Representação em texto

Como procedimento feito em Lula pode salvar pacientes de infarto, dores crônicas e até câncer

IDTEJ_0962
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2024/12/12/como-procedimento-feito-em-lula-pode-salvar-pacientes-de-infarto-dores-cronicas-e-ate-cancer.ghtml
TítuloComo procedimento feito em Lula pode salvar pacientes de infarto, dores crônicas e até câncer
SubtítuloA evolução das técnicas de radiologia intervencionista permite encontrar soluções para doenças graves, sem a necessidade de partir para cirurgias abertas. Os métodos minimamente invasivos prometem uma recuperação mais rápida e uma redução de custos.
Ano2024
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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A ideia é simples : com o auxílio de métodos de imagem , como os raios-X ou a tomografia , médicos guiam fios e cateteres por vasos sanguíneos até chegar a um local de o corpo que está doente para realizar algum tipo de intervenção .

Essas técnicas , relativamente novas em a medicina , são usadas hoje para tratar as mais variadas doenças de infarto e AVC a próstata inchada , dor e até alguns tipos de câncer .

Alguns métodos permitem ainda corrigir disfunções durante a gestação , em bebês que ainda estão em a barriga .

Aliás , o próprio presidente Luiz Inácio Lula de a Silva ( PT ) , de 79 anos , foi submetido em a quinta-feira ( 12/12 ) a um procedimento de o tipo a embolização para evitar novas hemorragias e hematomas em o crânio após sofrer um acidente doméstico e bater a cabeça .

Graças a os avanços em a tecnologia , a chamada radiologia intervencionista é cada vez mais usada como uma ferramenta terapêutica minimamente invasiva .

Por meio de pequenos furos em a pele , ela permite lidar com enfermidades que , muitas vezes , antes necessitavam de uma cirurgia de larga escala , de peito aberto , cuja frequência de complicações costuma ser mais alta , com uma recuperação lenta e custosa .

Entenda a seguir como essa especialidade evoluiu em os últimos anos e quais são as principais limitações e dificuldades de acesso que ela apresenta hoje .

Embolização de artéria meníngea média : entenda procedimento realizado em Lula Cirurgia de Lula : entenda como funciona procedimento médico para tratar hematomas cerebrais

Uma viagem por veias e artérias

O médico Rodrigo Gobbo , diretor de o Centro de Medicina Intervencionista de o Hospital Israelita Albert Einstein , em São Paulo , diz que o nome " radiologia intervencionista " surgiu em meados de os anos 1970 .

" Em essa época , um radiologista americano chamado Alexander Margulis profetizou que essa área permitiria fazer não apenas diagnósticos , mas também seria capaz de realizar procedimentos minimamente invasivos . E foi isso que aconteceu em as décadas seguintes " , contextualiza ele .

Naturalmente , as primeiras intervenções minimamente invasivas foram feitas em a cardiologia afinal , veias e artérias são usadas como as vias para a passagem de os cateteres .

" Hoje , a cardiologia intervencionista pode ser dividida em dois grandes grupos . Primeiro , em o tratamento de a doença arterial coronária , que é o problema de saúde que mais mata em o mundo " , explica a médica Claudia Maria Rodrigues Alves , de o Hcor , também em a capital paulista .

" O segundo grupo são as doenças estruturais de o coração , como as disfunções em válvulas cardíacas " , complementa ela .

As primeiras intervenções de essa especialidade envolviam cateteres e balões .

Em resumo , os especialistas inseriam um fio por uma veia ou uma artéria . Ele era guiado até um local que apresentava uma placa de gordura importante , que atrapalhava ou chegava até a bloquear a passagem de sangue . De eles inflavam um balão , para " esmagar " essa placa e restabelecer a circulação .

Com o passar de o tempo , essa técnica evoluiu com o surgimento de os stents . Basicamente , eles são pequenas estruturas metálicas ou bioabsorvíveis .

Esse material é levado até a região que apresenta o bloqueio como as artérias coronárias , que irrigam o coração , por exemplo e se abrem ali para garantir a passagem de o sangue novamente .

Esse método permitiu substituir em a grande maioria de os casos os procedimentos mais antigos , como as famosas pontes de safena , uma cirurgia que envolvia abrir o peito de o paciente , expor o coração , e costurar uma veia ali para garantir a passagem de o sangue .

" Em o caso de a síndrome coronariana aguda , o infarto de o miocárdio , hoje em dia nem se cogita levar o paciente para a cirurgia " , conta Alves .

" O tratamento percutâneo [ chamado popularmente de cateterismo ] revolucionou a doença e permitiu reduzir a mortalidade . Quanto mais precocemente ele é feito , melhores são os resultados " , complementa ela .

Um princípio parecido começou a ser usado mais recentemente para lidar com alguns casos de acidente vascular cerebral ( AVC ) isquêmico , quando o bloqueio de um vaso sanguíneo em a cabeça .

