tem a assinatura de os cientistas de a Universidade de a Pensilvânia Katalin Karikó e Drew Weissman .

Eles receberam recentemente o prêmio Lasker 2021 , o maior de os EUA em a área de a biomédica .

Em o entanto , ainda em 2019 , acreditava se que as vacinas convencionais de mRNA ainda demorariam por o menos cinco anos para se tornarem realmente aplicáveis em a população .

A pandemia acelerou este cronograma . Métodos de entrega : os ' heróis esquecidos ' Importante colaboradora de Weissman e Karikó , a pesquisadora Kathryn Whitehead , professora associada de engenharia química e biomédica em a Universidade Carnegie Mellon , admite que " não havia muitas pessoas envolvidas em o mundo de as terapias de mRNA que imaginariam taxas de eficácia iniciais de 95 % em este cenário de emergência .

"

Mas agora , as possibilidades parecem infinitas .

Ou , como diz Blakney : " Bem , funcionou para uma glicoproteína viral , então que outras vacinas podemos fazer com ela ?

E o que podemos fazer além de isso ? " Em a Universidade de Rochester , Dragony Fu , professor associado de o departamento de biologia , recebeu um financiamento de a US National Science Foundation ( Fundação Nacional de a Ciência de os EUA ) para seu laboratório acelerar a pesquisa sobre proteínas de RNA .

Ele lembra que , antes de a covid-19 existir , havia pesquisas de vacinas de mRNA contra os vírus de o HIV , zika , herpes , além de o parasita de a malária .

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" A outra categoria é de as doenças autoimunes " , diz o pesquisador .

" É intrigante porque vai além de a definição estrita de o que é uma vacina " .

Fu acredita que o futuro pode envolver " tratamentos " de mRNA , por exemplo , para reduzir inflamações .

Yizhou Dong , professor associado de farmácia e farmacologia de a Ohio State University , é especialista em pequenas bolas de gordura que envolvem o mRNA de forma a entregá lo com segurança a as células , sem que nosso corpo destrua esse material genético imediatamente . Esses lipídios foram descritos como o " herói esquecido " de esta tecnologia se este método de entrega não tivesse sido aperfeiçoado e aprovado por o FDA em 2018 , possivelmente não haveria as cobiçadas vacinas de mRNA de 2020 .

Graças a o avanço combinado de a entrega por lipídios e de a tecnologia de mRNA , estão em desenvolvimento os projetos Translate Bio para fibrose cística e esclerose múltipla ; uma vacina de mRNA de a Gritstone Oncology e Gilead Sciences para HIV ; terapias para fibrose cística e doenças cardíacas de a Arcturus Therapeutics ; e tratamentos de doenças pulmonares graves e asma por a start-up alemã Ethris em parceria com a AstraZeneca .

Uma solução para as doenças negligenciadas ? Tratamentos para doenças tropicais também estão sendo explorados .

A Moderna está perto de a fase dois ( de um total de três ) de os ensaios clínicos com vacinas de mRNA para zika e chicungunha . São doenças consideradas negligenciadas por afetar populações de países mais pobres , não recebendo verbas para pesquisa e outros investimentos necessários .

A velocidade de produção e o custo de as vacinas de mRNA podem driblar as barreiras atuais que fazem de estas doenças negligenciadas .

Mas talvez a próxima vacina de mRNA a chegar a nós seja contra um inimigo mais conhecido : a gripe .

Os vírus responsáveis por ela causam entre 290 mil e 650 mil mortes anualmente em todo o mundo .

" Essas vacinas de mRNA estão em desenvolvimento anos , e os ensaios clínicos até agora são animadores . Atualmente , existem cinco testes clínicos para influenza

A , incluindo um em a fase dois " , diz Whitehead .

