Representação em texto

O pequeno inseto de 1 mm que salvou economia de um país

IDTEJ_0551
LínguaPortuguês brasileiro
FonteG1
Linkhttps://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2020/12/28/o-pequeno-inseto-de-1-mm-que-salvou-economia-de-pais.ghtml
TítuloO pequeno inseto de 1 mm que salvou economia de um país
SubtítuloAntes de os pesticidas químicos serem inventados, os agricultores dependiam de predadores locais para controlar as pragas que devastavam plantações, mas agora a prática está sendo revitalizada.
Ano2020
CorpusTEJ
DomínioJornalístico
TemaEconomia
PropósitoNoticiar

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Espalhados entre as florestas com alta biodiversidade de o Sudeste Asiático , milhões de fazendeiros tiram seu sustento de o cultivo de mandioca . Essa safra comercial cultivada tanto por pequenos agricultores que possuem apenas um ou dois hectares de terra , quanto por fazendas industriais que se estendem por milhares de hectares é vendida sobretudo para fabricantes que usam o amido de o tubérculo em plásticos e colas .

Quando a mandioca foi importada por a primeira vez de a América de o Sul para o Sudeste Asiático ( como aconteceu com a África algumas décadas antes ) , ela era capaz de ser cultivada sem a ajuda de pesticidas .

Mas , em 2008 , um inseto chamado cochonilha acompanhou o tubérculo até a região e começou a devastar as lavouras . Para compensar as perdas , agricultores começaram a avançar por a floresta em o entorno de seus terrenos em a tentativa de obter uma produção um pouco maior em suas terras .

" Algumas de essas áreas estão sob pressão significativa de o desmatamento " , afirma Kris Wyckhuys , especialista em controles biológicos de o Instituto de Proteção de Plantas de a Academia Chinesa de Ciências Agrícolas em Pequim .

" O Camboja tem uma de as taxas mais altas de desmatamento tropical " , acrescenta .

A chegada de a cochonilha não teve um grande impacto em o sustento de aqueles que cultivam mandioca , como também afetou as economias de os países de a região e pode ter reverberado em outros lugares .

Produtos alternativos em o mercado de amido , como milho e batata , aumentaram de preço . O preço de a fécula de mandioca triplicou em a Tailândia o maior exportador mundial de o produto .

" Quando um inseto reduz a produção agrícola em 60-80 % , você tem um grande choque " , diz Wyckhuys .

A solução foi encontrar o inimigo natural de a cochonilha , uma vespa parasita de 1 mm de comprimento ( Anagyrus lopezi ) , em sua terra natal , a América de o Sul .

Essa vespa é extremamente seletiva em o uso de a cochonilha como hospedeiro de suas larvas . Em o fim de 2009 , ela foi introduzida em as áreas de cultivo de mandioca em a Tailândia e começou a agir sobre as cochonilhas .

Não informações detalhadas sobre quão rápido a vespa conteve a população de cochonilhas em o país . Mas , em meados de 2010 , " as vespas parasitas estavam sendo criadas a os milhões e liberadas em massa em toda a Tailândia , inclusive por avião , e podemos supor que seu impacto sobre as populações de cochonilhas pôde ser sentido com bastante rapidez " , afirma Wyckhuys .

Quando a mesma vespa foi usada para controlar as cochonilhas em a África Ocidental em o início de os anos 1980 , ela suprimiu imediatamente os níveis de a praga de mais de 100 em cada extremidade de a mandioca para menos de 10-20 .

Menos de três anos depois , a vespa havia se dispersado efetivamente por mais de 200 mil km² em o sudoeste de a Nigéria e podia ser encontrada em a grande maioria de as plantações de mandioca de a área .

Esse tipo de intervenção é denominado controle biológico clássico . Você encontra um predador natural e o introduz em uma plantação para conter a propagação de uma praga .

Wyckhuys calcula o benefício econômico para os agricultores em 26 países de a Ásia-Pacífico em cerca de US$ 14,6 bilhões a US$ 19,5 bilhões por ano .

" A ação de uma vespa de 1 mm ajudou a resolver um impacto financeiro significativo em o mercado global de amido " , diz ele .

Nosso conhecimento sobre os benefícios que o predador certo pode trazer para terras agrícolas remonta a centenas de anos , embora o biocontrole tenha saído de moda em as práticas agrícolas modernas .