Em a chamada trombectomia mecânica , médicos guiam os cateteres até a região afetada de o cérebro , perfuram a placa de gordura , abrem uma estrutura metálica e " arrastam " para fora de o corpo o material que provocou o entupimento .

O segundo grupo de intervenções citado por Alves envolve as doenças estruturais de o coração .

Hoje em dia , os profissionais de saúde conseguem trocar as válvulas cardíacas estruturas que separam átrios e ventrículos , as câmaras de o músculo cardíaco sem a necessidade de grandes cortes ou suturas .

Uma nova válvula é introduzida e instalada por meio de cateteres , a partir de um único furo , geralmente feito em a virilha ou em o braço .

" As vantagens de esses tratamentos são a rápida recuperação , uma menor necessidade de transfusão sanguínea e uma diminuição de o risco de comorbidades , como insuficiência renal . Todos esses pontos são muito importantes para o paciente " , lista Alves .

Durante a gravidez em recém-nascidos

Algumas de as técnicas de a radiologia intervencionista são aplicadas até mesmo durante a gestação e permitem corrigir malformações em bebês que ainda estão em a barriga de a mãe .

O cardiologista e ecocardiografista Gustavo Fávaro , coordenador de o setor de Ecocardiografia e Cardiologia Fetal de o Sabará Hospital Infantil , em São Paulo , explica que , durante o desenvolvimento , algumas crianças não desenvolvem as válvulas de o coração como esperado .

" Esses bebês podem nascer com o pulmão muito machucado e em uma situação de emergência " , destaca ele .

Para evitar isso , é possível partir para a intervenção fetal . " Por meio de uma agulha , conseguimos chegar a o coração de o feto e , com o auxílio de um cateter e um balão , abrimos um buraquinho em a região que apresenta o problema " , detalha Fávaro .

Durante o procedimento , um especialista em medicina fetal deixa o bebê em uma posição adequada . Em a sequência , o cardiologista insere a agulha em o abdômen materno , ultrapassa o útero , fura o tórax de o bebê e realiza a intervenção em as câmaras cardíacas .

" Precisamos ser muito precisos , pois cuidamos de estruturas de dois ou três milímetros " , calcula ele .

Alguns procedimentos minimamente invasivos também podem ser feitos após o parto , em os primeiros dias de vida de o recém-nascido .

Fávaro avalia que essa área de a medicina avançou tanto que chegou praticamente a um mundo ideal .

" Eu não vislumbro grandes inovações para os próximos anos , porque realmente estamos em uma situação muito boa " , entende ele .

" O que precisamos agora é fazer com que mais pacientes tenham a chance de receber esse tratamento . a necessidade de melhorar o diagnóstico de problemas cardíacos durante a gestação " , pontua o médico .

Acesso inédito a os tumores

Além de as moléstias que afetam o coração , a radiologia intervencionista se expandiu por diversas outras áreas de a saúde .

Um exemplo de isso é o câncer . " Hoje podemos navegar por os vasos e entregar medicações em altas doses em o local onde está a doença " , cita Gobbo .

Isso permite potencializar o efeito de o remédio , que praticamente a dose inteira de ele chega até o lugar onde precisa agir quando um fármaco é ingerido ou injetado , ele passa por diversos processos de metabolização , e parte de o princípio ativo se perde por o caminho .

" Também é possível fechar artérias que estão nutrindo o tumor , para ' matá lo ' de fome e de falta de oxigênio " , complementa o médico .

diversas outras possibilidades aqui , como , por exemplo , levar por meio de cateteres partículas radioativas para o interior de o tumor , para que elas atuem apenas em as células doentes e poupem as unidades saudáveis de o organismo .

Também existem outros equipamentos usados em procedimentos minimamente invasivos que conseguem congelar ou aquecer o tumor , outras maneiras de destruí lo .

" Todos esses tratamentos atuam de forma sinérgica com as demais terapias , como a quimioterapia , a radioterapia e a imunoterapia " , complementa Gobbo .

Para o médico , a radiologia intervencionista está se tornando " um quarto pilar em o tratamento contra o câncer " .

" Mas é preciso lembrar que , em uma doença tão complexa como essa , nunca vai existir uma panaceia , ou um único remédio que vai curar tudo . Precisamos pensar de forma personalizada , em o melhor tratamento para cada paciente , para aliar tecnologias e compor estratégias multidiscplinares " , pondera ele .

Para o médico Lucas Monsignore , presidente eleito de a Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular ( Sobrice ) , a abordagem minimamente invasiva traz uma série de vantagens .

" Uma cirurgia convencional de retirada de tumor leva cerca de quatro horas . uma intervenção guiada por imagem costuma demorar uma hora e meia " , estima ele .

" Em uma operação , o paciente precisa ficar internado por por o menos três ou quatro dias . Em o procedimento por cateteres , ele muitas vezes recebe alta em o mesmo dia " , complementa .

Monsignore destaca que a abordagem minimamente invasiva também está relacionada a menos sangramentos e uma menor necessidade de transfusões de sangue .

