Representação em texto

Os idosos viciados em redes sociais: 'Desligamos o wi-fi da minha mãe'

IDTEJ_0989
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2024/12/23/os-idosos-viciados-em-redes-sociais-desligamos-o-wi-fi-da-minha-mae.ghtml
TítuloOs idosos viciados em redes sociais: 'Desligamos o wi-fi da minha mãe'
SubtítuloIdosos já são um grupo vulnerável a vício no celular, que pode levar a um isolamento da família e a problemas com jogos e golpes.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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Em a casa de a família de Ester , em o interior de São Paulo , o wi-fi está desligado . A cuidadora de idosos de 38 anos e os irmãos também têm evitado mexer em o celular quando estão reunidos .

A decisão repentina de a família de ficar offline é uma tentativa de trazer uma pessoa " de volta a a vida real " : a mãe de Ester , que tem 74 anos .

" Ela está muito viciada : leva o celular para o banheiro , dorme com o celular embaixo de o travesseiro , não interage e não deixa a gente chegar perto de o telefone de ela . Parece uma criança " , diz Ester , que preferiu preservar o nome de a mãe e o sobrenome de a família para evitar constrangimentos .

Em uma medida mais drástica , os filhos chegaram a tirar o chip de o telefone de a mãe , para cortar o acesso de a idosa a dados móveis e que , assim , parasse de entrar em o Facebook e TikTok .

" A gente desligou o wi-fi e tirou o chip de o celular de ela porque não tinha outro jeito " , diz Ester .

O caso de a família paulista ilustra um fenômeno que tem aparecido em pesquisas recentes sobre danos causados por o vício em celular a chamada nomofobia , expressão que vem de o inglês em o mobile ( sem celular ) . Ela não é considerada uma doença ou um transtorno , mas um conjunto de sintomas exacerbados em essa relação não saudável com os aparelhos eletrônicos .

Bebês trabalham em lar de idosos em troca de fraldas , carinho e senso de comunidade

Em alguns casos , o medo de ficar sem celular pode deixar uma pessoa tão nervosa que ela pode suar demais ou ter taquicardia .

O uso excessivo de telas é relacionado a uma piora de a saúde mental , com sintomas de estresse , depressão e ansiedade , segundo pesquisas reunidas em um estudo realizado por a terapeuta ocupacional Renata Maria Santos em seu doutorado em a Faculdade de Medicina de a Universidade Federal de Minas Gerais ( UFMG ) .

A principal surpresa para a pesquisadora , que acompanha pacientes em o Hospital de as Clínicas de a UFMG , em Belo Horizonte , foi o impacto em idosos .

" A gente imaginava que os idosos teriam uma aversão a a tecnologia , por a dificuldade de mexer ou por um leve declínio cognitivo natural , que seriam uma barreira para um relacionamento positivo com esses aparelhos " , diz Santos , que analisou 142 artigos publicados sobre pesquisas que , reunidas , envolvem 2 milhões de pessoas em o mundo .

" Mas o que a gente encontrou é que as pessoas estão tão apegadas a ponto de desenvolver essa ansiedade generalizada de ficar desconectado [ a nomofobia ] . "

Ou seja , a dificuldade que muitos idosos relatam de lembrar de senhas , baixar algum programa ou conhecer os caminhos para acessar um site não tem sido mais uma barreira .

Os especialistas com quem a BBC News Brasil conversou apontam que os celulares podem ser aliados importantes em a melhoria de a qualidade de vida de idosos ( em o contato com a família , por exemplo ) .

Mas alguns aspectos que deixam os idosos especialmente vulneráveis a uma possível dependência , como :

Isolamento e solidão ;

Sentimento de ' exclusão ' de o mundo atual ; Alto índice de transtornos de humor , como depressão .

Essas situações , somadas a algum declínio cognitivo e a a falta de letramento digital , ainda podem levar os idosos a uma maior propensão a cair em golpes ou se viciar em jogos , explica a neuropsicóloga Cecília Galetti , especialista em gerontologia , a ciência que estuda o envelhecimento .

" É como uma bola de neve .

Um idoso isolado em casa e deprimido é mais vulnerável a um comportamento aditivo " , diz Galetti , que é colaboradora de o Programa Ambulatório Integrado de os Transtornos de o Impulso de a USP ( Universidade de São Paulo ) . Além de isso , " um de os critérios diagnósticos para identificar um vício em jogos , por exemplo , é saber se a pessoa aposta para fugir de um humor deprimido " .

' Eu era viciada ' " Era como se o celular fosse parte de mim , e eu tinha que ficar perto de ele o tempo inteiro .

Senão , sentia que faltava alguma coisa . " O relato de a aposentada Maria Aparecida Silva , de 70 anos , de São Paulo , remete a o momento que ela percebeu que tinha uma dependência , em 2021 .

O Brasil vivia ainda a pandemia de Covid-19 , e o celular passou a ser sua única conexão com o mundo exterior . Aparecida , que mora sozinha , lembra que " passou a levar o celular para a cama e não conseguia mais dormir " , além de " deixar de realizar tarefas domésticas para ficar conectada " .