" O controle biológico foi o padrão por milhares de anos , então é engraçado pensar em isso como algo novo " , diz Rose Buitenhuis , cientista de a organização científica independente de horticultura , Vineland Research and Innovation Centre , em Ontário , em o Canadá .

Se o controle biológico pode ser tão bem-sucedido , por que agora é um método pouco usado em o combate a pragas ? O que acontece quando errado ? E por que os pesquisadores estão fazendo pressão para mudar isso ?

Para as civilizações pré-colombianas de a Mesoamérica , os sapos-cururu existiam em algum lugar entre a vida e a morte e eram reverenciados como mediadores de o submundo . Os anfíbios produzem uma toxina poderosa capaz de induzir experiências alucinógenas que os sacerdotes usavam em rituais para se comunicar com seus ancestrais mortos .

A civilização maia é famosa por cultuar cobras e aves de rapina , que aparecem em exemplares primorosos de a arte Mesoamericana . Mas os maias e outros povos indígenas também retrataram o sapo em seu artesanato , muitas vezes sorrindo alegremente como se estivesse desfrutando de os efeitos de sua própria toxina psicodélica .

Os maias esculpiram sapos e rãs em potes e vasos . Como animais semiaquáticos e arautos de a chuva essenciais para a saúde de as plantações eles eram sinônimo de água e , portanto , de vida . A metamorfose de os ovos em girinos e sapos indicava o início de a estação de as chuvas , emergindo de a água como se emergisse de o mundo subterrâneo .

O sapo também era visto como um aliado poderoso para manter afastadas as pragas que destroem as plantações . Eles eram bem-vindos em milharais e silos , onde agiam como predadores naturais de besouros e pequenos roedores que podiam dizimar uma plantação .

Mas a mesma neurotoxina , a bufotenina , que os sacerdotes usavam como alucinógeno também era a principal defesa de o sapo-cururu contra seus próprios predadores e é venenosa o suficiente para matar um ser humano se ele for descuidado .

Os povos indígenas de a Mesoamérica compreenderam a dualidade de o mundo natural . O sapo-cururu representava tanto a vida quanto a morte . Pintado em um vaso maia está um sapo-cururu que apresenta uma bandeja com um olho , osso e mão humanos para um jaguar e uma serpente que dançam alegremente em o submundo .

Os maias respeitavam o poder de o sapo e saudavam sua presença . Eles também sabiam que mexer com a natureza pode ter consequências perigosas .

O sapo-cururu é odiado em a Austrália . Importado de as Américas como um biocontrole em 1935 , ele prosperou em seu novo ambiente , as plantações de cana-de-açúcar em o nordeste de o país . A abundância de sua presa favorita , o besouro-da-cana , junto com outros insetos australianos nativos , e a ausência de predadores adequados , levaram a um boom de sapos-cururu .

Em 2007 , estimou se que o sapo-cururu cobria cerca de 1,2 milhão de quilômetros quadrados de selva australiana , com 1,5 bilhão de representantes de a sua espécie . E é provável que seu alcance aumente com as mudanças climáticas .

O resultado foi devastador . As populações de predadores despencaram espécies que normalmente se alimentariam de sapos nativos , como quolls , um tipo de marsupial , e goannas , um lagarto-monitor grande , morreram por causa de a toxina de o sapo-cururu . O governo australiano e ativistas locais destroem milhões de sapos todos os anos .

A reputação de o sapo-cururu é tão ruim em o país que o drama de o anfíbio tem sido tema de livros infantis irônicos .

" Os sapos foram soltos contrariando os pareceres científicos de a época " , afirma Wyckhuys .

Liberar os sapos " era algo que nunca deveria ter sido feito e é totalmente impossível em o biocontrole moderno você não libera predadores vertebrados generalistas , polífagos . Não é um alerta vermelho pequeno , é um alerta vermelho enorme " .

O sapo-cururu não está sozinho . por o menos dez casos de biocontroles que se tornaram espécies invasoras a o longo de a história . Em a Segunda Guerra Mundial , as forças japonesas e aliadas liberaram peixes-mosquitos para atacar larvas de mosquitos em a tentativa de reduzir a propagação de a malária entre as tropas em as ilhas de o Pacífico .

Esses pequenos peixes de aparência inofensiva são agora uma espécie invasora em aquela área , onde se dispersaram rapidamente e desbancaram as espécies locais . O mesmo se aplica a a joaninha asiática em a Europa , introduzida para controlar afídeos .

