Representação em texto

Por que o câncer pode se tornar a doença que mais mata no Brasil - e que desafios isso traz

IDTEJ_0966
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2024/12/12/por-que-cancer-pode-se-tornar-a-doenca-que-mais-mata-no-brasil-e-que-desafios-isso-traz.ghtml
TítuloPor que o câncer pode se tornar a doença que mais mata no Brasil - e que desafios isso traz
SubtítuloEstudo revela uma transição epidemiológica em curso, como observado em nações mais ricas. Especialistas chamam a atenção para a necessidade de políticas públicas e campanhas para controlar fatores de risco.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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O Brasil passa por uma grande transição epidemiológica : a os poucos , o câncer ganha terreno , se torna a principal causa de morte em muitas cidades de o país e deixa para trás as doenças cardiovasculares , que ficaram em o topo de esse ranking em as últimas décadas .

Esse fenômeno foi captado por um estudo realizado por diversas instituições nacionais e internacionais , publicado em novembro em o periódico científico The Lancet - Regional Health Americas .

Os autores calculam que , em o ano 2000 , o câncer era a causa número um de óbitos em 7 % de os municípios de o país e não ficava em primeiro lugar em nenhum de os Estados .

em 2019 , esse cenário se modificou . As mortes por causa de tumores cresceram em 15 Estados e viraram o principal motivo de as mortes em 13 % de as cidades quase o dobro de o observado duas décadas atrás .

Segundo a pesquisa , a tendência é que esses números continuem a aumentar , até que o câncer ultrapasse as doenças cardíacas em todo o território nacional .

Essa transição foi observada em países mais ricos em os últimos anos , e agora passa a acontecer também em as nações de renda média , como é o caso de o Brasil .

Os autores de o estudo esperam que os dados e a análise ajudem a melhorar os serviços de saúde em o Brasil .

Especialistas ouvidos por a BBC News Brasil também chamam a atenção para a necessidade de melhorar e ampliar as campanhas de prevenção e outras políticas públicas para lidar com esse novo cenário .

Como a pesquisa foi feita

O trabalho envolveu investigadores de a Universidade de a Califórnia em Los Angeles ( EUA ) , de a Universidade Autônoma de o Chile , de o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde , de a Fundação Getúlio Vargas , de o A.C. Camargo Cancer Center e de a Universidade Federal de São Paulo ( Unifesp ) , entre outras instituições . Eles compilaram dados de os 5,57 mil municípios brasileiros disponíveis em o Sistema de Informação sobre Mortalidade ( SIM ) , vinculado a o Ministério de a Saúde .

Esse enorme registro público traz detalhes anonimizados sobre quais foram as causas de cada óbito notificado em os cartórios espalhados por o país .

A partir de isso , os autores de o estudo calcularam as taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares ( como infarto , acidente vascular cerebral , insuficiência cardíaca )

e por câncer para cada ano , em o período que vai de 2000 a 2019 .

Eles também criaram uma proporção de a taxa de mortalidade ( mortality rate ratio , em inglês ) , para determinar se , em cada município , o que mais matava ainda eram os problemas ligados a o coração e a os vasos sanguíneos ou se a tal transição epidemiológica havia ocorrido e os tumores tomaram a dianteira .

A partir de esse sistema , os pesquisadores puderam observar que a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares caiu em 25 de as 27 unidades de a federação ( 26 Estados mais o Distrito Federal ) . Em o mesmo período , a mortalidade por câncer subiu em 15 de eles .

" Enquanto que , em o ano 2000 , a mortalidade por câncer era menor que a de por doenças cardiovasculares em todos os Estados e apenas era superior em 7 % de as cidades , essa distância foi reduzida consideravelmente em 2019 , com 13 % de os municípios com maior mortalidade por câncer de o que por causas cardiovasculares " , descrevem os autores .

Em números absolutos , o câncer era a principal causa de morte em 366 cidades brasileiras em o início de o século . Esse número saltou para 727 em menos de duas décadas .

Leandro Rezende , um de os autores de o estudo recém-publicado , destaca que países de renda alta completaram essa transição epidemiológica e o mesmo processo começa a ganhar fôlego em os países de renda média , como é o caso de o Brasil .

" Esperamos que os dados ajudem a entender as nuances e as particularidades de o nosso país e possam ser úteis para os gestores de saúde " , pontua ele .

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Políticas públicas que fazem a diferença

Mas o que explica essa mudança ? Que fatores ajudam a entender essa transição em as causas de morte ?

Para Rezende , que é professor de o Departamento de Medicina Preventiva de a Escola Paulista de Medicina de a Universidade Federal de São Paulo ( Unifesp ) , duas políticas públicas criadas em as últimas décadas foram essenciais para isso .

" Em primeiro lugar , a queda de o tabagismo foi a grande contribuidora para a redução de as mortes por doenças cardiovasculares em o Brasil " , resume ele .