A aposentada passava maior parte de o tempo em o Facebook , um aplicativo que faz " um serviço muito bem feito para chamar nossa atenção " , conta . De fato , as redes sociais são habilidosas em contemplar a busca por " recompensas " de o nosso cérebro . Temos centros neurais que reagem a o prazer a o sexo , a as drogas , a ganhar dinheiro em apostas , e esperam que isso se repita várias vezes .

Isso é conhecido como circuito de recompensa de o cérebro , e é o mesmo mecanismo por o qual uma pessoa se torna dependente de uma substância como o álcool .

As redes sociais , em particular , sempre têm algo novo prazeroso a oferecer : uma foto , um vídeo , uma mensagem .

Por isso , têm potencial aditivo . Especialmente em os idosos , a pesquisadora Renata Maria Santos explica que esse acesso exacerbado a o mundo digital tem causado um estado psíquico chamado hebefrenia , uma confusão mental que , em os grupos afetados , tem levado a um " comportamento de adolescente " . " Tenho percebido um aumento de a preocupação com a validação de os pares , de as compras por impulso em a internet de coisas que não precisam e de a busca por ideais de beleza " , diz Santos .

" Em tese , são comportamentos que , por a idade , eles teriam perdido , mas que agora tem voltado com as redes .

E isso coloca os idosos em uma susceptibilidade parecida a o de os adolescentes .

Eles querem se sentir inseridos . "

As psicólogas com quem a BBC News Brasil conversou indicam alguns sinais que os familiares podem perceber sobre o uso não saudável de o celular , como :

Um isolamento social , mesmo quando pessoas por perto ;

Deixar de realizar atividades cotidianas e domésticas .

Em a avaliação de a psicóloga Anna Lucia Spear King , fundadora de o Instituto Delete , que promove uso consciente de tecnologias , a nomofobia ocorre , em geral , para " dar vazão a um transtorno de origem " , como compulsão , ansiedade , depressão ou síndrome de o pânico .

" Quando percebido o problema , o tratamento é em o transtorno de origem que leva a essa dependência " , conta Spear King , que pesquisa dependência digital e é professora de o Instituto de Psiquiatria de a Universidade Federal de o Rio de Janeiro ( UFRJ ) .

Além de isso , as especialistas aconselham as famílias a estarem por perto de os idosos e incentivá los a realizar atividades fora de casa .

A aposentada Maria Aparecida Silva conta que conseguiu se sentir " livre " de o celular a o fazer aulas como caratê em espaços de convivência para idosos , como o Associação Brasileira de Apoio a Terceira Idade ( Abrati ) , que oferece cursos em São Paulo .

" Deixei de carregar essa tralha o tempo todo " , diz Aparecida .

" Hoje , ele não me faz falta , coloco ele para dormir em outro quarto e o deixo fora de o meu alcance , desligado . "

' Se tiro o celular , ela fica agressiva '

A relação de alguns idosos com os celulares passa ainda por outro componente : a demência , que atinge cerca de 8,5 % de a população brasileira com 60 anos ou mais . Em a casa de a enfermeira Wany Passos , em Petrolina ( PE ) , a família tem corrido atrás de médicos para tentar entender o comportamento de a mãe , de 79 anos , que não larga mais o celular .

" Ela foi diagnosticada com princípio de Alzheimer , mas eu acho que não é isso .

Tem um comportamento de vício mesmo " , diz Wany . Segundo ela , a mãe passou por fases após ganhar o celular com acesso a a internet .

Primeiro , começou a se isolar de as relações familiares para ficar navegando . Depois , passou a ver vídeos em o aplicativo Kwai o dia inteiro e a acreditar em tudo que o que a levou , segundo Wany , a um extremismo político .

Por último , passou a confundir a realidade com o virtual , criando namorados fictícios e interagindo com o conteúdo como se fosse uma chamada a o vivo . " tentei tirar o celular , desligar a internet , mas ela fica imediatamente agressiva .

A as vezes , acordo de madrugada e vejo que ela passa a noite inteira assistindo a vídeos em o Kwai " , relata Wany .

A mesma angústia tem passado a família de Ester , em São Paulo . Diante de o relato de as filhas sobre o vício em o celular , médicos têm apontado para um início de demência em a mãe .

" Mas eu acho que essa perda cognitiva pode ter alguma relação com o vício em o celular , porque ela está lúcida , fala normal " , diz Ester . " Mas basta ter o celular em a mão de ela que ela muda .

" Sua mãe também tem fantasiado com supostos namorados virtuais .

" Quando dei o celular , pensei que ia ocupar e distrair a cabeça de ela , mas foi o contrário .

Ocupou tanto que ela fica em o celular " , relata a cuidadora paulista .

A pesquisadora Renata Maria Santos diz que risco em a combinação entre doenças cognitivas e o celular , apesar de não ter encontrado estudos que façam essa relação direta .

Santos diz que um de os primeiros sintomas de essas doenças é a agressividade e hiperssexualização " com o celular em a mão , podem dar vazão a isso " .

Ela ressalta ainda que as pesquisas demonstram que , quando o celular está a até um metro de o dono , a pessoa exibe um potencial cognitivo 10 % menor de o que sem celular por perto .

É como se a mente trabalhasse menos , que tudo que você precisa de informação está a seu alcance .


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