Como resultado de desfechos como esses , o uso de controles químicos pesticidas ganhou força em a primeira metade de o século 20 . Mas , com um punhado de exceções , a imagem controversa de os biocontroles é amplamente infundada . As introduções bem-sucedidas de biocontroles superam as falhas em por o menos 25 vezes .

Por isso , alguns pesquisadores estão tentando mudar agora a percepção em relação a os controles biológicos . E dizem que os dias de os pesticidas estão contados .

Será o fim de os pesticidas ?

" Os controles químicos resolveram muitos problemas em as décadas de 1930 , 1940 e 1950 " , diz Buitenhuis .

" Os agricultores não precisavam trabalhar tanto . Eles podiam simplesmente ir até o armário , pegar um spray e as pragas morreriam . "

O problema com os controles químicos é que as espécies de pragas se reproduzem rapidamente , o que significa que um indivíduo resistente a um pesticida pode produzir descendentes resistentes muito rápido .

Os produtores de pesticidas precisam então aperfeiçoar constantemente seus produtos apenas para estar a a altura de a praga o que Buitenhuis chama de esteira de a resistência a pesticidas , e é conhecido em outros lugares como " efeito Rainha Vermelha " , em referência a a personagem de " Alice Através de o Espelho " .

O número de pesticidas disponíveis para os agricultores está se esgotando . Em 2018 , três inseticidas de uma classe de substâncias químicas chamadas neonicotinoides foram proibidos de forma definitiva por a União Europeia , tendo seu uso severamente restringido em 2013 .

Esses produtos químicos , que têm uma estrutura semelhante a a de a nicotina , revestem as sementes para protegê las de pragas em o solo . Em o entanto , conforme a plantação cresce , o pesticida é absorvido e se espalha por todo o tecido de a planta , se acumulando em o pólen e em o néctar . Polinizadores selvagens e domesticados que se alimentam de essas plantas são então expostos a o pesticida .

Os críticos de a proibição apontam que limitar os pesticidas para o tratamento de sementes pode acabar levando a a sua substituição por pesticidas em spray , que podem ser igualmente prejudiciais para os polinizadores e são mais caros para os agricultores .

" uma grande variedade de fatores sociais e ecológicos negativos associados a os pesticidas " , diz Wyckhuys .

" De os gases de efeito estufa usados ​​para produzir e distribuir produtos químicos emissões significativas de gases de o efeito estufa a as implicações para a saúde de os agricultores e consumidores . Os impactos não se restringem apenas a as plantações ou a as fazendas , mas são amplificados por a paisagem [ por lixiviação ] , propagados por a água ou poeira , absorvidos em o ar por aerossóis .

" Resíduos de pesticidas foram encontrados em a floresta nublada de a Costa Rica e em a Grande Barreira de Corais em a Austrália .

E quando os pesticidas aparecem em o lugar errado , eles se tornam biocidas algo que mata a vida . A o contaminar o meio ambiente a o redor de as terras agrícolas , eles simplificam comunidades biológicas e degradam ecossistemas .

O que atrai os cientistas , como Wyckhuys , em a técnica de biocontrole é que sua aplicação pode ser muito mais direcionada . Caroline Reid , líder técnica de a Bioline Agrosciences , produtora de controle biológico em o Reino Unido , concorda .

Se você somar a a especificidade de os biocontroles a redução em o número de produtos químicos seguros para uso e o incentivo a a agricultura sustentável por toda a União Europeia , você vai entender por que os biocontroles estão ganhando cada vez mais força .

Mas como eles funcionam ?

Controles biológicos basicamente três tipos de biocontroles : predadores , parasitoides e patógenos . Sapos-cururu são um exemplo de biocontrole predatório .

Eles se alimentam de besouro-da-cana , mas infelizmente não são muito exigentes ( são " polífagos " ) , e em a Austrália começaram a se alimentar de outros insetos nativos que não eram pragas . Os parasitoides são um pouco mais macabros .

Frequentemente , esse tipo de biocontrole é feito por espécies de vespas ou moscas parasitas que colocam seus ovos dentro de lagartas ou besouros apenas para que as larvas resultantes escapem de o abdômen de o hospedeiro , matando o em o processo . os patógenos podem assumir a forma de fungos , vírus ou bactérias que matam ou tornam seu hospedeiro infértil . Eles tendem a ter como alvo espécies bastante específicas de pragas , o que os torna uma escolha popular para pesquisas modernas de biocontrole , uma vez que um risco menor de atacarem outras espécies inofensivas com consequências indesejadas .