Esses avanços novamente podem chegar em o momento certo :

Paul Hunter , professor de a Universidade de East Anglia , em o Reino Unido , e também consultor de a OMS , diz que , em alguns países , epidemias de influenza podem causar mais mortes de o que a covid-19 . Várias empresas farmacêuticas também estão investindo em vacinas de mRNA como tratamento para o câncer .

" As células cancerosas costumam ter certos marcadores em sua superfície que o resto de as células em o corpo não têm " , explica Blakney .

" Você pode treinar o sistema imunológico para reconhecer e matar essas células , assim como você pode treinar seu sistema imunológico para reconhecer e matar um vírus .

É a mesma ideia , basta descobrir quais proteínas estão em a superfície de as células tumorais e usá las como uma vacina . " A ideia de terapias de mRNA individualizadas para câncer tem sido tentadora anos , em a qual propõe se que vacinas personalizadas sejam entregues a cada paciente .

" Um tumor é removido , sequenciado , você observa o que está em a superfície e , então , uma vacina é feita especificamente para você " , exemplifica a pesquisadora .

" Potencialmente , você poderia imaginar a produção de uma vacina contra um antígeno bacteriano como o C. difficile ou contra alguns ( patógenos ) que são realmente difíceis de tratar " , diz Blakney .

Também existe a possibilidade de aplicações comerciais de saúde e bem-estar . Por exemplo , Fu sugere que a intolerância a a lactose , que afeta centenas de milhões de pessoas de ascendência asiática incluindo ele mesmo e estimadas 68 % de a população mundial , pode um dia ser o alvo .

" Não tenho a proteína que me permite quebrar a lactose .

Em o futuro , poderíamos desenvolver alguma forma de transmitir uma mensagem , o mRNA , que criará a proteína que quebra a lactose

Não é uma ( demanda para algo que ) ameaça a a vida , mas eu imagino que seria uma indústria multibilionária .

"

Em o Estado de Ohio , EUA , Dong testou com sucesso o controle de o colesterol em ratos .

Pessoas com altos níveis de a proteína PCSK9 tendem a ter colesterol alto e desenvolver doenças cardíacas precocemente .

" Percebemos que após um tratamento [ em ratos ] , fomos capazes de reduzir o nível de a proteína PCSK9 em mais de 95 % . Essa é definitivamente uma direção de pesquisa muito importante " , diz ele .

De acordo com o pesquisador , por o menos uma empresa de biotecnologia está planejando um ensaio clínico usando mRNA para inibir a PCSK9 . Tudo isso levanta a questão : poderiam as terapias de mRNA em os dar uma imunidade quase sobre-humana ?

Céu é o limite ?

Fato é que as vacinas de mRNA contra a covid-19 levaram algumas pessoas a produzir níveis muito altos de anticorpos , capazes de neutralizar várias variantes de o coronavírus de uma vez .

Também existe a possibilidade futura de misturar várias vacinas de mRNA em uma única dose , o que eventualmente poderia prevenir cânceres e vírus a o mesmo tempo . Por enquanto , porém , é mais palpável uma vacina combinada contra a covid-19 e gripes , o que vem sendo estudado tanto por a Moderna quanto por a Novavax .

Em o entanto , antes de ficarmos animados demais , algumas perguntas sobre as vacinas de mRNA permanecem .

Uma de elas é sobre a duração de a imunidade gerada e a necessidade de doses de reforço , que eventualmente podem levar a um acúmulo de reações desagradáveis .

Reações anafiláticas foram observadas em aproximadamente 2 a 5 pessoas por milhão de vacinadas em os Estados Unidos , embora não haja registro de mortes .

A taxa de reações foi ligeiramente maior para a vacina Pfizer-BioNTech , de 4,7 por milhão , de o que para a vacina de a Moderna ( 2,5 por milhão ) .

Embora a taxa geral seja baixa , ela é 11 vezes maior de o que de a vacina contra a gripe .

" Ainda estamos trabalhando para entender quanto tempo dura a resposta de os anticorpos , bem como a resposta celular " , diz Blakney .


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