Representação em texto

O mundo está ficando mais quente — e isso está afetando nossos cérebros

IDTEJ_0943
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2025/12/28/o-mundo-esta-ficando-mais-quente-e-isso-esta-afetando-nossos-cerebros.ghtml
TítuloO mundo está ficando mais quente — e isso está afetando nossos cérebros
SubtítuloOndas de calor têm se tornado mais intensas com as mudanças climáticas e cientistas buscam entender como o calor extremo muda a forma que o nosso cérebro funciona
Ano2025
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaSaúde
PropósitoNoticiar

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Quando Jake tinha apenas cinco meses de idade , ele teve sua primeira convulsão de o tipo tônico-clônica seu corpinho enrijeceu e ele começou a se debater rapidamente .

" Estava muito quente em o dia e ele sofreu uma hipertermia . Testemunhamos o que achávamos ser a coisa mais assustadora que veríamos em a vida " , declarou a mãe de Jake , Stephanie Smith . " Infelizmente , não foi . "

As convulsões começaram a se repetir sempre que fazia calor . Com a chegada de os dias abafados e úmidos de o verão , a família recorria a todo tipo de método para tentar manter Jake fresco , travando uma verdadeira batalha para conter as convulsões .

A os 18 meses , após um teste genético , Jake foi diagnosticado com a Síndrome de Dravet , uma condição neurológica que inclui um tipo de epilepsia e afeta cerca de 15 mil crianças .

As convulsões costumam vir acompanhadas de deficiência intelectual e várias comorbidades , como autismo e TDAH , além de dificuldades em a fala , mobilidade , alimentação e sono . O calor intenso e mudanças bruscas de temperatura podem desencadear uma crise .

Jake hoje tem 13 anos , e passou por incontáveis convulsões a o longo de os anos , sempre que o clima muda .

" Verões cada vez mais quentes e ondas de calor têm agravado ainda mais o desafio de conviver com essa condição , que é devastadora por si " , afirma Stephanie .

A Síndrome de Dravet é apenas uma de as muitas doenças neurológicas que se agravam com o aumento de as temperaturas , diz Sanjay Sisodiya , de a University College London , um de os pioneiros em o estudo de os impactos de as mudanças climáticas sobre o cérebro .

Como neurologista especializado em epilepsia , ele ouve com frequência relatos de a família de seus pacientes contando que as crises pioram durante ondas de calor .

" E eu pensei comigo mesmo : claro , por que as mudanças climáticas não afetariam o cérebro ? ' Em o fim de as contas , muitos processos cerebrais estão envolvidos em a forma como o corpo lida com o calor . "

A o se aprofundar em a literatura científica , Sisodiya descobriu uma série de condições neurológicas que são agravadas por o aumento de a temperatura e de a umidade , incluindo epilepsia , acidente vascular cerebral ( AVC ) , encefalite , esclerose múltipla , enxaqueca , entre outras .

Ele também identificou que os efeitos de as mudanças climáticas sobre o cérebro humano estão se tornando visíveis .

Durante a onda de calor que atingiu a Europa em 2023 , por exemplo , cerca de 7 % de as mortes adicionais estavam relacionadas diretamente a problemas neurológicos .

Percentuais semelhantes foram vistos durante a onda de calor em o Reino Unido em 2022 .

Mas o c alor também pode alterar a forma como nosso cérebro funciona , em os deixando mais violentos , irritados e depressivos .

Assim , diante de um planeta que continua esquentando por causa de as mudanças climáticas , qual impacto de isso sobre o nosso cérebro ?

Agravamento de condições neurológicas

O cérebro humano , em média , raramente ultrapassa 1°C acima de a temperatura corporal .

Ainda assim , por ser um de os órgãos que mais consomem energia em o nosso corpo , ele produz uma quantidade considerável de calor próprio enquanto pensamos , lembramos de informações e reagimos a o mundo a o nosso redor .

Isso significa que o corpo precisa trabalhar duro para manter o cérebro resfriado . A circulação sanguínea , por meio de uma complexa rede de vasos , ajuda a manter essa temperatura , levando embora o calor em excesso .

Isso é necessário porque as células cerebrais são extremamente sensíveis a o calor . E o funcionamento de algumas moléculas responsáveis por transmitir mensagens entre essas células também parece depender de a temperatura , ou seja , ela s param de trabalhar de forma eficiente se o cérebro estiver muito quente ou muito frio .

" Nós não compreendemos totalmente como os diferentes elementos de esse quadro complexo são afetados " diz Sisodiya . " Mas podemos pensar em isso como um relógio cujos componentes deixem de funcionar em harmonia .

"

Embora temperaturas extremas alterem a forma como nosso cérebro trabalha podendo , por exemplo , afetar nossa capacidade de tomar decisões e em os levar a assumir mais riscos quem tem alguma condição neurológica costuma ser mais gravemente impactado . Isso ocorre por muitas razões .

Em algumas doenças , por exemplo , a capacidade de suar pode ficar comprometida .

" A termorregulação é uma função de o cérebro e pode ser prejudicada se certas partes de o cérebro não estiverem funcionando adequadamente " , diz Sisodiya .

em alguns tipos de esclerose múltipla , a temperatura central de o corpo parece ser alterada .

Além de isso , alguns medicamentos para condições psiquiátricas e neurológicas , como a esquizofrenia , afetam a regulação de a temperatura , tornando a pessoa mais vulnerável a a insolação ou hipertermia , como é chamada clinicamente , e aumentando o risco de morte relacionada a o calor .