Embora , como todos nós descobrimos recentemente , os vírus podem de vez em quando saltar de espécies com bastante sucesso .

Biocontroles bem-sucedidos devem ter uma alta taxa de reprodução , para que possam se multiplicar rapidamente a o detectar uma praga , ser bem específicos em o que se refere a as espécies que têm como alvo e capazes de buscar suas presas com eficiência . Em a prática , nenhum controle biológico é perfeito .

Então , os pesquisadores pesam os riscos associados a cada um de eles .

ainda três maneiras como os controles biológicos podem ser aplicados a uma plantação : clássica , de conservação e abordagem aumentada .

O sapo-cururu é um exemplo ( embora um tanto ruim ) de o biocontrole clássico em que uma nova espécie é introduzida em o meio ambiente .

" A forma clássica de biocontrole é voltada especificamente para o manejo de espécies invasoras " , diz Wyckhuys .

O biocontrole oferece a opção de voltar a a região de origem de aquela praga , estudar os inimigos naturais coevoluídos e escolher os organismos que são altamente eficazes em o seu controle . " Não queremos introduzir um organismo que vai atacar outros organismos .

Selecionamos um biocontrole eficaz que seja altamente específico " , explica Wyckhuys . Alternativamente , em abordagens de conservação , pode se ajudar predadores que existem em uma região a o proteger seu habitat .

Isso pode ser feito aumentando a quantidade de cercas-vivas ou pradarias a o redor de uma plantação . Em um estudo sobre o cultivo de repolho , onde havia uma alta proporção de pradarias a o redor de uma plantação , o número de lagartas comedoras de repolho foi menor .

Isso provavelmente se deve a a maior presença de vespas parasitas em esses ambientes , dizem os pesquisadores . Em o entanto , em outros casos , as pradarias promoveram a presença de espécies de pragas como afídeos e besouros-pulga .

Não é tão simples quanto introduzir mais pradarias para reduzir as pragas a dinâmica entre as terras agrícolas e as terras selvagens precisa ser administrada com cuidado . Biocontroles de conservação como este também se limitam a o controle de pragas nativas de o ambiente local . Como os biocontroles clássicos , muitas espécies de pragas foram introduzidas por a primeira vez em seu ambiente por o homem elas não estavam necessariamente . Como os países importam sementes e safras de o mundo todo , é fácil presumir que uma ou outra praga venha junto acidentalmente .

Agora , quando se encontram em um novo ambiente sem um predador natural , elas prosperam . Finalmente , em abordagens aumentadas , um patógeno ou parasita é introduzido em uma plantação em um momento chave talvez quando as pragas começam a se reproduzir ou botar ovos , ou até mesmo antes de a chegada de a praga de modo que as espécies de controle rapidamente anulem sua ameaça , antes que sejam reduzidas e também extintas em aquela área .

A vantagem de essa abordagem é que você pode ser muito específico a o atacar as espécies de pragas .

" O controle aumentado é muito popular em o setor de estufa europeu " , diz Wyckhuys .

" Em algumas áreas , o uso de pesticidas é zero . " As estufas são reduto de os biocontroles décadas , mesmo quando os pesticidas químicos tiveram seus anos de boom . Elas têm a grande vantagem de ser um sistema mais ou menos fechado , não permite que um biocontrole predatório saia voando por .

Depois , o fato de que as plantações em estufa tendem a ter um valor mais alto tomates , pimentões e pepinos são vendidos por um valor mais alto por unidade de área de o que os cereais , por exemplo .

Em os últimos anos , a popularidade de os biocontroles se espalhou para outros setores , como floricultura , viticultura ( cultivo de uva ) e de frutas a o ar livre , como morangos .

" Em o Canadá , fizemos um levantamento em 2017/2018 , 92 % de os floricultores usam o biocontrole como principal estratégia de controle de pragas " , diz Buitenhuis .

" É uma história de sucesso incrível e surgiu por causa de a resistência a os pesticidas , especialmente em o Canadá .

"

Buitenhuis e Reid sabem que quando os agricultores de grandes áreas de plantio passarem a adotar biocontroles para seus cereais e grãos , os ventos terão voltado a soprar a seu favor .

" Se um agricultor de culturas arvenses decidiu que um controle biológico pode ser usado em o trigo ou em a cevada , nós resolvemos a questão " , afirma Reid .

De a mesma forma , Buitenhuis diz que convencer países como Colômbia , Equador e Quênia a adotar tais abordagens seriam " grandes vitórias " .


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