" Tudo isso reduziu o tabagismo , e nós agora colhemos os frutos de essas medidas , com muitas mortes evitadas " , complementa o pesquisador .

Para se ter uma ideia , praticamente um quarto de os brasileiros fumava em os anos 1980 . Hoje em dia , esse número fica em a casa de os 10 % .

Mas o cigarro também não está relacionado a o câncer ? Por que essas políticas não resultaram em uma diminuição de tumores de pulmão , bexiga , garganta , entre outros ?

A questão aqui está em o tempo . " A redução de o tabagismo deve , sim , levar a uma queda em a morte por vários tipos de câncer , mas isso será possível de observar em os próximos anos " , responde Rezende .

" A latência [ o período para que certas doenças apareçam ] varia muito . Ele costuma ser mais rápido para os problemas cardiovasculares e levar algumas décadas quando o assunto é câncer " , explica o pesquisador .

Rezende lembra de o segundo eixo de políticas públicas que , segundo as evidências , ajuda a entender o cenário captado em a pesquisa .

" Também precisamos ressaltar a importância de o Sistema Único de Saúde , o SUS , e o aumento de a cobertura de prevenção primária por meio de programas como a Estratégia Saúde de a Família , que permitem um controle mais efetivo de fatores de risco cardiovasculares , como diabetes e hipertensão " , pontua ele .

O médico José Humberto Fregnani , superintendente de Ensino , Pesquisa e Inovação em o A.C. Camargo Cancer Center , em São Paulo , que não esteve diretamente envolvido com o estudo , concorda com os pontos levantados por Rezende e acrescenta um terceiro elemento a o debate . " Também tivemos um grande desenvolvimento de medicações e tecnologias relacionadas a as doenças cardiovasculares , que melhoram cada vez mais o tratamento " , avalia ele .

Em a visão de o especialista , o problema é que o câncer apresenta uma complexidade muito maior , tanto de o ponto de vista de a prevenção quanto de as terapias .

" Quando pensamos em a hipertensão , o diagnóstico é simples , feito em o próprio consultório , onde é possível lançar mão de uma série de medidas para ter um controle melhor " , compara ele .

" Agora , o câncer não é uma doença única .

centenas de tipos , subtipos , fases e graus , para os quais existem métodos de detecção e tratamento absolutamente distintos " , destaca Fregnani . Portanto , diante de um cenário em que o câncer se torna uma preocupação cada vez maior e logo deve assumir o topo de o ranking de mortalidade em o país todo , os desafios para lidar com esse novo cenário se multiplicam e ficam também mais complexos .

Um desafio de o tamanho de o Brasil

A médica Anelisa Coutinho , presidente de a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica ( Sboc ) , lembra que o mundo registra em torno de 20 milhões de novos casos de câncer por ano .

" E as projeções apontam que , até 2050 , esse número vai subir para 35 milhões , um incremento de por o menos 70 % " , calcula ela .

Em a visão de a médica , a boa notícia é que por o menos um terço de esses tumores podem ser evitados por meio de uma atenção maior a os chamados fatores de risco modificáveis .

Aqui entram questões de o estilo de vida moderno , relacionados a o estresse , a a qualidade de a alimentação , a a obesidade , a o tabagismo , a o sedentarismo " , lista a oncologista .

Isso significa , portanto , que um em cada três casos de câncer podem ser evitados por meio de uma rotina saudável , que envolve manter se em o peso adequado , fazer atividade física , comer bem , não fumar , maneirar em o álcool , etc .

Mas a especialista acredita que não basta pedir que as pessoas sejam mais saudáveis para resolver essa questão ainda mais diante de um cenário em que as taxas de excesso de peso e obesidade estão em franco crescimento em o país .

" A obesidade pode ser vista como uma epidemia .

Em o começo de o ano 2000 , 10 % de os brasileiros eram obesos " , contextualiza Rezende , de a Unifesp . " Hoje essa taxa está em 20 % e projeções de que chegará a 30 % até 2030 . "

Em a visão de Coutinho , assim como aconteceu com o cigarro , é preciso pensar em algum tipo de regulamentação para alimentos prejudiciais .

" Poderíamos ter algum tipo de taxação para os produtos comprovadamente deletérios " , sugere ela .

Rezende concorda .

" As pessoas não fumam , tomam álcool ou comem alimentos ultraprocessados simplesmente porque desejam . uma indústria bilionária por trás de isso , com capacidade de maximizar as vendas e incentivar o consumo " , diz ele . " É importante educar as pessoas , mas não para pensar em controle de álcool ou alimentos danosos a a saúde sem uma discussão ampla sobre tributação , regulação de o marketing e venda " , complementa o pesquisador .