E tudo isso , segundo ele , traz um impacto em os custos .

" Quando eu olho apenas o tratamento , a medicina intervencionista ainda tem um preço mais alto por causa de os materiais utilizados " , diz ele .

" Mas , quando você coloca em a balança o tempo de internação , as complicações cirúrgicas e os dias de afastamento de o trabalho , os procedimentos minimamente invasivos ficam mais baratos " , argumenta o especialista .

Dor , acidentes , próstata inchada

Francisco César Carnevale , médico-chefe de o Serviço de Radiologia Intervencionista de o Instituto de Radiologia ( InRad ) de o Hospital de as Clínicas de São Paulo , destaca a versatilidade de os procedimentos minimamente invasivos .

" Onde o cateter consegue chegar , nós podemos atuar . Eu posso ir até a ponta de o dedinho de a mão sem fazer um corte " , diz ele .

Ainda que veias e artérias sejam o principal caminho para mover os cateteres por o organismo , é possível utilizar outros meios .

Uma alternativa são os vasos linfáticos , que fazem parte de nosso sistema imunológico . Outras envolvem agulhas inseridas diretamente em o local de interesse sempre com o auxílio de os exames de imagem , como a radiografia , a tomografia , a ressonância magnética ou o ultrassom .

Além de as doenças cardíacas , de o câncer e de os problemas em a gestação , a radiologia intervencionista pode ser usada para " silenciar " nervos excessivamente sensíveis , que causam muita dor em uma pessoa .

" Imagine também o caso de um acidente , em que a vítima apresenta um sangramento importante em o fígado . Em vez de abrir a barriga , eu posso fazer um cateterismo . Por meio de uma tomografia ou um ultrassom , vejo onde está sangrando e entupo a passagem de sangue por aquela região " , exemplifica Carnevale .

" Trata se de uma agressão menor a o corpo e um tratamento muito mais eficaz " , avalia o especialista .

O próprio Carnevale , aliás , desenvolveu um método minimamente invasivo para tratar um problema muito comum em homens com mais de 50 anos : a hiperplasia prostática benigna .

Essa condição , que não tem nada a ver com o câncer , é marcada por o inchaço de a próstata . Com isso , a glândula " estrangula " a uretra e dificulta a passagem de urina . Muitos indivíduos acometidos por o quadro apresentam uma grande dificuldade de ir a o banheiro para urinar .

" Os tratamentos tradicionais , que funcionam muito bem , retiram cirurgicamente o ' miolo ' de a próstata . O problema é que eles são agressivos , causam sangramentos , exigem anestesia geral e aumentam o risco de impotência sexual e incontinência urinária " , observa ele .

" Nós desenvolvemos aqui em o Hospital de as Clínicas o método de embolização de a próstata . Por meio de a radiologia intervencionista , eu com si obstruir a passagem de sangue para algumas regiões internas de a glândula .

" Fechar esses vasos sanguíneos não afeta em nada a circulação local e traz a vantagem de deixar a próstata mais " macia " .

O resultado de isso é um aperto menor de a uretra , aliviando a saída de a urina . " O procedimento é feito com anestesia local .

O paciente chega de manhã e vai embora em o começo de a tarde , andando por conta própria , sem risco de disfunção erétil e incontinência urinária " , informa Carnevale , que recentemente se tornou o primeiro médico de a América Latina a receber uma medalha de a Sociedade Europeia de Intervenção Radiológica e Cardiovascular por o desenvolvimento de esse tipo de embolização .

Limitações e barreiras

Ainda que a medicina intervencionista traga uma série de pontos positivos , os médicos ouvidos por a BBC News Brasil citaram algumas barreiras em o uso de as técnicas .

" Para determinadas doenças , especialmente o câncer , ainda existem limitações em o uso de a radiologia intervencionista para os casos mais avançados " , diz Monsignore .

" Em pacientes com insuficiência renal ou que usam alguns tipos de marcapasso , também contra-indicações a esses procedimentos " , complementa ele .

Em o caso de a doença em os rins , o grande problema é que os médicos precisam injetar o contraste feito de iodo em os vasos sanguíneos de o paciente para poder enxergar as estruturas de o corpo em os exames de imagem .

E esse iodo em excesso pode representar uma carga extra de trabalho para rins que não estão funcionando adequadamente .

Em o entanto , para os especialistas , a principal limitação para a maior popularização de a radiologia intervencionista é a falta de acesso , especialmente em a saúde pública .

" As técnicas estão disponíveis , mas precisamos de mais hospitais equipados e médicos capacitados para realizar essas intervenções " , acredita Carnevale .

" Não tenho dúvida de que os procedimentos minimamente invasivos são a Medicina de o presente e de o futuro " , garante ele .

" Estamos trabalhando agora para mostrar que a incorporação de essas técnicas é algo custo-efetivo e pode significar uma economia de recursos em o Sistema Único de Saúde " , conclui Gobbo .


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