As ondas de calor especialmente quando acompanhadas de temperaturas elevadas durante a noite p odem prejudicar o sono , afetar o humor e potencialmente piorar os sintomas de algumas condições de saúde .

" Para muitas pessoas com epilepsia , uma noite mal dormida pode aumentar o risco de ter uma convulsão " , afirma Sisodiya .

Evidências apontam que internações hospitalares e taxas de mortalidade entre pessoas com demência também aumentam durante ondas de calor .

Parte de isso se deve a a idade pessoas mais velhas têm mais dificuldade de regular a temperatura corporal , mas o comprometimento cognitivo também pode dificultar a adaptação a o calor extremo .

Eles podem , por exemplo , não se hidratar o suficiente , esquecer de fechar as janelas , ou sair de casa em horários que não deveriam .

Aumento de casos de AVC

O aumento de a temperatura também tem sido associado a o crescimento de casos e mortes por AVC . Em um estudo que analisou dados de mortalidade por AVC em 25 países , pesquisadores descobriram que , a cada 1.000 mortes , os dias mais quentes contribuíam para duas mortes adicionais .

" Pode não parecer muito , mas considerando que cerca de sete milhões de mortes por AVC por ano em o mundo , o calor pode estar contribuindo para mais de 10 mil mortes adicionais anualmente " , explica Bethan Davies , geriatra em a University Hospitals Sussex , em o Reino Unido .

Ela e os coautores de o estudo alertam que as mudanças climáticas tendem a agravar esse cenário em os próximos anos .

Um parte desproporcional de o impacto de o calor em casos de AVCs recaíra sobre países de baixa e média renda que são mais afetados por as mudanças climáticas e registram as maiores taxas de a doença .

" O aumento de as temperaturas vai intensificar as desigualdades em saúde , tanto entre países quanto entre grupos sociais " , diz Davies .

Um número crescente de evidências indica que pessoas mais velhas e aquelas em situação socioeconômica vulnerável correm mais risco de morrer em decorrência de o calor externo .

Partos prematuros

O mundo mais quente também está afetando o neurodesenvolvimento de os mais jovens .

" Existe uma ligação entre calor extremo e resultados adversos em a gravidez , como partos prematuros " , afirma Jane Hirst , professora de Saúde Global de a Mulher em o Imperial College London .

Uma revisão sistemática recente de a literatura científica concluiu que ondas de calor estão associadas a um aumento de 26 % em a ocorrência de partos prematuros , que podem levar a atrasos em o desenvolvimento neurológico e prejuízos cognitivos .

" Em o entanto , muitas coisas que a gente ainda não sabe " , acrescenta Hirst .

" Quem é mais vulnerável e por quê ? Afinal , 130 milhões de mulheres que tiveram bebês este ano , muitas de elas em países quentes , e isso não acontece com elas . "

O calor excessivo causado por as mudanças climáticas também pode sobrecarregar o cérebro , deixando o mais vulnerável a danos que podem levar a o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas .

O calor ainda afeta a barreira hematoencefálica , que normalmente protege o cérebro , tornando o mais permeável e aumentando o risco de que toxinas , bactérias e vírus entrem em o tecido cerebral .

Essa questão pode se tornar ainda mais crítica a a medida que as temperaturas sobem , que o aumento de calor favorece a expansão de mosquitos que transmitem vírus capazes de causar doenças neurológicas , como Zika , chikungunya e dengue .

" O vírus Zika pode afetar o feto e causar microcefalia " , explica Tobias Suter , médico entomologista de o Instituto Suíço de Saúde Pública e Tropical .

" Com o aumento de as temperaturas e invernos mais amenos , a temporada de reprodução de os mosquitos começa mais cedo em o ano e termina mais tarde .

"

Ondas de calor podem influenciar em vários fatores , desde a atividade elétrica de as células nervosas até o risco de suicídio , ansiedade climática e a estabilidade de medicamentos usados em o tratamento de condições neurológicas . Mas os efeitos de as altas temperaturas sobre o cérebro ainda estão sendo investigados por os cientistas .

O calor afeta as pessoas de diferentes formas algumas se adaptam bem , enquanto outras consideram insuportável .

" Vários fatores podem explicar essa sensibilidade diferente , e um de eles pode ser a predisposição genética " , afirma Sisodiya .

Variações genéticas podem influenciar as estruturas de proteínas que deixam algumas pessoas mais vulneráveis a os impactos de as mudanças climáticas .

" Pode haver fenótipos termo-latentes que apenas irão se manifestar quando essas pressões ambientais forem suficientes para trazê los a a tona " , disse .

" O que estamos observando hoje em as pessoas com distúrbios neurológicos pode se tornar relevante para pessoas sem distúrbios neurológicos a a medida que as mudanças climáticas avançam . " Ainda muitas perguntas sem resposta .

É a temperatura máxima , a duração de a onda de calor ou a temperatura noturna que tem o maior impacto sobre o cérebro ? A resposta pode variar de pessoa para pessoa ou de acordo com a condição neurológica .

Mas identificar quem está em risco e por quê é essencial para desenvolver estratégias para proteger os mais vulneráveis .

Isso pode incluir a criação de sistemas de alerta precoce ou seguros que compensem trabalhadores por a perda de renda em dias de calor extremo . " A era de o aquecimento global acabou , a era de a ebulição global chegou " , anunciou o secretário-geral de a ONU , António Guterres , quando julho de 2023 foi confirmado o mês mais quente registrado .


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