Coutinho cita como um avanço recente a aprovação de a Política Nacional de Prevenção e Controle de o Câncer , sancionada por o governo federal em dezembro de 2023 com quatro objetivos principais :

diminuir a incidência de os diversos tipos de câncer ; garantir o acesso adequado a o cuidado integral ; contribuir para a melhoria de a qualidade de vida de os usuários diagnosticados com a doença ; e reduzir a mortalidade e a incapacidade causadas por os tumores .

" Agora , nós estamos , a o lado de diversos setores de a sociedade , em um esforço comum para encontrar os melhores caminhos e colocar essa lei em a prática " , diz a presidente de a Sboc .

Mas , como lembrado por Fregnani , é preciso pensar em a diversidade de o câncer e como alguns tipos de a doença exigem ações específicas .

O câncer de pele e o melanoma , por exemplo , demandam cuidados com a exposição solar e o uso de protetores de boa qualidade .

o tumor de colo de o útero depende de um bom programa de rastreio ( por meio de o papanicolau e de o teste de HPV ) e de as campanhas de vacinação contra o HPV .

O câncer colorretal pode ser detectado precocemente por meio de um exame de fezes feito com certa regularidade .

E assim por diante . A questão , portanto , é como implementar tantas medidas específicas , levando em conta as limitações financeiras e de recursos presentes em qualquer sistema de saúde .

Mas Coutinho lembra que algumas medidas gerais poderiam trazer benefícios amplos .

" Se pensarmos de forma inteligente em maneiras de estimular uma vida mais saudável , muitos casos de câncer poderiam ser prevenidos " , reforça ela .

Mesmo com todos esses cuidados , que evitariam cerca de 30 % de os tumores , ainda é preciso pensar em as outras causas de a doença , que envolvem idade , propensão genética e exposição a fatores que não podemos controlar diretamente ( como poluição atmosférica ou agrotóxicos , por exemplo ) .

" E ainda um grupo de tumores sobre os quais não fazemos a menor ideia de como surge ou os fatores de risco por trás de eles " , observa Fregnani .

" Para completar , ainda temos um desafio mundial de como custear os tratamentos , que ficam cada vez mais caros " , acrescenta o especialista .

Um pódio em que ninguém quer subir

O médico Sérgio Montenegro , membro de o Conselho Administrativo de a Sociedade Brasileira de Cardiologia ( SBC ) , a transição epidemiológica como um processo natural ainda que infarto , AVC e outras enfermidades que envolvem coração e vasos sanguíneos continuem como a causa número um de mortes em o país .

" algumas décadas , as doenças infecciosas eram a principal causa de mortalidade em o Brasil .

A A medida que as controlamos , as doenças crônicas degenerativas , especialmente aquelas ligadas a o coração , apareceram mais " , contextualiza Montenegro . " Mas trabalhamos muito para combater isso e reduzir esses números , até porque ninguém quer ser esse campeão , esse líder em a taxa de mortalidade .

"

Montenegro destaca que muitos fatores de risco para doença cardiovascular obesidade , tabagismo , dieta inadequada , sedentarismo

também estão relacionados a o desenvolvimento de tumores .

Portanto , trabalhar essas questões de o estilo de vida tem um benefício duplo e pode trazer reduções em casos e mortes tanto para as enfermidades cardíacas quanto para alguns tipos de câncer .

O médico entende que a obesidade representa a principal ameaça a as conquistas recentes quando o assunto é o coração .

" vimos reduções semelhantes em a mortalidade cardiovascular em outros países , mas os números voltaram a subir depois de um tempo " , destaca ele . " Ou seja , as quedas recentes não permitem baixar a guarda . Precisamos cuidar de a obesidade , até porque ela traz com si problemas como diabetes , hipertensão e colesterol alto , que aumentam o risco cardiovascular " , avisa Montenegro.Por

fim , Rezende destaca que o desenvolvimento econômico de os municípios apareceu como um fator relevante em a análise .

" As cidades de maior renda estão mais adiantadas em a transição epidemiológica em relação a os municípios de menor renda " , compara ele .

Segundo o especialista , diversas explicações possíveis para essa diferença . " Não podemos ignorar aqui os chamados determinantes sociais de a saúde . A menor renda está associada a a dificuldade de acesso a o diagnóstico e a o tratamento adequados .

Em esses locais , também maior exposição a o cigarro e a os alimentos ultraprocessados " , avalia ele .

" Em suma , isso significa que essas regiões se beneficiariam muito de políticas públicas que aumentassem o acesso a o diagnóstico e a o tratamento , com quedas ainda mais acentuadas em a mortalidade por doenças cardiovasculares " , antevê o pesquisador .

O próprio artigo recém-publicado , inclusive , reforça " a necessidade urgente de o Brasil modificar suas estratégias de saúde pública , enfatizando a prevenção e o controle de o câncer sem negligenciar as doenças cardiovasculares " .

" E as disparidades socioeconômicas evidentes em o ritmo de transição entre os municípios ressaltam a importância de intervenções personalizadas " , concluem os autores .

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